Um conto de Natal indígena
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Um conto de Natal indígena

Maria Fernanda Ribeiro

08 Janeiro 2017 | 06h23

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Tayrikari, o menino Ashaninka que tem nome de tucano

Desculpem-me a demora na postagem, mas além do recesso de final de ano também andei por terras já antes desbravadas onde o acesso à internet é raro. Estava com os índios Ashaninka do rio Amônia, no Acre, bem na fronteira com o Peru, onde passei a virada do ano e também acompanhei a posse de Isaac Piãko na cidade de Marechal Thaumaturgo como o primeiro prefeito indígena da história do Acre.

Mas não estou aqui para escrever sobre a minha ceia – carne de anta com macaxeira – e nem sobre o discurso de Isaac ao povo thaumaturguense. Quero mesmo é contar sobre uma manhã que passei com o pequeno Tayrikari, um Ashaninka de 8 anos que ficou comigo durante os 40 minutos em que consegui conexão no único ponto de acesso à internet na aldeia Apiwtxa.

 

Eu tentava ler as últimas notícias do Brasil e do mundo quando ele apareceu e perguntou o que eu estava fazendo. Antes mesmo que eu terminasse a explicação o notebook já estava nas mãos dele. Tayrikari, cujo nome significa um tipo de tucano, queria ver fotos da “aldeia” onde fica a minha casa, São Paulo. E lá fui eu acessar o Google para mostrar a Avenida Paulista, ponto mais próximo de onde está localizado o apartamento onde parte das minhas coisas – leia-se livros e roupas – permanece guardada.

 

Ele não entendeu direito aqueles edifícios todos e perguntou onde é que eu dormia. Tentei explicar que em cada uma daquelas janelas havia uma casa e, em cada casa, morava uma família. Ele se encantou com a ponte Estaiada e com o rio Pinheiros, que ele achou que era como o rio que corta a aldeia dele, com peixes para pescar e comer e que dá para navegar de bote. Não encontrei palavras suficientes para explicar que o Pinheiros foi assim um dia, mas que atualmente as pessoas até tampavam o nariz quando chegavam perto dele. Nadar ali, nem pensar. E tomar banho, pode? Não também, querido.

 

Em algum momento apareceu nas imagens uma árvore de Natal e Tayrikari me disse que um dos primos havia dito a ele que era preciso colocar a sandália embaixo do colchão para ganhar presente. Ele até seguiu o conselho, mas o Papai Noel não parece ter entendido o recado e não trocou o chinelo por brinquedo algum. Tentei explicar que o Papai Noel não conseguia atender a todas as crianças mesmo, ainda mais as que moram muito longe.

 

Ele questionou se o bom velhinho chegava de barco ou voando porque alguém tinha dito que Papai Noel voava. Respondi que achava que ali na aldeia era de barco mesmo. E que em São Paulo tinha que ser de helicóptero porque se fosse de carro ia ficar preso no congestionamento e que talvez por isso tanta criança na metrópole também ficasse sem presente.

 

Tayrikari, assim como várias outras crianças da aldeia, não sabia como era a figura do Papai Noel. Nunca tinham visto nenhum pessoalmente, nem em fotos e nem em desenhos ou filmes. Para os índios Ashaninka essa não é uma data para troca de presentes e nem para desfrutar comidas especiais. É apenas mais um dia. Quando questionei o que eles tinham jantado na noite de Natal, por exemplo, a resposta foi: “comida, ué!”.

 

Mas isso não impediu a curiosidade da criança para ver como é um Papai Noel. E lá fomos nós para a internet mais uma vez. Ao ver a rena, ele perguntou se aquele animal era o cavalo voador. Mais ou menos isso, respondi. Depois ficou confuso quando a imagem era a de um Papai Noel metido a metaleiro. E ao ver um velhinho de gorro vermelho e barba branca munido de uma espingarda logo concluiu que era um Papai Noel caçador. “Acho que ele vai pegar uma anta”, sentenciou. Concordei.

 

Com a bateria do computador que chegava ao fim, demos por encerrada a busca por imagens do Papai Noel. No caminho de volta para a casa dele – uma moradia típica Ashaninka -, perguntei se tinha ficado triste de não ter ganhado presente e ele, com um sorriso que não o deixava mentir, garantiu que não. Mas o que você pediu para o Papai Noel, Tayrikari? Não pedi nada não, só coloquei a sandália por colocar.

 

Então agora vamos logo embora almoçar que estou sabendo que tem um macaco assando lá na sua casa que já deve estar pronto. Tá bom, mas depois podemos ver mais fotos do Papai Noel? Podemos sim.

 

Casa típica Ashaninka

Casa típica Ashaninka

 

 

Rio Amônia, que corta a aldeia onde Tayrikari mora, a Apiwtxa

Rio Amônia, que corta a aldeia onde Tayrikari mora, a Apiwtxa

 

 

 

 

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