Para se dar bem na Amazônia
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Para se dar bem na Amazônia

Maria Fernanda Ribeiro

25 Agosto 2016 | 18h08

Em um mês e meio de Amazônia já consegui aprender muita coisa. Para alguns pode até parecer pouco, mas para mim a sensação é de ter vivido mais do que um ano inteiro caso eu não tivesse furado a bolha pela qual eu rodava pelo meu mundo, mundo pequeno mundo, que eu até pensava ser vasto. Até agora não saí da região do Vale do Juruá, no Acre. Também, ninguém mandou ser tão imensa, tão diversa, tão generosa, tão cheia de vida, tão cheia de história, tão cheia de antropologia, história e geografia.

Até o momento foram quase cinquenta horas navegando em canoas de alumínio pelos rios tão lindos quanto secos Gregório, Juruá, Tejo, Breu e Amônia (nessa ordem). Conheci quatro etnias (Puyanawa, Yawanawa, Kuntanawa e Ashaninka), uma comunidade daimista e rodei pela Reserva Extrativista do Alto Juruá, a primeira a ser criada no Brasil, quando o presidente ainda era o José Sarney e o ciclo da borracha estava em alta.

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Homem empurra barco no rio Tejo: águas rasas por causa da seca

Participei de rituais, ouvi as histórias dos então seringueiros e como viviam na época em que os patrões ditavam as regras. Dormi em redes, em colchonetes no chão e em camas. Tomei banho de rio, de igarapé, de cacimba e de balde. Comi o que tinha e entendi que a alimentação é de acordo com o que o que a estação do ano proporciona. Fiquei doente só uma vez. Fui picada pela tucandeira, a formiga que tem a ferroada mais dolorida do mundo, por vespas, carapanãs e piuns. Senti na pele o poder de se adaptar que o ser humano tem e como a adversidade é capaz de unir os povos.

Digo que a solidariedade atracou aqui e ficou e chego a pensar que se o sociólogo Zygmunt Bauman tivesse conhecido essas terras talvez nem tivesse nos presenteado com seu notável Amores Líquidos e a fragilidade dos laços humanos. Gostaria que ele soubesse disso.

Ainda tenho muito para rodar Amazônia adentro e afora, mas já deixo aqui uma parte deste legado para você que um dia – eu aposto – se atreverá a vir para cá e ver de perto o funcionamento do pulmão do mundo e como vivem os povos que ajudam na manutenção de toda essa engrenagem de bronquíolo e alvéolos.

Vamos lá:

–  Tem mosquito sim. E eles não dão a mínima para o seu repelente, do OFF ao Exposis. Eu parei de usá-los e comecei a vestir blusas de manga comprida e calças. No começo eu achava que ia morrer de calor. Não morri.

 

– Não é porque você está na Amazônia que vai ter peixe pulando no seu barco. Se você é vegetariano – como eu – talvez tenha que deixar de sê-lo em alguns momentos. A galinha caipira é um prato em alta aqui. E o boi também rola solto às vezes.

 

– A variedade de alimentos por aqui é escassa, até mesmo em algumas cidades. Não tem aquele monte de frutas, verduras e legumes que encontramos nos supermercados dos grandes centros urbanos. Vai ter que aprender a se virar com o que encontrar. Achou um maço de couve? Compra logo. Um pé de alface?

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Lanchonete na área central de Marechal Thaumaturgo, município no Acre

Nem pense duas vezes porque enquanto você pensa outro comprou. Está com vontade de comer uma ameixa? Vai ter que esperar até a próxima estação. Só come arroz integral? Desculpe, companheiro, mas não tem não. Sua nutricionista te orientou a comer cinco tipos de frutas diferentes por dia? Melhor rever esse conceito de nutrição.

 

– Nas aldeias e comunidades pode ser que você encontre os mesmos alimentos no café da manhã, no almoço e no jantar, como caldo de peixe com farinha, por exemplo. Ou banana frita de manhã e cozida para o jantar. Em compensação, os alimentos são frescos, sem agrotóxicos e colhido ali mesmo no quintal ou no roçado mais próximo. Seu corpo agradecerá a ausência de produtos industrializados.

 

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Dia de melancia para a merenda na escola indígena

– Se for época de melancia, vai ter muita melancia. Macaxeira também tem. Banana tem e sobra. Cuscuz de milho é um sucesso, inclusive para misturar com o café. A tapioca aparece com frequência também.

 

– Vai sentir fome no meio da tarde e não rola ir comer um pão de queijo com café na lanchonete mais próxima simplesmente porque não existe lanchonete mais próxima e quando tem já fechou. Mantenha umas bolachas ou barrinhas armazenadas na mochila.

 

– A energia, quando tem, acaba com frequência. Esteja sempre munido de uma lanterna ou vai ficar no escuro da floresta esperando alguém te socorrer.

 

– Na sua caixinha de primeiros-socorros tenha sempre: band-aid, água oxigenada, gaze, pomada para picadas, algo para dor no corpo, para febre, para prender o intestino, para soltar e uma pomadinha anti inflamatória também cai bem porque você aparecerá com roxos que nunca saberá de onde vieram. Ah, não esqueça do cortador de unha.

 

– Sempre que possível reponha sua farmácia porque tem cidades em que não há simplesmente nenhum dos remédios que você usa. Sério mesmo.

 

– Aqueles cosméticos que sua dermatologista te receitou, sabe? Então, não tem. Se fizer muita questão de usar traga de outros lugares.

 

– Dormir na rede é melhor do que qualquer colchão ruim. Suas costas vão gostar. Prometo. Só não esquece do mosquiteiro. Um saco de dormir ou cobertor também é prudente. Não subestime o poder do frio nas madrugadas da floresta do Acre. Elas desassossegam sem piedade.

 

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Maria Fernanda, olha para a árvore! “Ai meu Deus”.

– Todos os bichos aqui foram criados com fermento. E tem barata, tem rato, tem aranha pequena, tem aranha grande, tem grilo gigante e iguana surreal. Legal não dar escândalo ao se deparar com nenhum deles. Quem quer natureza, tem natureza. E ela é incrível e respeitosa. Seja também.

 

 

– Talvez você fique sem tomar um banho quente por dias, meses. Faz calor na Amazônia e até hoje ninguém morreu por tomar banho de água fria. Sem contar que a água é cristalina, pura, uma beleza só. Aqui quem agradece são seus cabelos.

 

– Nem todo rio é fundo, nem todo rio é seco, nem todo rio parece mar, nem todo rio é barrento, nem todo rio dá para nadar. Tem arraia, tem piranha, tem cobra. Pergunte antes de se atirar do barco e sair nadando borboleta por aí.

 

Índia de dez anos me ensinando como limpar um peixe

Índia de dez anos me ensinando como limpar um peixe

– Tenha sempre uma pinça, um isqueiro e um bom canivete. A pinça você pode usar para tirar sobrancelha, mas será principalmente para arrancar os espinhos que vão invadir seus pés e mãos. O isqueiro pode ser o que faltava quando você encontra uma casa com fogão e não tem como acender. Do canivete é bem possível que você use todas as funções. Invista num bom. Eu também tenho um facão na mochila. Vai que…

 

– Previna-se tendo na mochila algum bactericida para tratar a água, que pode ser desde comprimidos de Clorin até o Hidrosteril. Uma garrafinha de água com filtro de carvão também ajuda, nem que seja para tirar o gosto de cloro que fica na água tratada.

 

– Tenha pilhas extras, baterias extras, cartões de memórias extras.

 

– Acho que nem preciso mencionar a necessidade constante do uso de protetor solar e chapéu, principalmente durante as travessias de canoa, mas já mencionei.

 

– Respeite os costumes e valores das comunidades onde você está entrando. Ouça, aprenda, entenda. Comporte-se.

 

– A Amazônia tem um tempo só dela, da selva, da floresta. E esse tempo pode ser silencioso e demorado. Viva nesse tempo, que está longe de ser o do seu relógio. E divirta-se. Sempre.

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