Subir o Monte Roraima é guia prático para a vida
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Subir o Monte Roraima é guia prático para a vida

Maria Fernanda Ribeiro

30 Outubro 2017 | 06h30

Subir -e descer – o Monte Roraima é fácil, você vai tirar de letra. Se alguém te disser isso, não leve tão a sério. Ainda mais se você for uma pessoa fora do mundo do trekking como essa que vos escreve. Melhor acreditar no que eu vou te contar por aqui. É duro. Dói. Cansa e maltrata como um amor fracassado. Mas vale cada pisada, cada passo em falso naquelas pedras, cada bota atolada, cada respiração ofegante, cada bolha no pé, cada paisagem alterada nos quilômetros caminhados, cada lua cheia, cada constelação do céu sem limites quando as nuvens decidem que chegou a hora de dar passagem.


São 2,8 mil metros até o ponto mais alto, conhecido como Maverick, que é uma pedra com formato semelhante ao famoso carro da década de 60. Três dias para subir e dois para descer e vai acampando pelo caminho. Treze quilômetros no primeiro dia, doze no segundo e cinco no terceiro. Você aí acostumado a andar muito mais do que isso deve estar pensando: é pouco, é mole, é fácil. Não se engane, não é. O terreno irregular com pedras, muitas pedras, o sol na cabeça e as inclinações necessárias para te levarem acima das nuvens fazem com que essas distâncias alcancem um novo patamar sobre quilômetros rodados.

Acampamento base, o último antes de chegar ao topo. Dois dias de caminhada para chegar até aqui

Os último cinco, por exemplo, são feitos em cerca de quatro horas e você vai precisar não só de pernas, mas de braços fortes também para conseguir impulsionar o corpo entre uma pedra e outra. E guarde um pouco de fôlego para quando chegar ao topo, pois vai precisar dele para suspirar com a paisagem que se descortina. E vai precisar de mais um pouco de ar para o choro que virá e para andar mais um pouco até chegar ao acampamento, chamado carinhosamente de hotel, mas que é uma caverna onde as barracas são montadas para você desfrutar do topo nos próximos dias. E para o desfrute, dá-lhe mais caminhada. Achou que era só chegar lá e descer? Não, não. Tem muito mais a ser explorado na terra de Macunaíma.

Tem a jacuzzi de água cristalina e congelante, tem fosso, tem lago, tem mirante, tem cachoeiras, tem natureza exuberante. O clima é instável e a pergunta será que chove é feita com alguma frequência pelos integrantes do grupo. E, invariavelmente, chove. Se o dia está limpo e ensolarado, é Macunaíma, o herói gigante e lendário, trabalhando em prol daqueles que nutrem boa energia. A julgar por isso, meu grupo era puramente constituído de vibrações positivas porque nos esbaldamos nesse resort a céu aberto. Com toda a reverência à Macunaíma índio guerreiro, é claro.

A jacuzzi é um dos atrativos do topo: para chegar até aqui é necessário caminhar uns 7 km sobre pedras

A escolha dos guias é fundamental para uma jornada sem sustos. Localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e a Guiana, a subida acontece pelo lado venezuelano e é a partir da cidade de Santa Elena de Uairén, já na combalida Venezuela, que a viagem começa. Nosso grupo optou por uma agência dos nossos vizinhos da terra de Bolívar, mas há também empresas brasileiras que oferecem o pacote, que varia conforme a quantidade de dias que o grupo dormirá no topo. Nós ficamos quatro dias e três noites. É bastante. Mas devido ao clima instável, quanto mais tempo perto do céu, mais chances de pegar um dia ensolarado.

Para vocês terem uma ideia da estrutura disponível para nos ajudar nessa empreitada, éramos 12 para subir o monte, mas a nossa equipe de apoio integrava 16 pessoas. Os bravos carregadores do Roraima, que sobem e descem pedras e cascalhos calçados com sandálias do tipo Crocs – enquanto você está lá toda equipada com sua bota milionária de trekking – parecem ser macunaímas encarnados tamanha a desenvoltura.

E quando Macunaíma decide que é hora de as nuvens darem passagem, a natureza se descortina

Eles carregam nossas mochilas, nossas barracas e nossas comidas em uma bolsa indígena e toda vez que eu observava um deles nesse vai-e-vem pensava que maravilha é o corpo humano. Eles também são os responsáveis por montarem o banheiro – mas essa é uma história à parte – e preparam chá e chocolate quente para esquentar as noites sempre frias e úmidas do topo e também os nossos corações com toda a alegria emanada.

A descida é um desafio à parte. Mas tudo que sobe, desce, ouvimos por aí. Não é nem tão simples e nem tão óbvio assim. O percurso que fazemos em dois de subida, fazemos em um de descida. São 18 quilômetros de pura pedra. Pedra, pedra, pedra. É preciso foco e atenção. Terminei esse dia com os calcanhares sangrando e chorei ao chegar no acampamento, arrasada com a situação e me questionando se eu seria capaz de caminhar no dia seguinte. Senti como se eu fosse aquelas maratonistas que se machucam, mas continuam a prova e praticamente desmaiam na linha de chegada enquanto é aplaudida aos gritos de Vai, guerreira por não ter desistido.

Paisagem lunar, assim é o Monte Roraima no topo: pedra, pedra, pedra

Importantíssimo esclarecer que nem todos passaram por infortúnios com a mesma intensidade que eu, mas todos concordam que fácil, fácil não é . Mas este é o relato de uma pessoa comum, que passa parte do seu dia atrás de uma tela de computador e que subiu – e desceu – o Monte Roraima após ser convidada por uma amiga, tão comum quanto eu, mas alguns anos mais nova, é bem verdade, a comemorar o aniversário dela de 30 anos lá em cima. Como negar um convite tão amigável não é?

No meio do percurso encontrávamos outros caminhantes e rapidamente aproveitávamos a oportunidade para um descanso com a desculpa de conversar um pouco com o próximo. De alguns ouvimos que aquela era a segunda, terceira, quarta vez em que eles subiam o Monte Roraima. Eu e minhas amigas, no auge do cansaço e do improvável, nos questionávamos que tipo de ser humano faz isso várias vezes na vida e com qual intuito.

Um dia depois de terminar a jornada, ainda com os pés inchados e os calcanhares em frangalhos e me perguntando se um dia meu corpo voltaria ao normal ou seria capaz de recuperar toda a energia que esgotei em nome de Macunaíma, entendi porque algumas pessoas repetem essa saga. É que quando a gente retorna o quebra-cabeça da sua vida de mil peças começa a se encaixar e a energia poderosa do Roraima, o grande verde como foi traduzido pelos indígenas, toma conta de você e aquele problema passa a ser pequeno ou pouco ou insuficiente para tamanha a grandeza da existência.

É o que diz o escritor uruguaio Juan José Morosoli: “As viagens só começam depois que a gente volta.” A minha já começou e penso até em retornar no próximo ano para os braços de Macunaíma. Afinal, bom mesmo é perceber que o amor está longe de ter fracassado.

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