Uma Amazônia chamada Genésio
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Uma Amazônia chamada Genésio

Maria Fernanda Ribeiro

23 Setembro 2016 | 07h00

Elson Martins no seu escritório e local de leitura preferido: a rede

Elson Martins no seu escritório e local de leitura preferido: a rede

 

 

O jornalista Elson Martins, 77 anos, é daqueles personagens que antes de eu vir para o Acre disseram que em nenhuma possibilidade eu poderia deixar de conhecê-lo. Que eu me virasse para encontrá-lo. Afinal, Elson é memória viva, vivíssima, das grandes histórias acreanas envolvendo o ciclo da borracha, a luta dos seringueiros, a vida e a morte de Chico Mendes e o julgamento dos seus assassinos. Elson também é um ícone do jornalismo de resistência com a criação do jornal O Varadouro, que lançou com mais duas pessoas para dar voz aos índios e seringueiros, que naquela época tinham seus gritos sufocados pela mídia que dava apenas voz aos patrões e enaltecia os “benefícios” que o progresso da Amazônia traria ao país. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

 

Pois bem, alguns dias antes de embarcar enviei a ele uma mensagem pelo whatsapp contando a minha história e ele gentilmente respondeu que seria um prazer colaborar com o meu projeto e que quando chegasse ao Acre era para avisá-lo. E foi o que fiz assim que aportei em Rio Branco. Elson me recebeu na casa dele e conversamos longamente sob a sombra de um pé de jambo. Eu numa cadeira de balanços e de chinelo. Elson com trajes mais formais. Parecia até que a casa era a minha e ele a visita. Além do resgate de memórias, teve também suco de cajá, pudim de leite e licor de mutamba para acompanhar.

 

Apesar de ter tomado o tempo dele – e o suco de cajá e o licor – por cerca de quatro horas achei que não tinha sido o suficiente, como bem me disseram que não seria, e pedi que ele me recebesse por mais uma tarde para mais histórias e, quem sabe, mais um licor. E ele mais uma vez disse sim. Dessa vez Elson trocou o licor de mutamba para me apresentar como uma boa cachaça funcionava bem com um pedaço de caju e sal, além de ter me contado sobre o livro Pássaro sem rumo – Uma Amazônia chamada Genésio, cujo autor é o próprio Genésio Ferreira da Silva que, aos 13 anos, assistira a toda a preparação do assassinato do líder seringueiro Chico Mendes e contou tudo o que sabia para a polícia e à justiça. Sem ele, o Genésio, talvez nunca tivesse havido a justiça.

 

Elson, que escreve uma das apresentações do livro, participou ativamente da construção do Pássaro sem rumo e me enviou, como um presente, um texto que produziu sobre a obra e sobre o Genésio, com quem conviveu ativamente durante o assassinato do Chico, quando ele ainda era um menino e viu sua vida totalmente transformada após ter trocado a sua adolescência pela condição de testemunha.

 

Eu ganhei o texto do Elson de presente. E agora compartilho meu presente com vocês. Portanto, hoje o espaço que cedo aqui é para ele, esse jornalista que transformou dois dos meus dias na seca e árida Rio Branco em tardes de boas recordações que estão longe de ser somente as etílicas.

 

O livro está à venda nas livrarias de todo o país e tem uma noite de autógrafo programada para o dia 8 de novembro, em Rio Branco, durante a Bienal.  Eu já li o meu. E digo: Genésio pode não ter o dom das palavras. Mas alma e caráter o universo lhe deu de sobra.

 

Com vocês, a história contada por Elson Martins.

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Genésio aos 40 anos, em foto tirada por Elson Martins

 

 

Escritor atormentado

 

Aos 13 anos de idade, ele chamou atenção da mídia nacional e internacional ao depor contra os assassinos de Chico Mendes: o fazendeiro Darli Alves, como mandante, e o peão Darcy Alves, seu filho, como autor do disparo. Foi tão firme e convincente, apesar da pouca idade, que ajudou a condenar os dois a 19 anos de prisão no chamado “Julgamento do Século”, ocorrido em Xapuri (AC) em 1990. Hoje, aos 41 anos, Genésio Ferreira da Silva se expõe a um novo desafio: submeter à mesma mídia a própria história que viveu na companhia dos criminosos, ainda criança, na Fazenda Paraná; e a vida atormentada em que se meteu após o depoimento, procurando se proteger de represália da família condenada.

 

No livro “Pássaro sem rumo”, editado pelo Instituto Vladimir Herzog (SP) e Editora Autêntica, Genésio fala do dia a dia na fazenda durante a preparação do crime e de sua passagem por três colégios religiosos, em Goiás, Minas e rio Grande do Sul, vivendo conflito cultural intenso, beirando a marginalidade, até retornar ao Acre, aos 40 anos, para a mesma miséria invisível da qual saiu para uma fama efêmera. O livro terá noite de autógrafo prevista para 8 de novembro, na Bienal do Livro em Rio Branco, com uma conversa entre o autor e o jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura, que foi o seu maior protetor em toda essa história.

 

Nascido em Xapuri, Genésio perdeu o pai cedo e foi criado pela mãe Marina e o padrasto numa antiga colocação de seringa. Aos 7 anos, foi levado pela mãe para a Fazenda Paraná, da família Alves, para fazer companhia à irmã Natália que havia fugido de casa para viver com Oloci, outro filho de Darli e gerente da propriedade. O cunhado passou a ser seu principal instrutor: aos 10 anos, exigiu dele a perigosa incumbência de montar e amansar um potro bravo, que o jogou no chão e desferiu violento coice na barriga. Ao completar 11 anos, o menino ganhou de presente um revólver e uma caixa de balas. Aos 13, já frequentava as boates de Xapuri na companhia dos irmãos “mineirinho”, matadores de aluguel contratados como peões.

 

Genésio tornou-se amigo e confidente de Darcy, quem disparou o tiro de espingarda calibre 20 no peito de Chico Mendes na noite de 21 de Dezembro de 1988, e ficou sabendo dos crimes cometidos na fazenda. Também testemunhou encontros de Darli Alves com fazendeiros que tramavam a morte de Chico Mendes. Todas essas histórias são narradas com detalhes no livro. A certa altura da narrativa, dá pra perceber que Genésio estava sendo treinado para também se tornar um matador de aluguel. Ele conhecia pouco o Chico Mendes, sobre quem diz que sempre admirou, mas sabia muito sobre a vida dos assassinos. O que não sabia era que nessa história assumiria o papel de principal testemunha e que sua própria vida seguiria trajetória atormentada.

 

De fato, no dia seguinte à morte de Chico Mendes, Genésio foi detido pelos policiais encarregados de identificar e prender os suspeitos, permanecendo numa cela da delegacia de policia de Xapuri à disposição dos investigadores. Pressionado, sobretudo, pelo tenente H.Neto, da Policia Militar do Acre, e pelo delegado Nilson Oliveira, com a concordância de sua mãe Marina disse tudo o que sabia. O depoimento à policia o deixou vulnerável diante da família Alves, embora pouca gente da segurança parecesse atenta ao detalhe.

 

Em maio de 1989, ao visitar o Acre com uma pauta do Jornal do Brasil para escrever sobre os conflitos na Amazônia, o jornalista e escritor Zuenir Ventura – que acabou ganhando o Prêmio Esso com uma série de reportagens sobre o caso Chico Mendes – encontrou Genésio vagando perigosamente entre a delegacia e o quartel da PM em Xapuri. No livro “Minhas Histórias dos Outros”, que escreveu em 2005, incluiu o capitulo “A Saga de uma Testemunha”, sobre Genésio, na qual admite que cometeu uma transgressão contra a lei básica do jornalismo: a de que “ao reportar os acontecimentos, não se deve interferir neles”.

 

Como não interferir! Percebendo que o menino corria riscos de morte, Zuenir Ventura, que foi visitá-lo na delegacia de Xapuri, após consultar o juiz Adair Longuini decidiu “sequestra-lo” e o trouxe de avião monomotor para Rio Branco, deixando-o sob a responsabilidade do então comandante da PM, cel. Roberto Ferreira, no quartel da corporação. Apos alguns dias, o próprio comandante avisou ao jornalista que também ali Genésio vivia ameaçado, por isso o transferira para o quartel do Exército (4o. BESF). Zuenir acabou levando-o para seu apartamento em Ipanema, no Rio, até conseguir com a ajuda do bispo D. Moacyr Grechi um bom colégio religioso na zona rural de Goiás. A partir daí Genésio passou a viver choques culturais e existenciais, e com a paciente compreensão de seu tutor, frequentou novos colégios em Minas e no rio Grande do Sul, sempre aprontando. Acabou se enfiando na bebida, precisando de tratamento em clinicas de recuperação no Recife e em Rondônia.

 

Quando já entrara na fase adulta, em Porto Alegre, vivendo entre marginais, recebeu de Zuenir uma boa notícia: os produtores do filme “Amazônia em Chamas” haviam concordado em pagar algo em torno de 60 mil reais de direitos pelo uso do personagem no filme. O dinheiro ficou depositado numa conta conjunta na Caixa Econômica e só podia ser retirado com duas assinaturas, a sua e a de Zuenir. Com maior idade, Genésio pôde então movimentar o dinheiro, mas o fez de forma descontrolada, posando de rico diante das moçoilas e dos companheiros de farra que conheceu em Marabá, no Pará, para onde se transferiu. Na segunda parte do livro ele conta como foi essa fase de sua saga, amorosa e fracassada. Após desbaratar os 60 mil reais recebidos da Warner Bros, entregou os pontos e voltou para sua origem acreana.

 

Em 2004, sem saber por onde ele andava, Zuenir, eu e Júlia Feitoza empreendemos uma busca pela BR-317, no trecho Rio Branco – Brasileia, parando e perguntando a pessoas que o conheciam ao longo do estrada. Fomos encontrá-lo entre um grupo que fazia trabalho de recuperação de uma igreja nas proximidades de Xapuri. Estava gordo e se sentiu envergonhado por encontrar-se embriagado. Mas ficou feliz ao rever o amigo, a quem informou que estava escrevendo um livro com sua própria história. “Faça isso, Genésio!”- incentivou Zuenir, recomendando que entregasse os originais a mim, para que os remetesse para seu endereço no Rio à medida que fosse concluindo os capítulos. Surpreendentemente, poucos dias depois Júlia Feitoza recebeu o calhamaço de 365 páginas escrito com esferográfica em papel almaço, na frente e no verso.

 

O livro do Genésio não é um primor de literatura, mas nem precisava ser, porque o que atrai nele é a sua história, incomum, e o modo como é narrada, com transparência, verdade e fragilidade que chocam. Mesmo com estudos interrompidos na 6a. série do Ensino Fundamental, Genésio escreve com incrível força, dando pistas confiáveis sobre o imaginário dos povos da floresta amazônica. É, no mínimo, um caso a ser estudado por psicólogos e sociólogos, e ajudado (quem dera!), por ambientalistas de verdade. Afinal, ele continua procurando um lugar ao sol com os riscos de sempre.

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