“Nós sabemos como não alimentar a guerra e vamos sempre buscar a paz”, diz liderança Guarani
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“Nós sabemos como não alimentar a guerra e vamos sempre buscar a paz”, diz liderança Guarani

Maria Fernanda Ribeiro

15 Fevereiro 2018 | 08h00

Semana passada publiquei aqui o texto “Índio não quer apito, índio quer respeito” com a opinião de alguns amigos indígenas sobre o uso de fantasias de Carnaval com alusões aos povos originários. O post veio depois de algumas celebridades terem sido criticadas ao terem aparecido com cocares e demais adereços durante as festas e desfiles dos blocos pré-carnavalescos. Mas eu não fui a única a escrever sobre o assunto. Bem longe disso. Teve opinião para tudo quanto é lado e o que não faltou foi postagem sobre o tema, de indígenas e não-indígenas, com termos como apropriação cultural, é proibido proibir, patrulha do politicamente correto, chega de mimimi e por aí vai. Um dos vídeos que mais viralizou foi da Ysani Kalapalo, indígena da região do Alto Xingu, no Mato Grosso, com mais de 1,5 milhão de visualizações no Facebook. Para ela, o uso de cocar no Carnaval trata-se de uma troca de culturas. Você pode conferir o vídeo na página dela no Facebook (@yasanioficial).

Na segunda-feira, dia 13 de fevereiro, passou pelo meu Facebook a mensagem de David Karai Popygua, uma liderança do povo Guarani, também comentando sobre o tema, mas não só. David escreveu sobre seu povo, sua cultura e o ano novo Guarani, que acontece agora é um momento de reflexão para eles, com a cerimônia sagrada do Nhemongarai em todas as aldeias Guarani pelo Brasil. David prega a união para que as diferenças não sejam a causadora da discórdia e dos conflitos. Pedi a ele autorização para republicar aqui neste espaço o texto na íntegra. Fiquem, então, com as palavras do David, que são de paz, luta e resignação.

GOSTARIA DE COMPARTILHAR COM VOCÊS MINHAS REFLEXÕES SOBRE ESTE MOMENTO DO ANO PRA NOSSO POVO. 

Karai Popygua David

O Nhemongarai ykarai’i, cerimônia do meu povo que é muito sagrada, acontece agora em todas as aldeias Guarani. De alguma forma todas as pessoas dessas terras onde hoje é o Brasil sofreram os impactos da colonização. Acredito que o Jurua kuery (não-indígena) também perdeu e sofreu muito nesse processo colonizador mas, diferente de nós indígenas que tivemos todo o ódio e violência descarregado sobre nossos povos, entre o Jurua kuery (não-indígenas) houve a separação das pessoas e que até hoje causa disputas. A desconexão entre o corpo e o espírito também é o que alimenta tantos conflitos.

Hoje em dia vejo que a internet se tornou um lugar de muita disputa ideológica, onde a cada dia as pessoas mais se distanciam daquilo que, pra nós, é mais importante e sagrado: o cuidado com o espírito. Todos os povos indígenas têm algo em comum, que é o cuidado e responsabilidade de manter sua cultura viva. Os povos indígenas buscam condições de viver em um mundo onde a autodeterminação seja respeitada pelos governantes. Não quero me aprofundar na questão política somente mas, quero valorizar a voz dos meus parentes que, em todo o Brasil, têm se posicionado e comentado a respeito de como o Jurua kuery (não-indígenas) se apropriam, homenageiam ou, até mesmo, menosprezam nossos valores culturais.

Não se trata somente de um único ponto de vista, pois somos mais de 200 povos indígenas. Cada povo preza muito por sua cultura e busca sempre viver em harmonia com o Jurua kuery (não-indígenas). Não fomos nós que começamos essa guerra e não foram nossos antepassados que impuseram um modo de vida à sociedade. Durante toda a história de luta e resistência de nossos avós, o sentimento motivador sempre foi o de liberdade, dignidade e o desejo de expressar abertamente que eram e sempre seriam os indígenas. Hoje mantemos esse desejo, vivemos e pensamos com os mesmos valores que nossos avós nos ensinaram. Depois de toda a história de luta e resistência hoje temos a dignidade e o direito de falar que somos indígenas.

A festa do carnaval no Brasil é um momento em que muitas pessoas aproveitam pra brincar, curtir, festejar com as novas musicas, comentar os enredos das escolas, assistir aos desfiles das escolas de samba. Já outras pessoas preferem ficar em casa com seus familiares e acompanhar tudo pela TV. Tem também aqueles que não se importam com essa festa gigantesca, que em todo país toma conta das ruas.

Eu quero dizer, como Guarani, que pra nós esse momento é muito sagrado, pois estamos no fim de nosso Ano Novo (Ara Pyau). A partir de fevereiro se inicia o Ano Velho (Ara Yma). Talvez isso seja um pouco confuso pra quem não conhece nossa cultura, mas acho importante deixar claro que foi assim que nossos avós nos ensinaram a viver, acompanhando a natureza e em harmonia com os ciclos da natureza. É nesse período que temos a cerimônia do Nhemongarai ykarai’i. E eu resolvi postar essa imagem de uma cerimônia tão sagrada pra mostrar que meu povo está em um momento muito especial e que é assim que passamos por essa fase do ano. Estamos mantendo nossa cultura viva.

David Karai Popygua durante cerimônia do Nhemongarai (Foto: Divulgação)

Essa foto é pra que todos vejam que respeitamos o carnaval dos não-indígenas e respeitamos os indígenas que aproveitam esse momento pra tornar mais visível a luta secular de nossos povos pela sobrevivência. Quem sente no coração a vontade de usar um ornamento indígena durante as festas não precisa somente pensar no que é politicamente correto, mas precisa entender que ainda hoje está em curso uma grande luta dos povos indígenas pela sobrevivência. Não importa sua opinião política ou os motivos que te motivaram pra usar uma fantasia de indígena.

O que importa é a nossa esperança de que, mesmo que você use uma fantasia indígena como forma de homenagem, de forma cômica ou mesmo apenas use por usar, você não deixe de perceber que houve luta resistência e que a resistência dos povos originários vai continuar existindo enquanto viver a última guerreira e guerreiro que guarda o segredo do significado do que representa ser indígena.

Portanto, se você usa a fantasia e odeia indígenas, nós estaremos rezando e lutando da mesma forma e se você usa fantasia e respeita os povos indígenas, nós estaremos rezando e lutando igualmente. Não é a utilização de forma inapropriada ou equivocada que fere nossas almas, mas a continuação do massacre e a tentativa de domínio de nossos territórios que mancham vergonhosamente a bandeira desse país com nosso sangue. Somos povos milenares e nossa luta é pelo direito à vida e pela paz, nosso objetivo não é morte e destruição.

Posso falar, com toda clareza, que nosso caminho não vai ser desviado por um momento de conflitos políticos ou por um mês de festa. Nessas circunstâncias, nosso caminho pode conter inovações, se necessário. Hoje vivemos unidos e a compreensão do Jurua kuery pode nos ajudar muito. Então, o que importa mesmo, em meio a tantos ataques e desavenças, é que não fomos nós que começamos essa guerra ideológica de proporções catastróficas que está em curso no Brasil.

Quem teria mais motivos pra disseminar o ódio do que os primeiros a serem pisoteados, humilhados, massacrados, roubados e injustiçados em seu próprio território? Ao contrário disso, estamos, nesse momento, pedindo pra que as pessoas cuidem de si e do outro porque somos todos humanos. O resultado da guerra não é nada mais do que dor sofrimento e o desejo de recomeçar de forma pacífica. Será que precisamos mesmo da grande guerra mais uma vez pra entender que não é esse o caminho da paz e da vida?

Nós sabemos como não alimentar a guerra e vamos sempre buscar a paz. Em uma guerra sempre há um derrotado e um vencedor. Nosso povo não está em guerra, nosso povo está sempre buscando a vida espiritual que nos dá a resistência necessária pra não entrar na guerra que foi implantada nas entranhas da sociedade desse país, que foi gerado em cima de nossa história.

Que Nhanderu possa dar luz a todas as pessoas desse país e que as diferenças não sejam a causadora da discórdia e dos conflitos. Que as diferenças nos mostrem que, apesar delas, podemos viver nessas terras sagradas respeitando uns aos outros, que acima de tudo somos todos seres humanos iguais a todas e todos que hoje vivem nesta terra tão sagrada.

Aguyjevete aos meus parentes.
Aguyjevete ao povo Brasileiro.

DAVID KARAI POPYGUA
TERRA INDÍGENA DO JARAGUÁ
2018

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