Rio Branco, uma capital para chamar de sua
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Rio Branco, uma capital para chamar de sua

Maria Fernanda Ribeiro

08 Outubro 2016 | 21h17

Palácio Rio Branco

Palácio Rio Branco, localizado no Centro de Rio Branco

Açaí, andiroba, bacaba, bacuri, buriti, cajá, copaíba, graviola, patoá, crajiru, mulateiro. Arroz com feijão, macarrão e macaxeira. Farinha, muita farinha. Tucupi. Tacacá. Mingau de banana. Mingau de tapioca. Foi por pouco que não cometi o erro da ingratidão e deixo o Acre sem escrever sobre Rio Branco, a capital do Estado, o que seria um erro sem precedentes da minha parte com essa cidade onde o hino do Estado é tocado nos eventos e todo mundo sabe cantar, o calor nunca dá trégua e o sol sempre se põe majestoso. Os dias foram abafados e as chuvas foram escassas e a falta de calçadas e a ausência de árvores pelas ruas tornou qualquer caminhada uma miragem do deserto, mas os sucos de graviola da pensão da Mãezinha do Novo Mercado Velho, localizado às margens do Rio Acre, foram capazes de amenizar todo o sufoco.

 

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Como já diz o próprio nome, o Novo Mercado Velho é o velho mercado, só que agora revitalizado e… novo. Entendeu? Foi lá na pensão da Mãezinha que também comi muito peixe com arroz, feijão e farofa por R$ 16 o prato. E pensão, aqui, não é lugar para dormir não. É lugar de comer mesmo e elas estão espalhadas por toda a cidade e geralmente com nomes carinhosos assim como o da Mãezinha, da Deinha e da Toinha.

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Mãezinha, à esquerda, ao me ver já falava: hoje tem peixe

Foi também às margens do rio Acre que tomei pela primeira vez o famoso chope sujo de Rio Branco. É chope, mas o copo já vem com limão e sal na borda. Um perigo, amigos, porque desce igual suco de limão e nunca mais me atrevi a tomar um chope “limpo”. Para acompanhar as rodadas de chope sujo você pode pedir um quibe de macaxeira ou um quibe de arroz ou uma tapioca ou um pirarucu à casaca. Ou um de cada um. Pode ser que enquanto você bebe, um boto dê as caras no rio e uma discussão irá começar para saber se era mesmo um boto ou a cabeça de uma sucuri. Eu prefiro acreditar no boto.

 

Mas vamos falar da famosa baixaria no café da manhã. Essa safadeza é um prato típico acreano composto de cuscuz de milho, carne moída, ovo (um ou dois, fica a cargo do freguês) e cheiro verde, que aqui é com coentro e não com salsinha. Sempre coentro, muito coentro no maior estilo ame ou deixe-o. Salsinha deixa um gosto muito forte na comida, dizem por aqui. As más línguas  também dizem que a safada da baixaria tem 1.900 calorias. Não dei ouvidos para a fofoca e comi. E depois comi de novo. Ainda tem o charuto gigante enrolado na couve que é servido em toda a esquina por preços bem módicos e que valem por uma refeição. Vatapá também tem. Como me disseram esses dias, o Acre é o Império do Amido. E é mesmo amigos.

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Baixaria: 1900 calorias num prato. E quem é que acredita?

Toda essa influência libanesa e nordestina começou lá atrás, no Ciclo da Borracha. Os libaneses vieram para vender suas mercadorias. E os nordestinos para trabalhar nos seringais. Deu no que deu a gastronomia. E a hospitalidade também vem lá daquele pessoal caloroso do Nordeste e, por isso, aqui não falta abraço, amor e pessoal te chamando para te hospedar, para jantar, para te buscar, para te levar ao supermercado. Se você não aceita corre o risco de ser chamada de ingrata. Quando eles convidam, é para aceitar.

 

Tem os parques lineares, que foram construídos ao longo dos canais e córregos e proporcionam uma integração das pessoas com a cidade, com as pistas de skate, ciclovias, as quadras poliesportivas e os playgrounds ao longo do trajeto. Nas livrarias e bibliotecas da cidade, espaços reservados para os autores locais. Li três livros de escritores da Amazônia e estou lendo o quarto. O pessoal do Acre é bom de escrita, de música e de arte.

 

Tem também a biblioteca da Floresta com exposições sobre os povos indígenas do Acre. E tinha o Museu da Borracha, assim como me disseram que também tinha árvores pelas ruas. As árvores cederam espaço para o tal do progresso, que chegou em forma de concreto e de asfalto, mas não em forma de calçada. Já com o Museu da Borracha não sei o que aconteceu.

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Vista do rio Acre: boto ou sucuri?

Apesar de estar localizada no meio da Amazônia, Rio Branco está muito ligada à cultura do agronegócio, com músicas sertanejas, pastos e mais pastos ao longo das rodovias e muita carne nos pratos dos acreanos. Nas lojas do Centro, as músicas evangélicas são as que predominam. Se você não é evangélico, problema seu.

Arroz, feijão, macarrão, macaxeira e pirarucu. Aí coloca farinha e pimenta

Arroz, feijão, macarrão, macaxeira e pirarucu. Aí coloca farinha e pimenta

No ônibus as pessoas ainda não conhecem a tática de tirar a mochila das costas durante o trajeto para sobrar mais espaço. O por favor e o obrigada não são palavras muito proferidas no cotidiano, mas isso não significa que as pessoas sejam mal-educadas porque a verdade é que todo mundo se entende.

 

A cortesia chega no “princesa”, que é como te chamam todas as atendentes dos estabelecimentos, e no “maninha”, que também é como te chamam, esteja você aonde estiver. Funciona mais ou menos assim, ó: Para pedir um salgado a mulher fala “ei, moça, me dá um quibe de arroz aí” e a pessoa atrás do balcão vai lá na maior da boa vontade e diz “tá aí seu quibe minha princesa”. “Falou maninha”, se despede aquela que pediu o salgado. Seria uma junção de matutos e corteses, como bem definiu uma amiga acreana, a mesma que me chamou de ingrata quando recusei uma carona dizendo que eu poderia chamar um táxi sem problema algum.

 

Eu gostei dessa combinação toda de nordestino com libanês e atrevo-me a dizer, quem diria, que eu eu poderia até morar por aqui, mas a verdade é que agora preciso seguir viagem. Rondônia me aguarda. Tchau maninhas. Tchau princesas. A gente se vê.

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Maria Fernanda Ribeiro

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