Índio que é índio…
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Índio que é índio…

Maria Fernanda Ribeiro

19 Setembro 2016 | 07h00

“Índio que veste roupa de branco é índio?”

 

“Esse índio aí com iPhone parece mais branco do que eu.”

 


“E esses índios aí falando inglês?”

 

“Índio que é índio anda pintado e de cocar.”

 

“Tem uma aldeia que os índios tem camionete, relógio Rolex. Nem eu tenho isso.”

 

Índios Huni Kuin na aldeia Carapanã, no Acre, localizada a 12 horas de barco da cidade mais próxima

Índios Huni Kuin na aldeia Carapanã, no Acre, localizada a 12 horas de barco da cidade mais próxima

 

 

Esses são apenas alguns dos comentários que ouço ou leio quando escrevo ou comento sobre algumas experiências que tive nas aldeias ou publico uma foto em que o índio não está vestido com saia de palha, pintado de urucum e com cocar na cabeça. Por isso, esse texto. Há dois meses e meio convivo de maneira mais ou menos intensa com diferentes etnias do estado do Acre, seja quando eles estão em suas comunidades ou nas cidades. E para cada uma das frases acima eu poderia responder que ser índio atualmente não é só, e somente só, a maneira como eles se vestem ou se relacionam com a tecnologia. Ser índio tem a ver com a cultura, com a ancestralidade, com o pertencimento à terra, com a proteção da floresta, com a resistência e com a sobrevivência.

Não sou nenhuma historiadora, mas com um pouco de leitura é possível aprender que cultura indígena foi interrompida – quando não ceifada – em diversos momentos. Durante todo o processo colonização, por exemplo, o Estado colonial e posteriormente o Império e a República buscaram mesclar essas populações indígenas ao restante da coletividade, seja dos súditos da colônia, seja das populações regionais e nacionais. Segundo a antropóloga Lígia Duque Platero, o Estado, juntamente à Igreja Católica e, já no século XX, também as missões religiosas protestantes, criaram políticas de “incorporação”, “mestiçagem” das populações indígenas à população nacional. Assim, políticas territoriais e educativas visavam a integração e aculturação dos povos indígenas. Isso significava transformá-los em trabalhadores nacionais, falantes do português e possuidores da fé cristã.

Ainda de acordo com a antropóloga, o nome “índio” é muito controverso, e muitos militantes do movimento indígena preferem ser chamados pela expressão “povos originários”, remetendo a existência de seu povo neste território a um período anterior à existência do Estado nacional brasileiro. Muitos povos “indígenas” preferem ser chamados diretamente pelo nome do seu povo: Yawanawas, Ashaninkas, Huni Kuins, Puntanawas…. Afinal, quando os portugueses chegaram ao território que se tornou o Brasil, eles acreditavam estar chegando às Índias. Portanto, os povos originários daquele território somente poderiam ser “índios”. O nome “índio”, portanto, é o nome dado pelo colonizador aos povos que habitavam essas terras, que se tornaram a América.

Isso só para começar. Mas eu estaria me atrevendo demais em campo tão amplo e novo para mim se desandasse a escrever por aqui com desenvoltura tamanha como se fosse uma especialista no assunto indígena. Sou apenas uma apreciadora curiosa. E uma jornalista. Por isso, passo a palavra para duas antropólogas e três índios que entrevistei. Um deles pessoalmente, o outro via áudio do Whatsapp enquanto passarinhos piavam ao fundo, e outro via Facebook.

Comecemos, então, com as duas antropólogas:

Casa típica dos índios da etnia Ashaninka

Casa típica dos índios da etnia Ashaninka. Foto da aldeia Apiwtxa, localizada às margens do rio Amônea

 

 

 

Lígia Duque Platero

 

“Ser índio no Brasil hoje é fazer parte de uma grande diversidade, que se auto identifica como indígena; ou que assim são identificados pelo órgão Fundação Nacional do Índio (Funai). Em alguns casos, algumas coletividades somente passam a ser consideradas como indígenas depois de estudos antropológicos, da produção de laudos, para afirmar que determinado povo possui costumes em comum, um passado em comum, a identificação com um ou vários territórios, a identificação com uma língua, ainda que essa possa ter sido perdida com o passar do tempo, devido à influência das políticas de assimilação do Estado. Entre os índios no Brasil, atualmente, estão desde os povos isolados, que não podem ser contatados pela população nacional, sob o risco de adquirirem doenças mortais; até povos evangelizados, que vivem em situações urbanas, às vezes aproximadas às situações de favelas; ou povos que vivem na floresta Amazônica, que possuem redes de contatos no Brasil e no exterior, que viajam, falam línguas estrangeiras, que vendem a sua “cultura” para os não indígenas das cidades dos EUA e da Europa. Ser indígena é fazer parte de uma coletividade com costumes e um passado em comum.

Para alguns povos, ser indígena é lutar pela demarcação de sua terra, ou lutar para que sua terra e sua vegetação continuem sendo preservadas e livres de invasões. Infelizmente, no Brasil, os não indígenas possuem uma visão extremamente estereotipada sobre os povos indígenas. Muito disso é devido à escolarização atual para os não indígenas: os povos indígenas ou originários somente são lembrados nas escolas no “Dia do Índio”. Trata-se de estereótipos e, então, o que sobrou dos povos indígenas? A maioria das pessoas pensa que os povos indígenas são parte do folclore nacional, uma fantasia de Carnaval, uma brincadeira para as crianças na escola. Posso concluir que ser indígena é fazer parte de uma grande diversidade, de coletividades com relações de parentesco, com costumes, tradições e trajetórias em comum. Identificam-se, portanto, primeiramente como pertencentes ao seu povo e, dependendo do caso, consideram-se, em segundo plano, também brasileiros. E isso Independe do uso de novas tecnologias, calças jeans, celulares e afins.”

 

Índia Huni Kuin preparando a comida em fogo à lenha

Índia Huni Kuin preparando a comida em fogo à lenha durante festival que celebrou a cultura indígena na aldeia Carpanã

 

 

 

Carolina Comandulli

 

“A visão de que o índio é que aquele que anda nu, com pena, com cocar e que quando veem usando roupa, celular ou assistindo televisão considera que não é mais índio é estereotipada. Essa é uma visão muito limitada porque é muito focada no material, naquilo que a gente consegue ver e ouvir, mas a cultura não é só matéria. Ela é ideia, é pensamento, é espiritualidade. São intangíveis. E as culturas são dinâmicas e não estáticas. A nossa própria cultura é dinâmica.

A cultura indígena é algo que não se captura à primeira vista e que está intrínseca a todo o aspecto da existência. A leitura do índio é reduzida, mas não cabe a nós dizer pelos índios o que é ser índio. Por muito tempo nós falamos por eles, mas precisamos deixar que eles falem por eles. Precisamos escutar o que eles tem a dizer sobre isso.”

 

Então, seguindo o conselho da Carolina, que eles falem por eles.

 

Com vocês, os índios:

 

Índio Yawanawa se pinta com jenipapo na aldeia Mutum

Índio Yawanawa se pinta com jenipapo na aldeia Mutum, localizada às margens do rio Gregório

 

Tashka Pesaho Yawanawa, 44 anos

 

“Ser índio no século XXI é viver na transversalidade, entre o mundo tradicional e o mundo moderno. Não somos índios dos livros de história distribuídos pelo MEC. Somos índios falado por nós mesmos, com nossas virtudes e defeitos. Somos povos originários que têm resistido a tudo e a todos para mantermos vivos fisicamente e espiritualmente.”

 

Biraci Jr. Yawanawa, 26 anos

 

“Somos muito questionados sobre o modo como a gente tem se colocado hoje na sociedade, sobre como e qual é o papel do índio brasileiro nos dias atuais. A luta indígena tem sido diária desde o tempo da colonização, do descobrimento, do redescobrimento. Há questionamentos positivos e negativos, dos que apoiam e dos que acham que os índios deveriam ficar na floresta, sem acesso à tecnologia, escola e a outros meios que consideramos que podem somar ao modo de vida que temos hoje. Falam que a gente usa smartphones, computadores ou roupas caras e ainda queremos falar sobre simplicidade. Mas são essas as ferramentas que a gente tem para nos proteger desse tipo de ideal que as pessoas têm sobre o índio, mas o que difere é o modo como usamos esse novo aparato, que é para resistir e sobreviver.

Hoje, as nações indígenas estão se organizando, se comunicando na internet e a tecnologia também une os povos no mundo inteiro e fortalece a nossa cultura. E isso sem sem deixar nossas origens para trás e sempre atentos com a nossa essência, que é de conexão espiritual, com uso do rapé, da Ayahuasca, das cantorias. Manter a essência é a nossa resistência maior para provar que ainda estamos vivos, cuidando ainda do que resta da floresta. E as pessoas precisam se conscientizar que estamos ali fazendo isso não é só por nós, mas por todo mundo e que estamos ali para somar e não para que enxerguem a gente como adversário. O despertar da consciência da sociedade está cada vez mais intenso para o cuidar do que ainda temos e assim podemos começar a mudar o rumo dessa atualidade, independente de cor e raça.”

 

Yube Huni Kuin, 33 anos

 

“Ser índio é mais do que morar numa aldeia ou falar a língua. É ter sangue e espírito de um povo. Todos nós (índios) já ouvimos comentários sobre usarmos roupas de branco ou celulares e que, por isso, deixamos de ser índios. Ou que se um índio mora na cidade não é mais índio. Um brasileiro que vai morar nos Estados Unidos deixa de ser brasileiro? Não. Esse é o ponto. Sabemos que muito da nossa cultura se perdeu, até mesmo por pressão dos seringalistas, e a nossa cultura ficou congelada por um tempo. Mas agora estamos no processo de tentar recuperar o que ficou perdido, como as festas, os rituais e a nossa língua. E os povos indígenas têm muito orgulho dessa cultura, mas antes a gente tinha vergonha. O orgulho pode ser visto quando você encontra um índio na cidade circulando pelas ruas pintados e com cocar. Ser índio tem a ver com a maneira como nos alimentamos, como moramos, com a caça, com a pesca e como nos relacionamos com o nosso povo e com a nossa família.”

 

 

“Permitam-me incorrer em um exagero heurístico. Eu direi que no Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é. Acho que o problema é “provar” quem não é índio no Brasil.”

Eduardo Viveiros de Castro, em entrevista à equipe de edição, originalmente publicada no livro Povos Indígenas no Brasil

 

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