Eu, a Amazônia e a felicidade
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Eu, a Amazônia e a felicidade

Maria Fernanda Ribeiro

13 Fevereiro 2017 | 07h00

 

O que a Amazônia me ensinou sobre felicidade. É esse o tema de um bate-papo que participo amanhã na cidade de Ribeirão Preto (SP). O convite foi feito há mais de um mês e desde então só penso em como responder à pergunta.

 

Que eu descobri a felicidade na Amazônia pode parecer óbvio, pois se fosse o contrário eu não teria vindo até São Paulo para me desfazer de um apartamento alugado, vender uma parte dos meus móveis e utensílios domésticos, doar tantos outros, despachar os livros para a casa da minha mãe e ter praticado o desapego até que as roupas coubessem em duas malas. Depois de tudo isso me declaro oficialmente uma sem-teto e viajante da floresta. Por opção e não pela falta dela. Que sorte a minha.

 

Mas como explicar às pessoas que a felicidade encontrada lá nada tem a ver com dinheiro, consumo, um apartamento espaçoso, um carro zero quilômetro, rodovias com asfaltos de qualidade, boas escolas ou baixo índice de violência? Vou tentar.

 

O primeiro passo em direção à felicidade foi aprender que ser simples não é ser pobre. Não foi a primeira lição, mas talvez tenha sido a mais importante delas para que eu mudasse os meus próprios valores e a minha concepção de vida, que durante muito tempo foi a responsável para que eu me tornasse mais uma peça da engrenagem trabalhar – ganhar dinheiro – juntar dinheiro – pagar contas – comprar um apartamento – comprar outro maior – se endividar – trocar de carro – se endividar de novo.

 

Vejam a história do senhor Olimar, por exemplo. Ele mora em uma casa de madeira, às margens do rio Juruá, no estado do Acre, na Reserva Extrativista que leva o mesmo nome das águas que por lá correm e regem a vida de milhares de ribeirinhos.

 

A casa é simples, o que significa não haver torneiras com água corrente, o banheiro fica no quintal, o banho é de balde, não tem energia e muito menos internet. Não tem nenhuma mercearia por perto, nenhum centro de compras e nem um lugarzinho para comer um pão de queijo no meio da tarde se a fome apertar. A cidade mais próxima está localizada a quatro horas de canoa.

 

Seo Olimar, o senhor se considera pobre? Não, pelo contrário, responde ele. Sou rico. Não passo fome porque planto e colho, tem peixe para pescar, vivo tranquilo com a minha família. E olha para esse lugar aqui, diz o senhor de mais de sessenta anos movimentando os braços para mostrar a imensidão do verde da Amazônia.

 

E, pasmem, ele não é uma voz dissonante da floresta. A mesma opinião é compartilhada por muitos ribeirinhos, índios e extrativistas sempre que repito a mesma pergunta: você se acha pobre ou rico?

 

Na comunidade do senhor Olimar, come-se a fruta da estação, o peixe que foi possível pescar, o animal que foi possível caçar. Lá as pessoas têm tempo para você e você tempo para elas. E não se divide só o que sobra, mas tudo o que se tem. Nem que o tudo seja nada, ou quase nada. Pequenos atos que mostram a grandiosidade da generosidade. Ou da solidariedade. Podem escolher.

 

Diferente dos grandes centros, onde as relações costumam ser funcionais, com almoços regados a networkings, cafés repletos de debates com as metas a serem atingidas e jantares para fechar negócios, redescobri na floresta o impagável preço das relações afetivas, onde damos sem esperar nada em troca e recebemos sem nem mesmo saber o porquê.

 

Longe dos shoppings, vitrines e supermercados com corredores intermináveis, elas vivem o que a maioria de nós talvez tenha perdido: o instinto primitivo. Em muitas comunidades ou aldeias, o dinheiro pode não valer nada. Você até teria uns bons reais para comprar uma comida diferente ou uma roupa melhor, mas simplesmente não há nenhum lugar para ir. E também não é possível adquirir pela internet. Mesmo que houvesse sinal, não sei qual seria o carteiro que conseguiria chegar até o lugar. As crianças, que vivem sem acesso a celulares, iPads ou videogames, estão sempre em sintonia com a natureza, com os adultos e com elas mesmas.

 

Eu deixei São Paulo para iniciar essa jornada floresta adentro para conhecer como as pessoas ali vivem. O que comem, como se relacionam, quais seus medos e anseios. Descobri que um dos maiores erros é projetarmos nos outros o modelo de sociedade que criamos para nós. É necessário o respeito ao passado e aos contextos cultural e social nos quais cada povo está inserido.

 

E descobrir que há vida fora do sistema que nos foi imposto e que há espaço para ser somente o que se é, sem aparências ou penduricalhos fajutos de estima, me traz felicidade. Talvez haja mais coisas entre a plenitude e a felicidade  do que imagina a nossa vã filosofia.

 

Não estou aqui para impor um modelo de felicidade, pois isso não existe e cada um sabe a sua maneira de encontrá-la. Descubra a sua. E não tenha medo. Ela está logo ali, te esperando do outro lado da porta. Só precisa se esforçar um pouquinho para encontrar a chave, que talvez esteja escondidinha naquela gaveta que você nem lembra mais.

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Maria Fernanda Ribeiro

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