Histórias ancestrais mantêm a cultura dos povos indígenas
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Histórias ancestrais mantêm a cultura dos povos indígenas

Maria Fernanda Ribeiro

21 Outubro 2016 | 07h39

Aldeia Lapetanha, uma das 25 que compõem a Terra Indígena Sete de Setembro

Aldeia Lapetanha, uma das 25 que compõem a Terra Indígena Sete de Setembro

 

Na cultura do povo indígena Paiter Suruí, a mulher, quando acontece a primeira menstruação, deve ficar isolada em um local específico por seis meses. É nesse lugar, que geralmente é uma maloca construída pelo pai dela, onde receberá a orientação da avó e da mãe de como deve se comportar e de como deve fazer os trabalhos de tecer algodão. Quando reclusa, ela só pode conversar com pessoas bem próximas e somente o necessário. Segundo a história dos Suruí, se a menina que está ali conversar muito será uma mulher fofoqueira ao sair para o mundo. Ela também não deve ficar olhando de maneira escondida para as pessoas que por ali passam, pois corre o sério risco de ficar zarolha. Isso, zarolha.

 


Também não pode tomar água gelada durante um mês e durante os seis meses de reclusão só pode tomar banho de água morna para evitar reumatismo. Os cabelos são cortados bem curtos. Isso acontece com todas as meninas, independente da idade em que ocorra a primeira menstruação. De todas as seis etnias que conheci até agora, as Suruí Paiter são definitivamente as que possuem os cabelos mais longos, mas isso é apenas uma observação que não está relacionada ao corte dos fios. A língua nativa, o tupi-mondé, também está preservada e o português só é falado quando precisam se comunicar com não-indígenas, como eu.

 

O povo Paiter Suruí está localizado numa área de 248 mil hectares, entre Rondônia e Mato Grosso. Eles estão divididos em 25 aldeias e contam atualmente com cerca de 1.300 pessoas. Natália e Celeste, as duas adolescentes Suruí que me contaram essa história durante a semana que fiquei na aldeia Lapetanha, perto da cidade de Cacoal – a terceira maior cidade de Rondônia, com cerca de 78 mil habitantes segundo o IBGE –  disseram ainda que no primeiro dia da reclusão a menina precisa ficar deitada o tempo todo olhando apenas para a direção do pé. Para não ficar zarolha, lembram?

 

Mas esse costume não começou assim, do nada, sem fundamento. Há uma história ancestral que carrega toda essa cultura até hoje. Lá, bem lá atrás, na época dos antepassados dos Paiter, quando os animais ainda eram humanos, as mulheres com bebês recém-nascidos também ficavam reclusas numa maloca. Certo dia, uma dessas mulheres traiu o marido com o homem-anta. Diferente das outras, essa nunca ia ao banheiro quando todas iam – desde os primórdios mulheres vão ao banheiro acompanhadas – porque dizia que estava sem vontade e que poderia ir sozinha depois.

 

Mas tudo isso era pretexto para ir ao encontro do homem-anta. As demais mulheres, desconfiadas, um belo dia resolveram ir atrás dela e descobriram tudo. Como se não bastasse terem descoberto o segredo, as fofoqueiras foram contar para o marido traído que, furioso, matou o homem-anta e pendurou o pênis dele na sala para que a mulher, quando chegasse, visse os pingos de sangue que dele caíam. Os filhos também foram mortos. E, se não me engano, a mulher também não escapou ilesa dessa não. Não é à toa que hoje as meninas não podem conversar demasiadamente quando estão reclusas. As fofoqueiras, afinal, já causaram tragédia suficiente por ali.

Celeste, Silvana e Natália: três irmãs e guardiães da cultura milenar

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Para os não-indígenas, histórias como essa soam como lendas que não permitiríamos que interferissem em nosso cotidiano, mas para os povos originários elas fazem parte da cultura milenar e é muito valorizada. Por isso, são sempre relembradas de maneira insistente para que não se percam entre as gerações. São histórias contadas de pais para filhos e de avós para netos nas tradicionais conversas que os indígenas ainda mantém diariamente em suas casas. Nos Paiter Suruí elas também são aprendidas nas escolas, como forma de resgate e permanência da cultura.

 

Cada etnia tem a sua própria crença e muitas funcionam como um código de normas e conduta, sejam nas questões que envolvem a puberdade, seja para tratar de alimentação ou mesmo de sexo. Algumas dessas histórias foram criadas a partir de fatos verídicos acontecidos nas regiões onde viveram seus heróis antepassados.

 

Celeste e Natália, que são irmãs por parte do pai, foram as minhas companhias durante as noites na aldeia. Como eu estava sozinha hospedada em uma casa, elas iam lá para dormir comigo e, como uma criança, eu sempre pedia que antes de pegássemos no sono elas me contassem uma história. A da mulher que traiu o marido com o homem-anta foi uma delas e, apesar de contada em tom de brincadeira – uma característica dos Suruí -, não encontrei ninguém que duvidasse dela. Nem eu mesma.

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