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Ainda penso nos beagles
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Marcia Triunfol

12 Janeiro 2017 | 17h51

Lembra dos beagles do Instituto Royal? De vez em quando ainda penso neles. Aquele acontecimento foi de suma importância para a causa animal no Brasil, e culminou também com o início da ascensão do uso do Facebook no país. Me lembro das discussões na época e de ver cientista renomado falar na televisão, em cadeia nacional, que as pesquisas ali feitas com os beagles eram ciência de ponta e eram importantíssimas. Duvido que estes mesmos cientistas se submeteriam a tal papel hoje. Porque hoje esses cientistas já sabem (e se não sabem, cruzes!) que o que era feito ali eram testes de toxicologia (nada de ciência) e o que se dizia ciência não tinha nenhuma importância, zero, nada! Dinheiro meu e seu jogado na latrina (porque quem você pensa que pagou por aquilo ali?), tempo desperdiçado, vidas perdidas. É só entrar no maior banco de dados de trabalhos científicos do mundo, o PUBMED, e procurar por alguma coisa -qualquer coisa!- do Instituto Royal. Não tem nada.

Vai agora conversar com os cientistas mais jovens, gente como Fabio Klamt da UFRGS ou Stevens Rehen do Instituto D’Or e da UFRJ, gente que de fato faz ciência de ponta nesse país, e veja como eles se posicionam. Estão cada vez menos interessados nos animais como modelos para nossas mazelas e cada vez mais de olho nas alternativas, que são baseadas na biologia humana e tem o próprio ser humano como modelo.

Na época da queda do Instituto Royal, muitos representantes da comunidade científica diziam que quem se opunha ao uso de animais para pesquisa eram aqueles que não entendiam coisa alguma de ciência. Mesmo que na época a discussão já tivesse pego o maior gás nos países desenvolvidos, aqui os opositores eram chamados de ignorantes. Clássico!

E tudo isso para contar sobre uma iniciativa  que está rolando nos Estados Unidos chamada “White Coat Waste” que no português seria “Desperdício do Jaleco Branco”. O movimento reúne pessoas dos mais diversos partidos e inclinações, que juntos protestam contra os milhões de dólares que o governo americano gasta com pesquisas inúteis e cruéis realizadas com cães beagles. Só no ano de 2015, 61 mil cães foram utilizados em experimentos nos Estados Unidos. A organização até preparou um parecer sobre esta questão, que está disponível em inglês AQUI, onde relata o absurdo e inutilidade do que é feito, os valores que são gastos e como a informação relativa a este tipo de pesquisa é limitada e pouco transparente.

beagles

Hoje já existe muita evidência, estudo, análise, mostrando que, DE FATO, os estudos feitos em animais são em sua GRANDÍSSIMA MAIORIA, inúteis. Isso se dá por várias razões que vão desde razões científicas (somos muito diferentes) até razões logísticas (estudos mal feitos). O fato é que no fim das contas, não serve pra nada. E mesmo assim, há um número grande de cientistas que insistem em trabalhar com animais. Já pensei muito sobre isso. Porque insistem? São sádicos? Não, não acham que sejam sádicos. Para muitos, principalmente no Brasil, trata-se do sujeito que “fez desse jeito a vida toda” e não está nem um pouco a fim de mudar.  Mudar dá trabalho. Pra que mudar? Outros encaram o trabalho com animais como algo lúdico, semelhante ao sujeito que tem prazer em abrir o radinho ou a televisão pra descobrir o que tem dentro. E ainda, esses caras escutaram desde os tempos da faculdade de que era assim que se fazia ciência, que sem animais não há ciência biomédica, que os animais precisam se sacrificar por nós. E por fim tem aqueles que nem pensam sobre o assunto ou sobre coisa alguma.

Mas aos poucos o assunto vai ganhando espaço, as alternativas vão ganhando destaque e um dia muitos terão que rebolar para explicar aos netos que as pesquisas inúteis feitas naquele mundo de animais sacrificados eram o reflexo de uma época, era assim que se fazia- dirão-! Pois tome tendência rapaz, porque a tendência agora já é outra! Deixe os beagles em paz!

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