Lixo na Amazônia ameaça aldeias indígenas e comunidades tradicionais
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Lixo na Amazônia ameaça aldeias indígenas e comunidades tradicionais

Maria Fernanda Ribeiro

14 Junho 2017 | 12h58

Lixão a céu aberto no município de Cruzeiro do Sul, no Acre. Foto: Roberto Herrera

O acúmulo de lixo pelas aldeias indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia é um problema que precisa ser encarado e discutido, pois é uma ameaça real à saúde dessas populações e ao meio ambiente.

Em áreas remotas, onde não há nenhum tipo de saneamento básico, muitas comunidades queimam seus resíduos como plásticos, vidros, metais e borracha e enterram o que não podem ou não conseguem queimar.

A queima desses materiais emite gases de efeito estufa (GEEs) na atmosfera e pode desencadear incêndios florestais durante a estação seca, o chamado Verão Amazônico, quando as chuvas cessam, os rios secam e as temperaturas sobem ainda mais.

Mas você deve estar se perguntando por que e como essas comunidades geram tanto lixo se vivem no meio da floresta e deveriam ter, hipoteticamente, uma relação mais saudável com o ambiente?

Pilhas por exemplo. Para as caçadas noturnas, essenciais para manter a subsistência dessas populações, há a necessidade do uso de lanternas e geralmente são seis pilhas grandes utilizadas por noite. Ah, mas por quê eles não usam pilhas recarregáveis?

Primeiro porque não há energia elétrica na maioria dessas comunidades o que inviabiliza de cara qualquer iniciativa nesse aspecto. Segundo porque os municípios mais próximos dessas aldeias, que geralmente servem de apoio para compra de materiais de primeira necessidade, não oferecem uma gama de suprimentos que envolvam tal tecnologia. A falta de opção nos rincões brasileiros é maior do que talvez sua imaginação possa alcançar.

Mulher ribeirinha atravessa o rio Gregório, na cidade de Tarauacá, em canoa sem motor

Além das pilhas, há as garrafas PET. Sim, elas já chegaram nesses locais. Assim como as fraldas descartáveis. Antes que você, leitor, antecipe seus julgamentos, é necessário lembrar que há poucos índios isolados no Brasil e os primeiros contatos começaram há mais de 500 anos com a chegada dos portugueses no país. Houve ainda a interferência das missões religiosas que mudaram drasticamente o comportamento e cultura dessas comunidades.

E várias outros episódios mais que a história não nos deixa esquecer, como a invasão de terras pelos fazendeiros e pelos patrões da borracha, que escravizaram diferentes etnias indígenas e ceifaram deles toda a cultura preservada com a proibição de falar a língua e praticar rituais.

Então, seria muita inocência e incoerência acreditar que eles ainda vivam de maneira primitiva. Sim, os índios de hoje usam roupas, trocam mensagens pelo celular, se divertem assistindo vídeos, baixam músicas, tiram fotos. Alguns vão à missa, outros aos cultos, outros continuam a preferir seus rituais de reza e cura. E fazem tudo isso pintados com jenipapo e urucum, falam na língua própria de cada etnia e mantém seus roçados, cultura e tradições.

Mas voltando ao lixo, e para embasar a discussão, a produção de resíduos sólidos por habitante no Brasil, por ano, é semelhante à de países desenvolvidos, mas ainda tem um padrão de descarte equivalente ao dos países pobres, com envio para lixões a céu aberto e pouca reciclagem. É o que mostrou uma análise feita pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Um terço da população brasileira – 76,5 milhões de habitantes – sofrem com a destinação inadequada dos resíduos.

De acordo com a Abrelpe, a gestão adequada de resíduos sólidos é de vital importância para a garantia de um futuro saudável e com alguma qualidade de vida, tendo sido incluída como uma das metas da nova agenda global dos 193 Estados-membros da ONU, que estabeleceram, por unanimidade, o compromisso de reduzir substancialmente, até 2030, a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso.

O Brasil continua bastante atrasado no atendimento às determinações da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010. No ritmo atual, o País não conseguirá cumprir o compromisso assumido perante a ONU, para implementar as ações definidas como prioridade até 2030. É comum pelas cidades da Amazônia a presença de urubus que, sem aterros sanitários, rondam os lixões e são chamados por aqui como os faxineiros da floresta. A estimativa é que somente na região Norte 245 cidades possuam lixões a céu aberto.

Se nos grandes centros, onde há mais acesso a informações, o lixo ainda é um problema de saúde pública, é possível ao menos pensarmos como esse assunto é tratado onde não há internet, televisão ou energia elétrica. Nas comunidades, o acúmulo desses dejetos se dá pela ausência total de políticas públicas. A falta de campanhas de conscientização leva ao desconhecimento, por parte dessas comunidades, de como lidar com o lixo. A queima e o descarte incorreto podem causar a poluição do solo e da água e pôr em perigo a vida selvagem. Quando jogadas nos rios podem acumular nos peixes, o que os reduz em quantidade e os torna impróprios para o consumo humano.

E, raríssimas exceções, encontra-se sistema de coleta voltado especialmente para essas comunidades que podem estar localizadas há horas ou até dias de canoa do vilarejo mais próximo. Para isso, é preciso barco, motor e combustível que pelas cidades amazônicas pode chegar a até R$ 5 o litro. Gasolina é moeda de troca por aqui.

Rio Gregório: na época da seca, o verão amazônico, as águas secam e o leito fica cheio de paus e troncos dificultando a navegação

E, nesse contexto,  foi lançada esta semana a campanha Aldeia Lixo Zero, que testará iniciativa pioneira com os índios Yawanawa, da Terra Indígena Rio Gregório, no estado Acre, para transformar a aldeia Mutum na primeira comunidade sem lixo da Amazônia. A Terra Indígena está a oito horas de barco da vila de São Vicente – onde estão as instalações de eliminação de resíduos mais próximas. Para subir e descer o rio, que é cheio de troncos e paus, são necessários em média cem litros de gasolina.

A iniciativa foi criada por Nixiwaka Yawanawa, liderança jovem no Mutum, e pela cientista social Maria Fernanda Gebara, que atualmente reside em Londres e que visitou a aldeia em fevereiro deste ano para entender e aprender mais sobre como os resíduos eram trabalhados no local. O projeto consiste em criar, segundo ela, um plano de gerenciamento de resíduos que envolva todos os integrantes da comunidade.

Isso será feito por meio de conscientização sobre os perigos do descarte de resíduos na floresta, capacitação dos moradores sobre como reduzir, reutilizar e reciclar resíduos sólidos e sobre a compostagem de resíduos orgânicos, a compra de um barco a motor para levar resíduos sólidos para São Vicente, o fornecimento para as 27 famílias do Mutum de lanternas solares, instalação de um sistema de compostagem e a construção de uma estação de resíduos em São Vicente. Articulação com o poder público para sistema de coleta também faz parte do plano. Trata-se de um projeto piloto que pretende ser ampliado para outras regiões amazônicas.

 

Quem são os Yawanawa?

Povo Yawanawá em ritual durante festival Mariri no ano passado: aldeia abre suas portas durante o festival e recebe pessoas do mundo todo

 

Os Yawanawá vivem em uma parte da floresta Amazônica que é rica em biodiversidade e abriga uma vasta gama de plantas medicinais, utilizadas para tratamentos de doenças de pessoas do mundo todo que buscam auxílio.

Por muito tempo gerações viveram em perfeita harmonia com a terra, o que gerou aos Yawanawá um conhecimento ancestral das espécies que se encontram em suas áreas. A Organização Mundial da Saúde estima que 80% da população dos países em desenvolvimento dependem de medicamentos tradicionais, principalmente vegetais, para tratamentos primários de saúde.

A Terra Indígena Rio Gregório foi a primeira a ser demarcada no estado do Acre, isso em 1992, e hoje abriga cerca de 700 indivíduos, que vivem distribuídos em oito aldeias ao longo do rio. Na aldeia Mutum é realizado anualmente o festival Mariri, quando a comunidade abre suas portas para receber pessoas do mundo todo que tenham interesse em conhecer mais da cultura e das tradições indígenas. Esse ano, o evento acontece entre os dias 7 e 11 de agosto.

O financiamento coletivo pretende arrecadar US$ 35 mil. Para ler mais sobre a campanha, clique aqui: https://www.indiegogo.com/projects/aldeia-lixo-zero-zero-waste-community–2#/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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