Uma floresta que me espera
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma floresta que me espera

Maria Fernanda Ribeiro

07 Julho 2016 | 17h41

Vou morar na Amazônia. E falta pouco. Terça que vem, 12 de julho, embarco para a maior odisseia da minha vida até então. Vou rodar os nove estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Maranhão, Mato Grosso e Rondônia) em busca dos moradores da floresta para conhecer os verdadeiros guardiões da selva. Quem são eles, como vivem, como se relacionam com o dinheiro, com o consumo e com o tempo são algumas das respostas que eu pretendo encontrar. E, talvez mais do que encontrar, aprender com eles. Aprender e viver. Ribeirinhos, quilombolas, indígenas, criadores de búfalos, produtores de açaí, pescadores, quebradeiras de coco, produtores de capim dourado e todos os seres humanos que a imensidão da floresta permitir que eu tenha contato. Na bagagem, os pertences que couberam numa mochila de 50 litros e o suficiente para que seja leve.

Desde que anunciei a minha jornada, são duas as perguntas que mais ouço: quando foi o clique de abandonar tudo e por que a Amazônia? Eu respondo sempre que a culpa é da floresta porque desde que estive lá em janeiro deste ano por 20 dias, pela primeira vez, e tive contato com duas comunidades ribeirinhas, não tive mais sossego. Na volta, ao pisar em São Paulo, meu olhar em relação ao Brasil estava modificado por completo. Todos os meus conceitos sociais, políticos, econômicos e geográficos se esvaíram. Dormi em duas comunidades ribeirinhas distintas e me dei conta de como a minha visão em relação ao país era completamente limitada e deturpada pelo meio em que eu habito.

Comecei a ler sobre a Amazônia e seus personagens. Sobre a época da borracha, da escravidão dos seringueiros e a maneira como eles se uniram e lutaram para conseguirem a liberdade. Sobre como o Exército incentivou o desmatamento da floresta para levar o progresso e defender fronteiras. Sobre como a ditadura maltratou e matou índios. Sobre os rios e os animais, sobre a importância da floresta para o mundo.

Foi nesse momento que percebi que também integrava um sistema que eu mesma colocava em xeque diariamente, que é a roda da vida de trabalhar para pagar contas e consumir e comprar um apartamento e depois comprar um maior e depois trocar de carro e depois comprar mais roupa e depois um armário novo para caber as roupas e depois trabalhar mais e mais horas. E sentir que faltava tempo para ler, cuidar das minhas plantas, ir à feira de orgânicos, passar mais tempo com a minha mãe, com o meu pai, com os meus sobrinhos, com os meus irmãos. Mais tempo para viver. E para quê? Por quê? Para quem? Foi então que uma luz se acendeu. E ela teimava em não se apagar.


Além disso, eu já planejava um sabático há anos onde eu pudesse unir o desconhecido com o jornalismo, profissão que exerço desde 2004. Voltar para a Amazônia foi a resposta que encontrei para tudo aquilo que me inquietava. As pessoas me chamam de corajosa. Digo a elas que não sei se podemos chamar de coragem algo que bate à sua porta. É como se morássemos em um labirinto e nunca tivéssemos visto a saída, mas nos acostumamos a viver ali dentro, embora não sem pensar como seria a vida fora dele. Então, de repente, você sai para passear com o cachorro e sem esperar dá de cara com a porta de saída. Você finge que não vê e volta para a sua vida ou vai dar uma espiada para ver como é que é fora dali? Eu escolhi a segunda opção. Se isso é ter coragem, então eu aceito o título de corajosa.

Não há previsão para o término da viagem e, apesar de haver um roteiro, ele poderá ser alterado a qualquer momento, seja por força do destino, da minha vontade, da convicção, da altura das águas ou da intensidade das chuvas. Posso ir e posso ficar. Posso ampliar o tempo que ficaria em uma comunidade ou adiantar o próximo destino. Por enquanto só há uma passagem, e é a de ida, de São Paulo para Cruzeiro do Sul, no Acre, cidade que é a porta de entrada para a etnia Yawanawás, terra Indígena do rio Gregório, onde participo de um festival indígena em celebração aos costumes da tribo. Pelos meus planos devo ficar cerca de um mês e meio no Acre e depois seguir o rio até chegar em Manaus, no Amazonas, onde traçarei roteiro para aquele estado. Mas pode ser mais. Ou menos. Vou deixar a floresta me guiar.

A poucos dias do embarque não param de chegar novos contatos e, junto com eles, uma alma que se alimenta com gestos generosos de solidariedade e gentileza. Pessoas desconhecidas que te oferecem hospedagem, dicas de viagem e telefones de barqueiros camaradas. Que te ensinam a melhor maneira de chegar nesse ou naquele lugar, enviam materiais, contam histórias e explicam sobre o clima e os rios. Contatos que chegam por email, pelas redes sociais e até numa mesa de bar quando alguém ouve a minha história. Amigo do amigo do amigo. Em alguns casos já nem consigo lembrar qual foi o primeiro elo da corrente. A todos, meu muito obrigada. Meu coração já transborda de alegria mais do que água do Tapajós em época de cheia.

Volto em breve com novidades. Enquanto isso, se você tiver alguma dica, sugestão ou contato daquelas bandas, me conta. Vamos ampliar os elos dessa corrente e, juntos, ecoar os sons da selva. Até já.

 

Pôr do Sol no rio Tapajós

Pôr do Sol no rio Tapajós

 

 

 

 

 

 

 

 

Facebook: https://www.facebook.com/eunafloresta/

Twitter: @mfernandarib

Instagram: eunafloresta

Snap: nafloresta