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Um lugar chamado Parintins
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Maria Fernanda Ribeiro

03 Abril 2017 | 06h04

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Azul. Vermelho. Ou um ou outro. Caprichoso. Garantido. Ou seria o contrário. Cuidado com essa pulseira vermelha aí se for na área do Caprichoso. Olha, não me vá com essa blusa azul se for acompanhar o ensaio do Garantido. É sério, toma cuidado que eles não gostam, alertam os veteranos da cidade aos novatos que tendem a não levar tudo tão a sério assim. Como eu.

 

Parintins.

 

Na cidade do boi, localizada no interior do Amazonas, a 369 quilômetros da capital Manaus, não interessa se é época de festival ou não. O que vale mesmo é manter a chama do amor pelo boi acesa o ano todo, com festas que são celebradas durante os meses que antecedem este que é considerado o segundo maior evento folclórico brasileiro, perdendo apenas para o Carnaval.

 

Azul. Vermelho.

 

Na última semana do mês de março foi época de gravação do DVD do boi Caprichoso e as vitrines das lojas da cidade estavam todas tomadas de adereços da cor azul-celeste, característica desse que é considerado – não por mim – o boi da elite. Barcos vieram das cidades vizinhas para prestigiar o espetáculo e mesmo quem é do boi contrário pagou para ver se o adversário fazia bonito. E não houve quem dissesse que não.

Gravação do DVD Caprichoso, no dia 25 de março

 

O povo mesmo é Garantido, explicam sempre. Meu coração é vermelho, cantam com frequência durante a explanação para lembrar a música Vermelho, interpretada por personalidades como Daniela Mercury, Fafá de Belém e, claro, a banda Carrapicho. Mas esse ano a crise chegou ali e o boi do povão não conseguiu dinheiro para gravar o DVD. Viu como o Caprichoso é da elite?

 

Questionados qual torcida seria a maior, ninguém ousa palpitar, mas o boi vermelho ganha no número de títulos e isso é um fato consumado. Tão consumado que rumores apontam que o Garantido está até com boa vontade para doar uns títulos ao outro boi para tornar, digamos, o festival mais equilibrado.

 

Mas, a cidade dividida ao meio e que tem até entre os mortos as homenagens aos bois, seja na cor dos caixões ou nas frases de amor eternizadas nos mármores das lápides, não é só vermelha e azul não. É também rosa. É também Boi Boiola, o boi que não está no calendário oficial do evento, mas arrasa há 13 anos uma semana antes do festival com uma festa que reúne gente do azul e do vermelho em prol do pink.

 

O Boi Boiola cria paródias em cima das histórias oficiais do Caprichoso e do Garantido e tem como objetivo quebrar as barreiras do preconceito por meio da irreverência. E tudo começou com um grupo de amigos homossexuais que nutriam um desejo de serem componentes do festival tradicionalmente representados por mulheres, como a Cunhã Poranga, que representa a moça bonita, guerreira e guardiã. Ou a Sinhazinha da Fazenda, que precisa ser cheia de graça e desenvoltura. No Boi Boiola, tem espaço para cada um ser o que quiser.

 

Aliás, no Boi Boiola pode tudo. Pode principalmente bom humor. E muita purpurina.

*

Mas como nem só de boi vive o homem, aproveite a passagem por Parintins e vá até o Mercado Municipal conhecer as histórias das mulheres camaroeiras, umas guerreiras que moram do outro lado do rio e não só pescam o camarão como são as responsáveis por vendê-los no mercado todos os dias, sob um sol amazônico que faz pestanejar até os entendidos do assunto.

 

E a dica das mulheres camaroeiras veio da dona Socorro, a proprietária do hotel Icamiabas, onde os postos de trabalho são preenchidos apenas por mulheres que é para fazer jus à lenda amazônica de uma tribo formada por mulheres guerreiras que não aceitavam homens no local. A Socorro aceita, mas só se for como hóspede.

 

Com o único aeroporto fechado por meses, Parintins, que é uma ilha, ficou com acesso possível apenas por água. De lancha rápida são sete horas. De barco comum lá se vão 17 horas. Isso saindo de Manaus.

 

Barco com torcida do Caprichoso chega de Manaus para participar da gravação do DVD

 

O acesso aéreo estava fechado por determinação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) desde outubro do ano passado e, apesar de as alegações serem não conformidades na aderência da pista, quem levou a culpa mesmo foram os pobres urubus. A história é que devido a um aterro sanitário no local eles ficam lá aglomerados e atrapalham os pousos e decolagens, mas um plano de manejo para que eles sejam enviados para bem longe já está em execução. Pelo menos a 50 quilômetros de distância é onde eles irão parar.

 

E como o assunto é mobilidade, há algumas opções para se locomover por Parintins. Você pode pegar um táxi, cujos valores das corridas são fechados entre R$ 15 e R$ 20 (mas terá taxista cobrando mais, mas reclame que o preço volta ao original). Pode ser um moto-táxi por R$ 5 a corrida. Pode ser um triciclo, que é tradicional da cidade, onde são transportados de pessoas, a animais, frutas e … canoas!, também por R$ 5. Além do preço convidativo, ainda ajuda a preservar o meio ambiente e os pilotos são todos cheios de saúde.

 

Tem banana, tucupi, limão, laranja…

 

O Euler, por exemplo, trabalha com triciclo há 20 anos e jura que nunca ficou doente não. No máximo, às vezes, sente uma dorzinha nas coxas depois de levar um frete pesado. Ele, que pesava cem quilos, agora está em plena forma. Euler não me disse se é Caprichoso ou Garantido. Dizem que é o boi que te escolhe e não o contrário. Até agora, só fui apresentada ao azul-celeste. Mas desconfio que meu coração também seja vermelho. Só desconfio.

 

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Eu na Floresta

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