Índio não quer apito, índio quer respeito
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Índio não quer apito, índio quer respeito

Maria Fernanda Ribeiro

06 Fevereiro 2018 | 18h28

Índios Ashaninka no Rio Grande do Sul em intercâmbio com os Guarani para troca de conhecimentos: khusmas, chapéus e acessórios típicos

Três índios Ashaninka, moradores do estado do Acre, na Amazônia brasileira, visitavam uma aldeia localizada na beira de estrada da etnia Guarani no Rio Grande do Sul, durante um intercâmbio cultural para a troca de saberes, quando um juruá – termo guarani usado para designar os não-indígenas – apareceu no local. Um senhor que se auto intitulou como amigo dos índios e pajé.

Encantado com as vestimentas do povo Ashaninka, que realmente chamam a atenção com suas khusmas longas e coloridas tecidas de algodão, seus chapéus e demais acessórios, não demorou a perguntar: Por quanto vocês me venderiam esse chapéu? O objetivo era usar a indumentária para compor sua fantasia de Carnaval. A resposta imediata dos índios foi “nossos chapéus não estão à venda, não.”

No dia seguinte uma amiga me marcou no Instagram em uma publicação de uma blogueira com mais de 534 mil seguidores que se fantasiou de “índia da paz” para o badalado baile de Carnaval da Vogue, cujo tema Divino Maravilhoso tinha como mote explorar a brasilidade. Com um cocar estilo Apache, que são os povos nativos dos Estados Unidos, alguns acessórios de miçanga, salto alto, e um vestido longo branco e justo desenhado por um badalado estilista, ela perguntava aos fãs se eles tinham aprovado o look.


Nos comentários do Instagram, entre elogios de linda, maravilhosa e deslumbrante, uma colocação bem menos popular: índio não é fantasia e é preciso um pouco mais de responsabilidade na hora de se vestir. Pronto. Estava gerada a polêmica, que de nova não tem nada. Alguns concordaram e tantos outros disseram estar cansados da patrulha do politicamente correto. Mas, afinal, índio é ou não fantasia?

Não estou aqui para trazer nenhuma resposta definitiva, mas no momento em que li o post no Instagram estava acompanhada de uma antropóloga que morou por dois anos na floresta amazônica com os índios. Perguntei qual era a opinião dela sobre o assunto e depois de algumas elucubrações concluímos que o melhor a fazer era perguntar para os próprios índios o que eles pensam. Afinal, um cocar, muitas vezes não é só um cocar, como pode imaginar, talvez ingenuamente, o animado folião.

Tashka Peshaho, da etnia Yawanawa, cujo povo habita as margens do rio Gregório, na floresta amazônica, no estado do Acre, explica que se fantasiar de índio e sair pulando no Carnaval não pode ser considerado como uma reverência aos indígenas, pois além de estereotipá-los como um ser exótico muitas vezes é mais uma forma de deboche do que de respeito. “Sabemos que o Carnaval é um momento de descontração, mas é preciso fazer isso com respeito à diversidade cultural e espiritual do outro.”

Daiara Tukano, militante do movimento indígena, em texto publicado ano passado no site da rádio Yandê – a primeira rádio indígena web do Brasil – escreveu: “Você pode se fantasiar até de abacaxi se quiser, fantasia não falta, pode se fantasiar de índio, de padre, de freira, de nazista, de black face, mas sinceramente não ache que essa liberdade toda te impede de alguém se incomodar com isso, ou porque essa identidade é inalienável a essa pessoa e para ela não se trata de fantasia, ou porque ela fere diretamente sua memória identitária. A questão não é poder isso ou não poder aquilo, o arbítrio é livre, mas empatia e respeito é legal.” Sugiro que leiam o texto completo aqui.

E para quem acha que essa discussão é falta do que fazer, Daiara mandou o recado em seu perfil no Facebook. “Aqueles que acham que criticar fantasia de índio é mimimi podiam ser convidados a passar uma semana numa aldeia vestindo sua fantasia de índio, acordando antes do sol raiar para tomar banho, saindo pra roça no raiar do sol, pescando seu próprio peixe, tudo fantasiado de índio Branco de carnaval.”

Enoque Raposo, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, afirma que na cultura indígena, tudo é sagrado, do traje à alimentação. “Tudo que se tem de conhecimento sobre a cultura autêntica se faz necessário ter mais respeito.”

Em texto publicado no dia 25 de janeiro também no site da rádio Yandê, Avelin Buniacá Kambiwá traz uma reflexão sobre a importância do cocar para os povos indígenas e porque seu uso por aí como mero adereço pode ser considerado um desrespeito. “Ser indígena é pertencimento, cultura, ancestralidade, luta, labuta, coragem, lágrima e resiliência, mas antes e mais importante é a nossa espiritualidade. E para a maioria dos povos indígenas o cocar é um símbolo de força, de sacralidade de respeito e de resistência.”

Porque não usar cocar no carnaval? Eis a pergunta que ela mesmo responde. “Porque não é um adereço, não é uma fantasia, ele religa toda a nossa cabeça com o sagrado do  povo o qual pertencemos. E quando falo de religar falo sim de religião. De toda uma visão de mundos. Estamos em círculo unidos e nossas lideranças políticas e espirituais ao centro nas penas grandes do cocar, mas sem hierarquização porque sem as penas ao redor de nada vale as demais. Vivemos e existimos no coletivo.” Aqui o texto completo.

Esse texto ajuda a explicar, inclusive, porque sempre recusei aos inúmeros pedidos que recebi e ainda recebo de conhecidos para que eu compre para eles um cocar quando eu estiver em uma aldeia. Alguns querem para usar mesmo em festas à fantasia, outros para pendurar na parede como decoração. Pessoas que eu nunca soube nutrirem a menor empatia pela história desses povos ou sua luta. Alguns que não conseguem nem compreender a necessidade da demarcação de terras.

Ao serem criticados pelo uso da fantasia, muitos argumentam que não há deboche e sim respeito e que o lema do Carnaval sempre foi o de que é proibido proibir. Se há respeito, podemos começar ouvindo o que os índios acham disso sem nos defendermos usando o escudo de estarmos fatigados da patrulha do politicamente correto. O retrocesso em que vive o país em relação aos povos originários mostra que é tempo de aprender e de entender melhor a história do nosso Brasil além do discurso de vitória dos nossos colonizadores e dos estereótipos construídos que há tempos não refletem mais a realidade. A reflexão está posta e o Carnaval já chegou. Os foliões agora que decidam se realmente devem desfilar pelas ruas com um cocar na cabeça a entoar a quatrocentona marchinha índio quer apito, se não der pau vai comer.

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Eu na Floresta

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