O analfabetismo estatístico pode te matar

Qual a probabilidade de que a mamografia irá de fato salvar a sua vida? 1 em 1000. Qual a probabilidade de que a mamografia lhe renderá um resultado falso positivo ou uma remoção de mama desnecessária? 105 em 1000. Você precisa conhecer estes números para decidir se quer ou não se submeter a mamografia para fins de rastreamento.

Marcia Triunfol

11 Novembro 2017 | 12h07

O entendimento do que é super diagnóstico vai além da medicina. O tema é relativamente novo e revela, além de outras coisas, como nosso cérebro facilmente aceita narrativas que sejam intuitivas, lógicas e simplistas. E é muito difícil derrubar uma narrativa deste tipo, ainda mais quando se quer substituí-la por outra narrativa nada lógica, de difícil compreensão e fora do universo das narrativas mágicas, das quais se ocupam as religiões. Faz todo sentido a narrativa que preconiza que quanto mais cedo detectarmos um câncer (que é o que se espera com o rastreamento por mamografia), maior a sobrevida (o tempo que se vive desde a detecção daquele câncer) e maiores as chances de cura. Mas será mesmo? Vamos lá.

Vamos primeira tratar da ideia de sobrevida. Imagine duas mulheres, Maria e Ana, as duas com perfil similar. Possuem mais de 40 anos, tiveram cada uma dois filhos, são saudáveis, e não possuem história de câncer na família ou outro risco associado ao câncer. As duas possuem o mesmo tipo de câncer, que irá se revelar como um câncer agressivo, que começou a se formar no mesmo momento, digamos Janeiro de 2012. Em Junho de 2012 o câncer da Maria foi detectado através da mamografia anual para rastreamento, e seguindo a recomendação de seu médico, logo fez a biopsia e se submeteu a mastectomia e em seguida a quimioterapia. Foram 5 anos de muita luta e sofrimento mas Maria não resistiu e faleceu em Agosto de 2017. Maria entrou nas estatísticas das mulheres com sobrevida de 5 anos. Ou seja, ela viveu pelo menos 5 anos desde o momento que seu câncer foi diagnosticado.

Já Ana não fazia mamografia e teve seu câncer detectado após surgirem os  sintomas, em fevereiro de 2014. Ana se submeteu então aos mesmos tratamentos que Maria mas veio a falecer em Maio de 2017. Ana não entrou na estatística dos 5 anos de sobrevida. Ou seja, ela não viveu 5 anos desde o momento que seu câncer foi diagnosticado. O que este exemplo mostra é que as taxas de sobrevida não necessariamente significam aumento do tempo de vida. Maria não viveu mais tempo que Ana (ok, alguns poucos meses). Enquanto Maria se submetia aos primeiros tratamentos de quimioterapia, Ana estava na praia com os amigos. O que você escolheria? Saber antes ou saber depois?

Você pode argumentar que este é apenas um exemplo. Então vamos a outro exemplo. Desta vez Maria e Ana possuem cada uma um câncer indolente, que não cresceria ou causaria qualquer problema. Maria teve seu câncer detectado pela mamografia e seguindo as orientações de seu médico, se submeteu a mastectomia e depois a quimioterapia. Maria sobreviveu e está viva até hoje. Maria entra na “estatística” de que quando se pega bem cedo, maiores as chances de cura. Já Ana, que não fez a mamografia, deve estar até agora na praia com os amigos e não entrou em qualquer estatística.


Este último exemplo ilustra exatamente o que ocorre no super diagnóstico, quando a mamografia detecta um câncer que jamais deveria ser detectado ou tratado. A detecção precoce exagera os números da narrativa que preconiza que quando detectado mais cedo maiores as chances de cura porque detecta, em sua maioria, cânceres que não precisavam de qualquer tratamento e que obviamente foram então “curados”. Maria possivelmente está dizendo para as amigas: Ainda bem que eu fiz a mamografia que detectou o câncer logo cedo. E as amigas concordam e prometem que irão fazer a mamografia todos os anos. Já Ana, esta continua na praia com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida e o assunto certamente não é câncer.

Você deve estar se perguntando: Ok, mas e quando Maria sobrevive graças a detecção precoce pela mamografia e Ana morre porque não fez mamografia? É verdade, essa possibilidade existe, mas é mínima e segundo os estudos, a mamografia pode salvar a vida de apenas uma mulher, se 1000 mulheres fizerem mamografia por 10 anos (estudos mais recentes dizem que na realidade são 2000 mulheres). Ou seja, para que Maria seja salva pela detecção precoce de um câncer que de fato responde ao tratamento e que de fato a mataria se não fosse detectado precocemente, mais 999 mulheres precisam se submeter a mamografia por 10 anos. E dentre estas 999, 100 receberão um falso positivo e 5 farão mastectomia desnecessariamente.

Qual a probabilidade de que a mamografia irá de fato salvar a sua vida? 1 em 1000. Qual a probabilidade de que a mamografia lhe renderá um resultado falso positivo ou uma remoção de mama desnecessária? 105 em 1000. Você precisa conhecer estes números para decidir se quer ou não se submeter a mamografia para fins de rastreamento.

Estes são os números revelados em  2013 em uma revisão sistemática da Cochrane (que é considerada a ferramenta que fornece a maior evidência em medicina) . Recomendo também que consulte o excelente artigo que acabou de sair intitulado “The barrier to informed choice in cancer screening: statistical illiteracy in physicians and patients”. Você irá se chocar ao saber que o analfabetismo em estatística da maioria dos médicos é uma realidade que pode ter consequências muitas sérias pra você e que em alguns casos pode até mesmo te matar.