Uma semana com os Yawanawas
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma semana com os Yawanawas

Maria Fernanda Ribeiro

25 Julho 2016 | 13h40

thumb_IMG_0414_1024

Talvez me faltem palavras para descrever o que vivi por aqui na última semana junto aos índios da etnia Yawanawa, no coração da Amazônia, no Acre, mas prometo que vou tentar. Eu não queria ter fotografado nada. Eu não queria ter filmado nada. Só queria ter vivido tudo. Ao mesmo tempo o contrário também é verdadeiro porque eu gostaria de mostrar para vocês tudo o que experimentei e a imensidão de vida que há por aqui, mas as imagens também não seriam o bastante. Em muitas situações basta viver para contar. Aqui isso não se aplica. É preciso viver para saber.
Deixei mais uma vez a cidade de Cruzeiro do Sul. Dessa vez em direção à Vila de São Vicente. Foram três horas de carro pela esburacada BR 364. De lá pegamos um barco em direção à aldeia Mutum, onde vivem cerca de 20 famílias Yawanawa. Mutum é a penúltima das oito aldeias espalhadas à margem do rio Gregório, no município de Tarauacá, que abriga os índios dessa etnia.

Foram quase oito horas navegando por essas águas, que estavam tão rasas quanto selvagens. Troncos imensos que chegaram ao rio empurrados pelas chuvas durante o Inverno agora se exibem por todo o percurso e ao barqueiro não basta ser bom, mas excelente. Marcelo, de 17 anos, foi quem nos conduziu por essas águas sinuosas em um barco que na verdade são canoas de alumínio. Como esses barcos que os pescadores usam, também conhecidos como voadeiras. Marcelo não desgrudava o olho do rio um só instante que era para evitar que o mesmo se chocasse, encalhasse ou virasse. Sim, os barcos viram. De praxe. É a selva.

Entre o desconforto do banco de metal e uma adrenalina similar ao descer uma montanha-russa, mas sem a garantia de que o carrinho não vai tombar no final, patos selvagens sobrevoam a selva. Duas araras passam pelo seu barco. Uma mulher carregando uma canoa carregada de pencas de banana passa remando em pé. Meninas jogando vôlei com uma rede montada no rio. Uma árvore com tantos ninhos de japiim que você não sabe como ela pode suportar resignada tamanha responsabilidade. Crianças que param para ver todos os barcos que passam e você se pergunta o que elas fazem ali o dia todo sem internet, televisão ou telefone, num lugar no meio do nada.


Antes de embarcar, eu imaginava que oito horas num barco seria o suficiente para que eu pudesse começar a me arrepender da minha aventura Amazônia adentro. Não foi. É como fazer uma trilha de moto, mesmo eu nunca tendo feito uma.

Então, conforme as horas passam você percebe que aquele jovem e exímio barqueiro que te guia tem os olhos de lince e passa a confiar sua vida a ele. Até que o tempo passou, anoiteceu e chegamos. O barco encalhou e quebrou, mas não virou. Fomos recebidos com café e cuscuz de milho na cozinha comunitária. Enquanto comíamos, mulheres esquartejavam ao nosso lado um boi que havia sido morto naquele dia e jantamos ao som de facões que cortavam com força aquele animal que já tinha se transformado em pedaços de carne. Lembrei da frase “por trás de cada prato há morte”, do chef Alex Atala. Eu, que sou vegetariana, encarei sem julgamentos aquela cena e continuei com o meu café enquanto o cheiro de sangue adentrava as minhas narinas.

Fomos alojados em uma casa de árvore, que é a moradia de uma índia. Ela cedeu o espaço para nós. Agradecemos imensamente. Casa de árvore só existia na nossa imaginação até então. Atamos nossa rede, que seria a nossa cama pelos próximos sete dias, período em que os Yawanawas realizavam o Festival Mariri, que é quando eles recebem na aldeia pessoas de outros lugares com o objetivo de divulgar sua cultura milenar e integrar o povo branco com os índios. Entre as festividades, o ritual do Uni, que é a Ayahuasca Yawanawa, mas essa é uma história que merece um espaço inteiro só pra ela e contarei logo mais.

Ao amanhecer, a aldeia se revelou e parecia que nós, os brancos, participávamos de uma grande festa familiar. Como se o festival existisse mesmo para unir os próprios índios, que chegavam das outras aldeias para se envolverem nas com as danças, brincadeiras e rituais. Não foi uma festa só, e somente só, para turista ver. Foi como se tivéssemos ganhado um passaporte para viver ali, onde não há telefone, internet ou televisão.

Durante todo o tempo nos alimentamos basicamente da macaxeira, que reina soberana, arroz, feijão, banana e um pouco de peixe, galinha ou carne de boi. Para beber, água. Na aldeia não entra bebida alcoólica, mas tem bastante tabaco e o uso do rapé é constante e faz parte da cultura, assim como o Uni. Os Yawanawas são unidos, são caçadores, são organizados e são saudáveis. Aproveitam a terra, protegem a floresta e sabem como brincar, sabem como se divertir e sabem como sorrir. E também não são picados pelos piuns, os mosquitos que não dão bola aos mais potentes dos repelentes e que devoram somente os brancos, como eu. As picadas são incontáveis, mas não capazes de ofuscar o brilho ensolarado do lugar. Piuns, muito prazer.

O discurso entre eles é uníssono: a floresta preserva a nossa vida e garante a sobrevivência e é preciso ter muito cuidado com ela e vocês todos estão convidados a participar desse movimento de preservação da nossa floresta. Somos todos guardiões da selva. Essa selva quente de dia e gelada nas madrugadas.

Os Yawanawas também são verdadeiros artistas. Fazem pinturas corporais usando o jenipapo como tinta e os desenhos se formam enquanto seus pincéis artesanais bailam pelo seu corpo e a criatividade aflora. Eles produzem artesanatos com miçangas coloridas e uniformes, fazem roupas com pinturas em tecido, costuram e cantam. Cantam muito. As meninas cantoras Yawanawas são capazes de fazer o seu coração palpitar durante horas a fio com suas vozes afinadas e seus violões pulsantes que não cessam nas madrugadas no meio da floresta. Para completar o cenário, uma lua cheia que iluminava o espaço como um holofote em estádio de futebol e uma fogueira aos pés da sumaúma centenária. Penso se será possível encontrar pelo meu caminho vozes mais belas. Talvez não.

Uni

O uso da ayahuasca é o elemento central de rituais xamânicos herdados da cultura indígena e o Acre é o berço dessa doutrina, onde o chá é consumido de maneira regular por pessoas de todas as idades, inclusive crianças e idosos. A bebida é usada há milhares de anos por pajés de várias tribos amazônicas. Nos Yawanawas não é diferente. Durante o festival, os rituais atravessavam as madrugadas.

A ayahuasca é produzida a partir de duas plantas nativas da floresta amazônica: o cipó mariri e folhas do arbusto chacrona ou rainha (Psychotria viridis). Com gosto amargo, a cor da bebida varia entre ocre e marrom-escuro e seus efeitos mais comuns são vômito e diarreia. O chá também provoca alucinações e visões místicas. Mas isso não impede que ela seja consumida regularmente por índios da Amazônia ou pelas seitas religiosas como o Santo Daime e a União do Vegetal (UDV).

Na primeira noite com os Yawanawas, cinco horas após o ritual ter começado, pediram a nossa atenção que Tatá, o pajé, gostaria de entoar um canto. Mas era preciso chegar bem perto para ouvir, orientaram, porque Tatá tem a voz frágil. Tatá, que tem cerca de 103 anos, pelos cálculos deles, pois não há registro de nascimento, encheu o pulmão e soltou a voz por duas horas e meia cronometradas por mim. Tatá, 103 anos, o pajé, canta baixo, mas cantou alto dessa vez empoderado pela força do Uni.

Nesse momento me lembrei daquelas crianças que paravam para observar o barco passando naquele lugar no meio do nada e entendi que o meio do nada pode ser o meio de tudo e que o fim do mundo pode ser o começo dele. E começo a perceber também que o Acre não é um estado. É um portal que te pega pela mão e te leva para um resgate às nossas origens. Viva o Acre. E viva o Brasil.

Facebook: Eu na Floresta

Instagram: eunafloresta

Snap: nafloresta

Twitter: @mfernandarib

Email: eunafloresta@gmail.com