Luta do povo Guarani, no Jaraguá, será retratada em filme durante a principal vitrine do cinema autoral do País
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Luta do povo Guarani, no Jaraguá, será retratada em filme durante a principal vitrine do cinema autoral do País

Maria Fernanda Ribeiro

23 Janeiro 2018 | 07h39

Final do ano passado fui convidada para conhecer os índios Guarani, moradores do Jaraguá, em São Paulo. Eu tinha acabado de voltar da Amazônia após rodar seis estados (Acre, Rondônia, Amazonas, Amapá, Pará e Roraima) e conhecido dez diferentes etnias durante a minha jornada para conhecer e compartilhar as histórias dos povos que habitam a maior floresta tropical do mundo.

Mas os Guarani, que vivem na mesma cidade em que eu vivo, nunca tinha me dado ao trabalho de ir até lá, embora tivesse acompanhado a distância a luta que eles travaram para tentar retomar a demarcação de uma área de 512 hectares na região contra a reversão da delimitação proposta pelo governo do Estado em que a área das aldeias voltaria a ser de 1,7 hectare, o que alçaria a terra a menor do Brasil e impossibilitaria os índios de desempenharem suas tarefas e necessidades básicas.

Entre agosto e setembro de 2017, durante os atos de resistência, realizaram manifestação no escritório da Presidência da República na Avenida Paulista e depois alcançaram as antenas de telecomunicações localizadas no Pico do Jaraguá e interromperam o funcionamento da estrutura principal com efeitos para a transmissão de sinal de televisão e celular e deixando 600 mil pessoas sem televisão. O religamento só foi permitido após reunião com representantes do governo do Estado. Eles cantaram, rezaram, evocaram Nhanderu (o deus deles), se organizaram por meio de uma liderança jovem e conseguiram um documento do governo de que a situação seria revista. E eu lá da Amazônia apenas reforçava o que eu já tinha entendido: que tínhamos muito a aprender com os índios sobre resistência, resiliência e a como se organizar.


Eu estive na aldeia Itakupe depois de tudo isso. Fui convidada pelo pessoal da Base Colaborativa, uma organização sem fins lucrativos que, entre outros, desenvolve ali o projeto Abacaxi, que apoia pequenos empreendedores nas periferias, e lá trabalha na construção de uma fossa ecológica. Sim, falta saneamento básico no local. Era um domingo de manhã e o calor ainda dava uma trégua. No meio do caminho, recebo uma mensagem de um amigo indígena, lá das bandas do Acre, o Tashka Yawanawa, dizendo que estava no aeroporto de Guarulhos em uma conexão que demoraria quase 12 horas. Contei onde estava indo e perguntei se ele gostaria de conhecer os parentes de São Paulo enquanto o horário do voo dele para a Finlândia não chegava. Ele topou.

Ao chegar, logo me chamou a atenção os índios falando na própria língua. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Como era possível esses índios morarem em uma das maiores cidade do mundo e ainda conseguirem preservar a língua diante de tantos direitos suprimidos e de tanto contato com a sociedade não-indígena?

A extinção das línguas indígenas é uma das grandes preocupações no que diz respeito à preservação da cultura e há casos incontáveis de etnias que, se não perderam suas raízes, chegaram muito perto devido aos contatos sofridos e ao fato de que os conhecedores da língua materna muitas vezes são os anciões e daí vem a dificuldade de transmitir para as demais gerações. A língua portuguesa é uma forma de os indígenas reivindicarem seus direitos, de conquistar espaço, de empoderamento.

Os índios Yawanawa, do meu amigo Tashka, por exemplo, lutam de maneira árdua para que os mais jovens reconheçam a própria língua, que vem do tronco linguístico Pano, para que ela não se perca por aí. Muitas crianças e jovens das aldeias onde vivem os Yawanawa só falam em português. “Estou emocionado. Nunca imaginei que pudessem existir índios vivendo assim em plena cidade de São Paulo”, disse Tashka.

Ficamos na aldeia durante uma manhã somente, mas desde então os Guarani não mais me saíram da cabeça. No último final de semana voltei lá, mas dessa vez para acompanhar a cerimônia Nhemongarai – Batismo das Águas, que atravessou a madrugada com cantos ancestrais, em uma casa de reza, onde praticamente nenhuma palavra em português foi dita. Um mundo à parte e desconhecido encravado no caos paulistano. Pois é a história desses índios e da luta deles para que o governo recuasse da portaria contra a revisão da área de suas terras que está sendo contada no filme Ara Pyau – A Primavera Guarani, do diretor Carlos Eduardo Magalhães, que estreia amanhã, dia 24 de janeiro, na Mostra Aurora, a maior vitrine do cinema autoral e independente no País, que faz parte da Mostra de Cinema de Tiradentes, e segue até o dia 27 de janeiro

O diretor acompanhou como eles se organizaram para resistir pacificamente ao que o Ministério Público Federal considerou como “situação calamitosa de extremo confinamento” e solicitou à Justiça que suspendesse a portaria. É o cinema de urgência mostrando a importância de congelar contextos de crises sociais e políticas para que a nossa memória, que tanto nos trai, fique registrada e não possamos alegar que a história não existiu. Confira aqui o teaser do filme.

Em março o longa chega a São Paulo no CineSesc e, se você, assim como eu, também passou muito tempo ignorando a presença dos Guarani em São Paulo, sempre é tempo de ampliar os horizontes e conhecer novas culturas, e você pode fazer isso fazendo uma visita até a aldeia ou indo até o cinema. Porque o Jaraguá é Guarani, sim.

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