Música de Maria Rita Stumpf sobre os Kaingang é grito de alerta há 20 anos
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Música de Maria Rita Stumpf sobre os Kaingang é grito de alerta há 20 anos

Maria Fernanda Ribeiro

08 Maio 2018 | 10h30

Maria Rita Stumpf não é mulher de poucas palavras. Poucas perguntas são necessárias para que ela conte tintim por tintim toda a sua história, de como nasceu pelas mãos de uma parteira em uma propriedade rural no Rio Grande do Sul, da indignação com a desigualdade social e com a miséria humana e, como não poderia deixar de ser, da sua relação com a música.

Maria Rita é cantora, compositora e produtora cultural, mas durante quase duas décadas seu nome na música ficou esquecido até ela ser redescoberta por DJ’s, ser confundida com a outra cantora Maria Rita, e voltar à tona com sua principal canção, Kamaiurá. Mas o que estaria fazendo uma cantora em um blog que trata sobre a floresta e seus povos?

É porque Kamaiurá, que na verdade chama Cântico Brasileiro número 3, foi composta em 1977 como um grito de alerta após os índios da etnia Kaingang, no Rio Grande do Sul, terem sido expulsos do lugar onde estavam e ela, que é formada em jornalismo, acompanhou a situação degradante em que se encontravam expostos à chuva e ao frio, numa estrada de uma cidadezinha chamada Nanoai.

“Eu trabalhava como jornalista naquela época e os Kaingang foram expulsos do lugar onde estavam, colocaram uma quantidade enorme de indígenas no meio de uma estrada de terra, com muita chuva e frio perto de uma cidadezinha chamada Nonoai. Foi uma balbúrdia no Rio Grande do Sul, com notícias a toda hora, foi uma situação muito séria”, contou Maria Rita ao blog em março desse ano um dia antes de se apresentar no festival Dekmantel, que rolou em São Paulo.

O episódio com os Kaingang ficou gravado em Maria Rita e numa noite, em sua cama na casa da mãe, em um pedaço de papel qualquer e com duas flautas de bambu servindo de apoio para o batuque e não para o sopro, Kamaiuará sai da mente de Maria Rita e ganha voz. As flautas não aguentaram a batucada e quebraram diante de tamanho entusiasmo com a música que levou a cantora para alguns festivais à época e empolgou o público. Mas ainda assim a carreira da cantora não deslanchou.

Mas o tempo é sempre o melhor amigo da humanidade para consertar erros e dar créditos a quem merece e já enveredada na carreira de produção cultural, sem nem imaginar o que acontecia nos festivais mundo afora, tinha disco da Maria Rita sendo vendido como raridade por alguns milhares de reais após suas obras terem se tornado alvo de Djs e colecionadores da Europa e Ásia interessados por músicas que ninguém se lembra mais. E assim ela foi sendo relançada: em festivais de músicas eletrônicas mundo afora. Mas não é só.

Agora o LP Brasileira, originalmente produzido por Antares Promoções e Maria Rita Stumpf em 1987, é relançado pela Selva Discos. As 13 músicas contam com a genialidade de Luiz Eça, Grupo Uaktí e Ricardo Bordini.

 

Os Kamaiurá de Maria Rita, o seu cântico número 3, podem agora ecoar por todos os cantos, pois o grito de alerta daquele tempo ainda se faz presente. No mesmo estado onde a cantora encontrou a inspiração, ainda há indígenas da etnia Guarani que vivem em beira de estrada. Os de fora chamam aqueles pequenos barracos montados na beira da rodovia de acampamento, mas os Guarani preferem o título de aldeia, pois está organizada como tal, inclusive com uma escola.

Escola indígena em aldeia Guarani na beira da estrada, no Rio Grande do Sul

Os Guarani esperam há bastante tempo para terem de volta o seu espaço. Como os Kamaiurá e os Kaingang, eles também querem terra. Assim como todas as demais etnias que esperam para terem suas áreas demarcadas. Desde 2016 que nenhuma terra indígena é homologada no Brasil. Que os nossos povos originários não tenham que esperar mais duas décadas para serem lembrados e terem a história reparada. Assim como foi com Maria Rita.

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