O Brasil sem luz que ninguém vê
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O Brasil sem luz que ninguém vê

Maria Fernanda Ribeiro

10 Agosto 2016 | 10h19

Gerlândia Barros, 35 anos, já preparava o jantar quando anoiteceu. Eram 18h na comunidade de Belfort, localizada na Resex (Reserva Extrativista) Alto Juruá, no Acre, quase na divisa como Peru, e o gerador deveria começar a funcionar. Mas faltou diesel e parte do jantar foi preparado no escuro, assim como aconteceu na noite anterior. O diesel é o combustível necessário para gerar a energia. E também o mais barato. O motor até roda com gasolina, me disseram, mas o gasto seria maior. E se a comunidade estava sem dinheiro para o diesel, a gasolina era hipótese descartada.

Sem luz, Gerlândia improvisa com as velas para continuar a preparar o jantar.

Sem luz, Gerlândia improvisa com as velas para continuar a preparar o jantar

A carne de boi, com arroz, feijão e macarrão – com muita farinha, claro –  já estavam sendo preparados à luz de velas quando, meia hora depois do horário previsto, graças a um diesel que ninguém soube explicar de onde veio, a luz chegou para ficar até as 21h, suficiente para garantir a energia durante o jantar das 24 famílias que vivem ali. Além do jantar, a energia também reuniria as pessoas em frente à televisão para assistir parte da abertura das Olimpíadas. Já para as crianças a alegria era porque seria possível ver mais um capítulo da novela infantil Cúmplices de um Resgate, transmitida pelo SBT.

Belfort é uma comunidade rural que pertence à cidade de Marechal Thaumaturgo, onde tem mais gente vivendo fora do que na zona urbana. Para chegar até lá são cerca de quatro horas de barco, a partir de Marechal, e a comunidade se divide entre vascaínos e flamenguistas, com exceção aos três palmeirenses e aos três corintianos que lutam pelo seu espaço, mas que poucas vezes conseguem assistir aos seus times jogando. Isso porque a rede Globo transmite prioritariamente os jogos cariocas, o que explica muito sobre o Vasco e o Flamengo dominarem as bandeiras e quadros que decoram as salas daquelas casas. Aqui você consegue ter uma noção de onde estão localizadas essas comunidades: https://goo.gl/maps/MPN7iBbxUM52

Naquela noite o gerador ficou ligado até as 21h45, mas não foi para que as pessoas pudessem assistir à entrada da delegação brasileira, não, como eu havia pensado. É que o secretário da Saúde tinha chegado para uma visita e precisava da energia para jantar e tomar banho. Talvez tenha sido dele o diesel que iluminou aquela noite onde a vontade por energia sobrava e o dinheiro faltava. Mas isso é só uma hipótese.

Maria Gerleine e o filho Renana, de 9 meses:

Maria Gerleine e o filho Renan: “Sinto falta de ter mais variedade de comida para o meu filho.”

Segundo os moradores, são gastos cerca de oito litros de diesel por noite, por essas três horas de funcionamento, e o litro custa mais ou menos R$ 5, sendo que a prefeitura paga metade e eles se dividem para arcar com o resto. “Cada família dá R$ 35 por mês, mas nem sempre a gente tem dinheiro para contribuir. Então falta muita energia”, contou Rosildo Oliveira da Silva, de 36 anos. Há quem conte que uma vez eles ficaram 15 dias sem energia.

 

 

Maria Gerleine Barros, irmã da Gerlândia, também moradora de Belfort, diz que o que mais sente devido à ausência de energia é de não ter água gelada para beber durante esse calor amazônico que te faz suar da hora em que você acorda até a hora de dormir. Isso sem contar a restrição alimentar com a impossibilidade de uma geladeira para armazenamento. Leite, por exemplo, só o em pó.

 

A escuridão dita as regras

Na comunidade Alegria, também localizada na Resex, mas às margens do rio Tejo – um afluente do Juruá – , dona Luiza Damaceno da Silva, 56 anos, também precisa se virar com a falta de energia. Lá o gerador funciona igualmente das 18h às 21h, mas sem nenhum auxílio do poder público para o diesel. “Sinto falta de água gelada nesse calor”, disse Luiza, que trabalha na escola rural da cidade cuidando da merenda, dos alunos e de toda a organização. Ela é a zeladora da escola, que tem salas de aula multisseriadas, com alunos de quinta e sexta séries juntos numa sala e os da sétima e da oitava unidos em outra. Enquanto o professor passa o conteúdo para uma turma, a outra espera.

Conta Olimar Vieira da Silva, o marido de Luiza, que antes havia por lá um gerador que era da prefeitura, mas que um dia foi retirado para conserto. “Eles (a prefeitura) disseram que o gerador voltaria, mas a gente já tinha certeza que isso não iria acontecer e fizemos até festa de despedida para o gerador: beijamos ele (sic) quando foi levado para o barco e demos adeus”, contou rindo o Olimar, que está casado com a Luiza há 29 anos.

Ana Clara assiste à novela Cúmplices de um Resgate

Ana Clara assiste à novela Cúmplices de um Resgate

Depois disso ele mesmo precisou arcar com um aparelho novo, que custou R$ 2 mil, mas que já era de segunda mão e que deixa bem a desejar, mesmo quando o que não falta é o diesel. “Quando falta energia sinto falta de assistir o jornal porque a gente fica muito desinformado assim.” Sem telefone ou internet, o único acesso à informação por lá é a televisão. Agora, ele e Luiza planejam comprar um novo gerador, mais potente.

No dia que eu estava na comunidade Alegria, parecia que o gerador deixaria todos mais uma vez na escuridão e alguns já lamentavam mais uma noite sem luz, mas ele decidiu funcionar, devagar e quase parando, mas foi o suficiente para que toda a família se reunisse em frente à televisão. “Energia é mesmo uma coisa maravilhosa”, disse José Mendes, o nosso barqueiro, quando a luz da sala se acendeu e mais um capítulo de Velho Chico estava garantido.

 

 

Luiza e Olimar: agora juntam dinheiro para um novo gerador.

Luiza e Olimar: agora juntam dinheiro para um novo gerador.

Luz para Todos

 

Tanto, em Belfort, como na Alegria ou em outras comunidades sem luz por onde passei, os moradores ainda nutrem certa esperança pelo programa do governo federal Luz para Todos para que a energia venha para ficar. A esperança já dura dez anos, data em que as medidas do governo para levar luz às comunidades mais distantes foi anunciada, incluindo as que mencionei por aqui. Informa parte do texto da Eletrobras “Governo Implanta Luz para Todos no Vale do Juruá”, de 2004: Distritos do município de Marechal Thaumaturgo, nas cabeceiras dos rios Juruá e Tejo, que podem servir como exemplo das regiões mais isoladas, serão atendidas com um sistema de produção de energia específico.

Há estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) é de que no mundo 1,5 bilhão de pessoas ainda viva sem luz. No Brasil, segundo dados do governo mais Censo do IBGE 2010, se não me engano, são mais de 200 mil pessoas e os desdobramento do problema são vários, que vão da vontade por água gelada à dificuldade de acesso à informação e a impossibilidade de estocar alimentos ou de estudar à noite.

 

Kuntanawa

Na aldeia Kuntamanã, onde vive parte dos índios da etnia Kuntanawa, era dia de jogo de estreia da seleção masculina nas Olimpíadas, mas o horário não estava contemplado com o funcionamento do gerador. Como o jogo já ia começar combinaram de usar parte do combustível da noite para assistir uns minutos do primeiro tempo e o segundo inteiro. Eram necessário dois litros de diesel para isso. O jogo foi aquele fiasco que todo mundo viu e quem não viu ficou sabendo. Mas para o pessoal da Kuntamanã não deu nem tempo de se lamentar, pois eles ainda precisavam ir até a comunidade vizinha comprar o combustível antes que a noite chegasse. Cada litro custou R$ 7, isso sem contar a gasolina para o funcionamento do motor do barco. Pensei cá com meus botões que esses jogadores poderiam saber um pouco mais sobre o que os brasileiros são capazes de fazer para assistir a um jogo. Talvez se dedicassem mais. Talvez.

 

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