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Se você fosse um rato não teria medo da Lei Seca

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Se você fosse um rato não teria medo da Lei Seca

O modelo animal para pesquisa de doenças hepáticas decorrentes do alto consumo de álcool é um fiasco porque o metabolismo do animal é muito mais rápido do que o nosso e por isso o animal não acumula altos níveis de álcool no sangue e jamais seria denunciado pelo bafômetro da Lei Seca.

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Marcia Triunfol

30 Janeiro 2017 | 20h32

Neste verão de mais de 40 graus, será que você tem pensando muito no seu fígado? Será que aquelas cervejas com os amigos, aquelas muitas geladas que descem tão bem nesse calor, já pesaram na sua consciência?

Pois pense no seu fígado, aquele órgão super complexo formado por vários tipos celulares diferentes que trabalham juntos e que tem papel fundamental na sua saúde e bem-estar. É o fígado que remove toxinas (como por exemplo álcool e aspirina) e os compostos metabólicos  tóxicos que são normalmente produzidos no nosso corpo. O fígado também auxilia na digestão, armazena vitaminas e sais minerais e regula o nível de açúcar do sangue e os níveis de colesterol. Impressionante de fato essa complexidade, complexidade essa que torna esse órgão difícil de se estudar.

Nós sabemos que o alto consumo de álcool sobrecarrega o fígado, podendo levar ao desenvolvimento de cirrose, fibrose e até câncer de fígado. E embora o consumo excessivo de álcool seja um comportamento que apenas os humanos apresentam, a pesquisa sobre doenças de fígado decorrentes do consumo de álcool geralmente envolve animais. Já escutei falar de animais que comeram frutas fermentadas e depois saíram cambaleando, mas na natureza os animais não bebem álcool e não ficam bêbados.  Então, para criar um modelo que faça “uso abusivo de álcool”, pesquisadores forçam o animal a consumir níveis absurdos de álcool. O modelo animal conhecido como Tsukamoto-French, por exemplo, consiste na inserção cirúrgica de um tubo no estômago do animal que entra pelo pescoço (veja a figura abaixo), para injetar álcool no organismos do bicho.rato com tubo

Esse tubo é acoplado a uma seringa que fica acima da gaiola e a seringa fica então gotejando o álcool (ou qualquer outra toxina ou droga que se queira), diretamente no organismo do animal. Mesmo se não considerarmos o fato de que este modelo em nada representa o que realmente ocorre com humanos que bebem excessivamente (pra começar o animal nem consegue se mover nestas condições), o sistema não funciona. Isso porque mesmo quando o animal é bombardeado com álcool através de um sistema desse tipo, o metabolismo do animal (no caso camundongos) é muito mais rápido do que o nosso e por isso o animal não acumula altos níveis  de álcool no sangue (e não acusaria o alto consumo no bafómetro) e nem desenvolve as doenças decorrentes do uso abusivo de álcool, como nós. Ou seja, o desenvolvimento e uso deste modelo animal é  na real uma perda de tempo, de dinheiro, de energia e de vidas.

Outra doença comum do fígado é a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), ou esteatohepatite não-alcoólica, caracterizada pelo depósito de  gordura no fígado. A doença afeta 27% da população que vive no mundo industrializado. DHGNA pode levar a uma cirrose ou fibrose hepática mais séria, mas pode também ser facilmente evitada ingerindo-se menos gordura. Considerando que DHGNA pode ser evitada, porque ainda existem modelos animais para o estudo desta doença? Não só existem modelos como são objeto de 3.153 artigos científicos publicados desde 2009. Se fizermos uma conta bem por cima, percebemos que em torno de 67 animais são normalmente utilizados neste tipo de estudo, o que nos leva a 211.251 camundongos utilizados em menos de uma década! Isso significa quase um quarto de milhão de animais  sacrificados para se pesquisar sobre uma doença que pode ser evitada ou revertida apenas segurando a onda do consumo de gordura.

Em humanos, fibrose hepática é uma resposta do organismo a algum tipo de problema afetando o tecido hepático. Em animais, por outro lado, a fibrose hepática é produzida de forma direta, induzida (pelo pesquisador). Há muitas formas de se “produzir” uma fibrose hepática em um modelo animal e cada uma delas consiste em algum tipo de intervenção por parte do cientista. Por exemplo, usa-se muito o tetracloreto de carbono para produzir fibrose hepática em animais. Essa abordagem é uma representação fidedigna da fibrose hepática que se observa em humanos? De forma nenhuma. Mas também, como poderia? Esse composto é dificílimo de se encontrar, exatamente porque é considerado um carcinógeno. Mesmo assim, os modelos de fibrose hepática são injetados com uma quantidade 10 milhões de vezes maior de tetracloreto de carbono do que um ser humano poderia consumir. Ou seja, o modelo animal é produzido de forma induzida pelo pesquisador, utilizando uma substância que não é usada por seres humanos, e em quantidades que beira a ficção científica. Ou seja, não representa, nem de perto, o que de fato ocorre com a cirrose hepática em seres humanos. Obviamente não é um modelo científico que se justifique ou que gere real resultado. Mais uma perda de tempo, de dinheiro, de energia e de vidas.

A única forma de conseguirmos chegar a melhores tratamentos para doenças hepáticas é através do melhor entendimento de como nosso fígado sadio funciona. Há mais de 100 formas diferentes de doenças hepáticas e embora tenham causas distintas (genética, infecção, medicamentos,  etc…), a característica em comum entre elas é o fato de serem doenças crônicas, que avançam com o tempo e para as quais possuímos poucas opções de tratamento.

Mas nem tudo é tristeza. Os pesquisadores estão usando modelos de fígado humano que são construídos a partir de células humanas que imitam o funcionamento do nosso fígado e que podem ser utilizados para se estudar doenças hepáticas. Outros pesquisadores estão utilizando pedaços minúsculos de fígado humano (muitas vezes removido de cirurgias de pacientes) para estudar o efeito que determinadas drogas e medicamentos (tais como álcool, aspirina, e até gordura,) podem causar no fígado. Essas abordagens nos permitem medir as respostas do órgão em relação a diversos estímulos e as respostas obtidas são mais próximas daquilo que de fato ocorre no fígado de pacientes hepáticos. São estas as alternativas de que tanto se fala hoje no meio científico, e também entre aqueles que lutam pelo fim do uso de animais na pesquisa.

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