Dica Frazão, 97, a estilista da floresta e a lenda do Tapajós
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Dica Frazão, 97, a estilista da floresta e a lenda do Tapajós

Maria Fernanda Ribeiro

02 Maio 2017 | 06h02

Você é jornalista? Então, faz uma reportagem bem bonita comigo, tá bom? Pede a estilista Dica Frazão, 97 anos, enquanto escolhe a cor do esmalte que entrega à manicure para pintar as unhas das mãos. Dica está na cozinha da sua casa, que é também o mesmo espaço onde fica o museu que leva o seu nome, na cidade de Santarém, no Oeste do Pará.

 

“Não conheço ninguém vivo que tenha um museu, só eu. Minha história é muito bonita. Você vai gostar.”


 

Combino de voltar no dia seguinte para que ela possa se preparar para me contar a sua história. E para que eu possa me preparar para a entrevista, pois a intenção inicial era apenas uma visita ao museu. Dez horas da manhã é o horário marcado para eu saber um pouco mais sobre a vida da estilista da floresta Raimunda Rodrigues Frazão, também conhecida como a divina artesã.

 

Dica me aguardava no mesmo local do nosso primeiro encontro, já com as unhas pintadas de rosa num tom claro e opaco e com vestido cuja estampa forjava rendas. Museu e casa se confundem, como se fosse um lugar só. Você vai para a visitação e quando se dá conta já adentrou os demais cômodos e chegou ao quintal.

 

Em uma cadeira de rodas por dificuldades de locomoção, solicita que o cunhado, que é também o seu ajudante, lhe guie até as duas salas do museu em que estão as peças de sua autoria. Algumas únicas e outras réplicas, cujos originais estão espalhados pelo mundo.

 

Franzina, com 1,38 metro, a postura é de uma gigante orgulhosa com a história de um legado que não deixará sucessores. Você vai ficar encantada com a minha vida, dá um filme, adianta Dica antes de começar a contar como deixou a cidade de Capanema, no Pará, para chegar de navio a Santarém, no mesmo estado, com os sete irmãos a tiracolo, após perder a mãe aos 12 anos e o pai ter os abandonado dois anos depois, com uma única promessa: se conseguisse criar os irmãos ali, nunca mais deixaria a cidade. Dito e feito.

 

“Está gostando da minha história, está?”, pergunta como se já soubesse a resposta.

 

Com a afirmativa, prossegue na cronologia da sua existência. Pede ao cunhado que traga sua cestinha de vime, onde guarda um pedaço de cada um dos materiais que usou para tecer os trajes que abalaram a cidade durante décadas. Nada de seda, viscose e paetês. Pelas mãos de Dica Frazão somente matéria-prima regional transformada habilmente em roupas.

 

Palha do buriti, raiz do patchouli, fibra de malva e até a entrecasca de uma árvore enviada pelos índios da etnia Munduruku, que chegou em 1970 pelas mãos de uma freira que trabalhava com eles na missão e perguntou se Dica conseguia fazer alguma coisa com aquilo. Vou tentar, respondeu. Coloca na água, puxa daqui, puxa dali e voilà, o produto se tornou um dos mais utilizado no ateliê da estilista.

Para cada material da cestinha apontado pela estilista, que parece já ter um roteiro de qual exemplar mostrar, o cunhado e fiel escudeiro estaciona a cadeira de rodas em frente ao figurino para que ela explique como foi feito, para quem e quantos dias foram necessários – geralmente 30 dias de trabalhos ininterruptos – para que a obra-prima fosse parar nos corpos esbeltos das mulheres da alta sociedade de Santarém. Ou nas mãos de pessoas importantes Brasil e mundo afora.

 

A toalha tecida com a palha do buriti foi um presente encomendado pela Diocese de Santarém ao papa João Paulo II. Outra toalha, para então presidente Juscelino Kubitscheck. Com a entrecasca da árvore, um vestido para a rainha Fabíola da Bélgica. Segundo Dica, há 143 peças catalogadas no museu. No auge da carreira, o ateliê Dica Frazão abastecia cinco lojas requintadas da cidade com suas peças.

 

– Mas, dona Dica, quem ensinou tudo isso para a senhora?

– Nunca tive um professor, sou uma artista nata, meu amor.

 

Tanto orgulho começou quando “uma senhora rica” pediu um adereço feito com pena de arara e que formasse uma rosa para ser usado com um vestido, mas Dica não tinha as penas. A senhora rica disse que isso não seria um problema e no dia seguinte apareceu com duas araras mortas na casa da estilista.

 

“Fiquei assustada quando vi as duas araras.” A partir de então, Dica começou a criar patos no quintal e dava banho com anilina nos animais para tingi-los das mais variadas cores. “Aquela época não tinha essa coisa de Ibama e a gente também não sabia muito das coisas”, conta ao lembrar com precisão datas, números e passagens da vida na infância. “Tenho uma memória fora de série, entende?”

 

O ateliê de Dica permanece no mesmo local e faz parte do museu, que funciona em horários flexíveis, mas os olhos e as mãos sentem o peso do tempo e já não permitem tamanha destreza para transformar em trabalho os presentes que a natureza lhe concedeu durante tantos anos.

 

Após me guiar para o seu altar com homenagens concedidas por diferentes instituições durante toda a vida, a estilista pergunta se estou satisfeita com o que ela havia me contado até então. Afirmo que sim e encerro a entrevista. Já é hora do almoço e ela foi convocada para sentar-se à mesa.

 

Na saída, sou presenteada com um livro sobre a sua história, um projeto do Instituto Cultural Boanerges Sena para resgatar a cultura de Santarém. “Custa R$ 49, mas vou te dar de presente.” Na dedicatória, que ela ditou para que eu mesma escrevesse, os seguintes dizeres: Para minha amiga Fernanda, com muito carinho e amor maternal, ofereço esse livro como lembrança da minha vida. Beijou minha mão e foi almoçar.

 

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