Fim de uma etapa
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Fim de uma etapa

Maria Fernanda Ribeiro

05 Setembro 2016 | 14h53

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Despeço-me de Cruzeiro do Sul, esse que é o segundo município mais populoso do Acre depois da capital Rio Branco e que me acolheu desde que iniciei a minha jornada Amazônia adentro, no dia 12 de julho. Mas não poderia partir sem antes dedicar um texto todo em homenagem aos cruzeirenses e a essa cidade que não morri de amores à primeira vista, mas que ganhou o meu coração com o passar dos dias conforme eu ganhava a intimidade de suas ladeiras constantes e incessantes e que testaram a minha resistência sem piedade. Não entendi ainda direito o motivo de tanto sobe e desce, mas uma das informações que recebi é porque o município está aos pés da Cordilheira dos Andes. Não houve um só dia em que perguntei onde ficava determinado local que a resposta não incluía: sobe a ladeira, depois desce a ladeira. Ou vice-versa.

A população estimada pelo IBGE é de 78 mil habitantes, sendo 39.220 homens e 39.287 mulheres – podemos dizer que está mais equilibrado que muitos outros por aí – e sua população é predominantemente católica, o que pode ser notado durante as missas abarrotadas na Catedral. Além de estar no segundo lugar entre os maiores municípios do Acre, também está na mesma posição quando o assunto é a localização mais a Oeste do Brasil. Nessa categoria, Cruzeiro perde para a vizinha Mâncio Lima.

A região que hoje compreende o município de Cruzeiro do Sul era habitada por tribos indígenas. E foi daqui que parti para todas as aldeias que visitei, fosse de barco, carro ou avião. Sim, avião. O aeroporto de Cruzeiro é internacional, mas eu só viajei mesmo em aviões monomotores. Aliás, sobrevoar a Amazônia é lindo, mas achei que fazer isso nos conhecidos teco-tecos foi aventura demais. A brincadeira aqui é que se embarca como passageiro e desembarca como sobrevivente. Nunca quis levar isso muito a sério.

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Do Vale e o melhor açaí de Cruzeiro

Cruzeiro é uma cidade pacata, conservadora e com torcedores que se dividem entre flamenguistas e vascaínos e eu, que não sou boba nem nada, não me atreverei a dizer qual das torcidas eu acho que é maior, mas dizem as boas e as más línguas que o fã-clube do Flamengo foi criado primeiro. Vascaínos vieram logo na sequência com a mesma ideia, mas isso eu ouvi de um flamenguista. Também teve escândalo político recente com a prisão do chefe de gabinete e do presidente do PSDB por estarem coagindo candidatos a vereador a desistirem de pleito.

A cidade não tem shopping e se quiser almoçar depois das 14h azar o seu, mas tem o açaí do Do Vale, que é o melhor da cidade. Ele, o Do Vale, também gosta de misturar umas frutas que antes eu achava que não combinava para preparar uns sucos diferentes. Manga com mamão, por exemplo. Segundo ele, o pessoal do Norte não gosta não, mas o pessoal de fora – como eu – adora. Eu adorei mesmo.

Há quem reclame da falta de opções para o entretenimento. Mas tem o Cine Romeu, na figura do ilustre Neco, que passa até nos restaurantes avisando de mesa em mesa sobre o filme em cartaz. É uma sala só com a mesma programação durante duas semanas, mais ou menos. Como os filmes precisam agradar a todas as idades porque só há uma sessão, que é diariamente às 20h, eles são todos dublados. Não interessa qual o filme em cartaz, a família toda vai junta. Nesta semana está passando Quando as Luzes se Apagam, mas é de terror e por isso não assisti, mas o Leandro, o responsável pela projeção dos filmes, disse que está sendo um sucesso só. A cidade adora filmes de terror, segundo ele. E quem sou eu para discordar?

Tem muita moto pela cidade e quando cheguei aqui pensei que não sobreviveria uma semana sem ser atropelada, mas cá estou. Devido ao sol sem tréguas as pessoas também andam munidas de sombrinha e depois de quase dois meses aqui já é possível reconhecer algumas pessoas pelas cores do adereço. Aquela sombrinha rosa só pode ser a Paula.

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Mercado de Cruzeiro: farinha, farinha, farinha

Isso sem contar a Denise, a gerente do Hotel São José, que junto com a sua trupe ajuda aos viajantes como eu da maneira mais gentil e amável possível. Tem também a famosa farinha de Cruzeiro que eu comi muito, mas muito mesmo, os biscoitos de goma e os vários tipos de feijão, que eu também comi muito, mas muito mesmo.

Isso que eu ainda nem mencionei as pessoas que cruzei pelas demais regiões do Juruá, como a antropóloga Carolina Comandulli, que além de fonte preciosa de informações foi uma companheira implacável durante meu tempo com os índios Ashaninkas. Aos amigos Jarison e Zé Mendes, da SOS Amazônia, que me guiaram pelos rios secos da Resex Alto Juruá, e empurram a canoa comigo dentro, meu muito obrigada. Vocês me mostraram o que é trabalhar com amor. Tem também o Zezinho, índio Huni Kuin da aldeia Carapanã, que me permitiu acesso ao festival de sua etnia e que me ajuda com informações que vão da antropologia a como diferenciar piuns de miruins. E o Eufran Amaral, da Embrapa, que me ajudou com o roteiro e contatos.

Depois de cinco etnias visitadas – Puyanawa, Yawanawa, Kuntanawa, Ashaninka e Huni Kuin -, 70 horas navegadas em canoas em seis distintos rios, muitos amigos pelos caminhos de terra e percursos das águas, já posso dizer com alguma experiência que o Acre é um estado imenso, mesmo sendo tão pequeno. Com ele e por ele descobri que a vida na floresta é uma preciosidade e troquei o conceito de depressão pós-férias para o depressão pós-aldeia. Voltar para a cidade é sempre um sacrifício, mesmo que seja ela Cruzeiro do Sul com todas as suas Denises, Do Vales e Necos.

Leandro, o projetista, e Neco, em caricatura

Leandro, responsável pela projeção dos filmes, e Neco, em caricatura

Deixo Cruzeiro do Sul e o Vale do Juruá para seguir o meu caminho. Vou agora para Rio Branco e pretendo ir a Xapuri para ouvir as histórias de outros guardiões da selva, como Chico Mendes e seus parceiros de luta. Também aproveito para planejar o roteiro para o estado de Rondônia.

Até mais Vale do Juruá. Rio Branco, estou chegando. Mas já me avisaram que por aí boa parte da floresta se transformou em pasto e o clima não anda bom, que há fumaça e há fogo, mas a chuva chegou e o frio não tardou a aparecer. Quem sabe eles não trazem algum acalanto para esses tempos difíceis. Vou ver de perto para conferir.

 

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