Desculpe mas você é sim obrigado a conviver com meu cão!

Desculpe mas você é sim obrigado a conviver com meu cão!

Enquanto o mundo desenvolvido mostra cada vez mais interesse pelos cães, ainda há aqueles que resistem e acreditam poder ignorar este movimento.

Marcia Triunfol

10 Janeiro 2017 | 12h44

Mister Plástico, Mister Papel, Bolinha, Esquilo, Casa do Esquilo, Senta, Deita, Levanta, Caminha, Dá a Patinha, Espera, Vem, Praia, Comida, Petisco, Passeio…Esses são alguns dos nomes, dos comandos e palavras que Bidu, minha vira-lata de 2 anos e meio, reconhece. E para que reconhecesse todas estas palavras Bidu não teve que se submeter a nenhum treinamento intensivo, as palavras lhe vieram naturalmente, fruto de uma convivência intensa e afetuosa com humanos dedicados.  Mas Bidu não é a única de seu tipo. Pesquisa recente tem demonstrado que os cães tem capacidades e inteligências ainda desconhecidas. E para entender a capacidade destes animais, que evoluíram ao longo dos anos observando nosso comportamento e necessidades, e que apostaram dar afeto em troca de alimento (grande jogada!), vários projetos de pesquisa já existem em diversos institutos, além de projetos envolvendo o cientista-cidadão-dono-de-cão disposto a coletar dados de seus cães para pesquisa voltada ao entendimento sobre o nível de entendimento dos cachorros.

Um destes projetos é o Sensdog, que é um sensor colocado na coleira do cachorro que é então conectado a um aplicativo no smart phone. O sensor avalia o comportamento do animal e junta os dados coletados por seu dono com dados de outros cães, espalhados pelo mundo. A ideia é conseguir adquirir um entendimento ainda mais sofisticado do comportamento do animal e criar um padrão de modo que seja possível antecipar os movimentos do animal e poder prever quando ele irá apresentar um comportamento agressivo ou mesmo roubar comida da mesa. O objetivo real da iniciativa é poder desenvolver uma relações ainda mais gratificantes e estreita com aquele bicho de quatro patas que mora em nossas casas e dorme em nossas camas. Segundo os desenvolvedores do programa, a coleta de dados poderá permitir que no futuro a gente consiga conversar com nossos cães. Ai Bidu….tenho tanta coisa para te dizer!

Bidu fotogênica.

Bidu fotogênica

Sensdog não é o único a explorar a capacidade cognitiva do cão. Dognition é outra iniciativa que oferece jogos de inteligência para o seu cão. Tem jogo dedicado a diferentes áreas; memória, inteligência, empatia, comunicação, e destreza. E além dos jogos há os institutos de pesquisa dedicados a entender a capacidade cognitiva do cão. Alguns exemplos são o Canine Cognition Center, em Yale, nos Estados Unidos, o Canine Science Collaboratory, na Universidade Estadual do Arizona, também nos Estados Unidos, ou Clever Dog Lab da Universidade de Viena.

E afinal, porque todo esse interesse? Porque para uma grande parte dos humanos que habitam este planeta os cães conquistaram o status de membro da família; e assim como queremos entender nossos filhos, também queremos entender nossos cães.

Outro dia fui visitar o Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Em uma sala havia uma exposição de fotos distribuídas por colunas e cada coluna era dedicada a um tema que mostra nossa humanidade. Havia morte, nascimento, religião, costumes, comidas, casamentos, e havia família. No coluna família haviam várias fotos, algumas mostravam humanos e animais em cenas de afeto explícito. Claro já está para quem quiser ver que os animais, principalmente os cães, são família para aqueles dispostos a dividirem suas vidas com seres de outras espécies.

familia

Ainda no Rio de Janeiro, entrei outro dia com a Bidu numa loja de sapatos no Leblon. O Leblon é o bairro mais dog-friendly do Rio, possivelmente do Brasil. A maioria das lojas tem vasilhas da marca Zeedog com água para os cães na porta e cães são bem vindos no Shopping Leblon e na maioria dos estabelecimentos. Mas na loja de sapatos havia uma senhora sentada na cadeira. Quando ela viu a Bidu, que comportadamente estava sentada acompanhando com o olhar todos os meus movimentos e obedecendo a todos os meus comandos, a senhora iniciou o discurso “tira-esse-cachorro-daqui-não-sou-obrigada-a-gostar-de-cachorro”.

Pacientemente eu expliquei: “A senhora de fato não é obrigada a gostar da Bidu e nem a Bidu é obrigada a gostar da senhora. Mas a Bidu é obrigada a conviver com a senhora de forma educada, assim como a senhora é obrigada a conviver com a Bidu, porque a Bidu é parte da minha família, e ocupa um espaço importante na sociedade que vivemos.  A Bidu está comportadamente respeitando a sua presença, siga o exemplo dela e faça o mesmo”. E fui embora. E não comprei sapato nenhum.

No próximo post “Cachorro na praia é bom e eu gosto!”