Memórias de uma viajante da floresta
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Memórias de uma viajante da floresta

Maria Fernanda Ribeiro

19 Dezembro 2016 | 06h00

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Porto de Manaus, a capital do estado do Amazonas, o terceiro estado da minha jornada

As incursões pela Amazônia podem ser paralisadas por situações repentinas, inesperadas e banais, já diziam os exploradores que andavam pela floresta no século XVIII. Após seis meses por aqui posso garantir que as impressões continuam as mesmas.

 

Uma ferroada da tucandeira, a formiga com a picada mais dolorida do mundo é capaz de te paralisar por alguns segundos. O ataque de micuins – o filhote invisível do carrapato – pode te dar calafrios, febre e uma coceira capaz de transformar uma mordida minúscula em feridas de alguns centímetros e te faz crer que foi infectada pela doença do carrapato e querer ligar para o seu pai, que é médico, para ele te ajudar, mas seu pai morreu há um ano e você se sente a mais solitária das pessoas do mundo. E então lembra que você tem uma amiga infectologista e ela te acalma após uma consulta online.

 

Um rio muito seco pode interromper a sua navegação por horas. Uma chuva torrencial, também. Tem raio e o rio faz onda, melhor parar um pouco, afirmam os mais precavidos. Pode acabar a gasolina e o posto flutuante mais próximo fica a horas e horas de distância. Pode ser que o trajeto de alguma BR esteja interditada. Pode ser até que não esteja interditada, mas está tão decadente que um percurso de 400 km pode demorar dez horas, mesmo que você tenha um carro potente 4X4. Há ainda o medo da malária. E da febre amarela também, caso o viajante não tenha se prevenido com a vacina. Pode ser uma disenteria.

 

Você não tem medo de doenças tropicais, Maria, perguntou um médico de São Paulo umas semanas antes de eu embarcar nessa jornada Amazônia adentro no dia 12 de julho para ouvir, contar e aprender sobre as histórias dos povos que habitam a floresta.

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Lanchonete na cidade de Marechal Thaumaturgo, no Acre, na divisa com o Peru

 

Medo eu tenho sim, mas em São Paulo eu também tinha medo. Medo de ser assaltada. Medo de ser atropelada por um ônibus enquanto pedalava mesmo se estivesse pelas ciclovias. Medo de ser infectada por qualquer um dos integrantes do trio dengue, zika e chikunkunya. Medo da poluição mesmo estando no parque Ibirapuera, onde você acha que está livre das cinzas da cidade, mas pesquisa já comprovou que se trata de um dos locais com maior concentração de ozônio na região metropolitana.

 

Ao sair de São Paulo eu não sabia se iria suportar tudo o que a floresta tropical me reservava, mas também não parei para pensar o que é que estaria guardado. Se tivesse avaliado todos os pontos, talvez tivesse desistido no primeiro e mais evidente deles: o calor.

 

Mesmo o sol sendo uma constante por aqui, difícil ouvir alguém dizendo que não se incomoda mais com isso. Há também a umidade que desmitifica crenças de que as roupas secam rapidinho por aqui. Mentira. A umidade também estraga os alimentos. Embolora. Mofa. Mas eu optei por aceitar tudo o que a floresta tem a oferecer. É isso ou lidar eternamente com o desconforto. E se tem uma coisa que não me agrada, é ter que gerenciar incômodos sem data para acabar.

 

Mas os desconfortos são barreiras pequenas diante de todo o resto que a Amazônia nos oferece por meio do convívio com os povos da floresta. Indígenas, ribeirinhos, extrativistas e quilombolas mostram que simplicidade nada tem a ver com pobreza e conhecimento nada a ver com intelectualidade. Só isso já seria motivo suficiente para eu permanecer aqui por mais um tempo. Um desapego às paixões.

 

Ainda há uma natureza exuberante na floresta que abriga a maior biodiversidade do planeta. Isso mesmo com o desmatamento tendo explodido entre 2015 e 2016, em uma curva ascendente que já atinge o segundo ano consecutivo, com 8 mil quilômetros de floresta derrubada, e coloca o Brasil na berlinda para cumprir seus compromissos formalizados na legislação nacional e no tratado internacional de clima, de zerar as derrubadas ilegais no País, até 2030, e de reduzi-las ao nível de 3,9 mil quilômetros quadrados na Amazônia, em 2020.

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Técnico do SOS Amazônia puxa o barco em rio seco do Acre

O brasileiro pode até ignorar, em nome do progresso ou da falta de interesse, como é que funciona a engrenagem da maior floresta tropical do mundo e não se importar quando uma nova hidrelétrica é construída e afeta drasticamente o meio ambiente e mais ainda todas as comunidades do entorno, com contrapartidas corporativas que funcionam apenas como marketing para o relatório anual que a empresa apresenta para cumprir tabela, mas por aqui está cheio de gente com projetos e razões diferentes que estão unidos por um motivo comum: a inquietação.

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Garoto em trapiche no rio Juma, no Amazonas

 

No livro O Ladrão no Fim do Mundo, que conta a saga do inglês Henry Wickham para contrabandear 70 mil sementes de seringueiras da Amazônia para a Inglaterra no século XIX, o autor Joe Jackson conta que Wickham, em um dos seus relatos, afirma que antes de chegar à floresta desconhecia situação que pudesse provocar mais reflexão do que conviver com os índios em uma aldeia.

 

Antes de eu mergulhar no maior coração verde do mundo, ouso dizer que somente a morte era capaz de me proporcionar pensamentos turbulentos o suficiente para causarem mudanças profundas e rupturas abruptas. Hoje, após compartilhar do dia-a-dia dessas comunidades tradicionais dos três estados que já conheci até o momento – Acre, Rondônia e Amazonas -, mudei de ideia. Posso até não gostar de lidar com incômodos eternos, mas refletir é algo do qual ainda não me cansei.

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