Debaixo da copa das árvores: a invisibilidade da violência contra a mulher na Amazônia
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Debaixo da copa das árvores: a invisibilidade da violência contra a mulher na Amazônia

Maria Fernanda Ribeiro

13 Novembro 2017 | 06h30

As histórias de violência contra a mulher em comunidades da floresta Amazônica dificilmente ultrapassam os limites desse verde e vasto mundo para ecoar em outros cantos. Ribeirinhas, indígenas, extrativistas e quilombolas têm suas vozes sufocadas dentro de casa e muitas vezes nem compreendem que seus direitos estão sendo violados pelos comportamentos opressores dos parceiros.

E jogar um holofote na história dessas mulheres é o objetivo do projeto Debaixo da copa das árvores, um dos vencedores da nona edição do prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, promovido pelo Instituto Vladimir Herzog, das estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) Ana Flávia de Almeida Soares e Ana Luiza de Lima Silva. Foram dez pautas vencedoras cujo tema proposto foi Sob a ponta do iceberg: revelando a violência contra as mulheres que ninguém vê.

Reunidos em um site, o projeto reúne nove depoimentos em texto, fotos e vídeos, de mulheres que foram convidadas a contar suas histórias e revelar o que acontece em lugares distantes dos centros urbanos, especialmente no estado do Acre. E debaixo das copas de árvores, nas comunidades tradicionais, existem histórias de diferentes tipos de violência contra mulheres. Incesto, abuso de menores, casamento precoce, machismo, opressão, feminicídio e misoginia.

São histórias como a de dona Zenaide, a parteira da floresta, que em uma tentativa de estupro levou um murro no olho que lhe causou a perda da visão. E a de Maria Creuza Lima do Nascimento, que aos 13 anos se viu obrigada a fugir de casa com um namorado por sofrer assédio do padrasto.

“É triste saber que muitas mulheres não conhecem seus direitos, sofrem violência e não sabem que sofrem, não se enxergam como vítimas. Um exemplo é quando uma das nossas entrevistadas contou que as mulheres com três dias de resguardo se sentem obrigadas a ter relações com seus maridos por ter que cumprir com o seu papel de esposa”, disse Ana Flávia.

A ideia de que vivemos em uma sociedade da informação, globalizada e conectada é impactada por questões geográficas e sociais em diversos espaços onde ainda há circulação limitada de conhecimento sobre direitos e possibilidades de reverter situações de opressão, como nos seringais, comunidades indígenas ou reservas extrativistas. O machismo é uma construção histórica, social e cultural que transcende ao longo dos anos, especialmente em locais onde o debate e a participação social das mulheres é restrita.

 

Ana Luiza e Ana Flávia, alunas de jornalismo da UFAC, durante premiação em São Paulo

Segundo dados do Mapa da Violência 2015, o Acre ficou em 5º lugar entre os estados no Brasil onde mais se mata mulheres. A taxa de violência contra a mulher está acima da média nacional de 5,5 assassinadas ao ano, a cada grupo de 100 mil habitantes. Além disso, o estado consta como 1º lugar no índice de estupro no país, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014-2015.

 

O Eu na Floresta conversou com as futuras jornalistas e alguns trechos da nossa conversa você confere aqui:

Vocês, como moradoras da área urbana da Amazônia, já tinham ido até a floresta? O que foi diferente dessa vez?

Ana Luiza – Mesmo sendo moradora da Amazônia e tendo conhecimento sobre as peculiaridades locais eu nunca tinha entrado tanto em alguma comunidade como fizemos para visitar a comunidade do Icuriã, que foi basicamente a maior viagem que fizemos para coletar alguns depoimentos.

Como foi para chegar até lá?

Ana Luiza – O Icuriã é uma comunidade extrativista que fica dentro da reserva Chico Mendes. Para chegar lá nós pegamos 344 quilômetros de estrada, saindo da capital Rio Branco até Assis Brasil, e de Assis Brasil mais 75 quilômetros de ramal (estrada de terra). Lá entrevistamos muitas índias que demoraram até dois dias de viagem para chegar nesse local. Aproveitamos a realização do Projeto Mulher Cidadã, que estava sendo realizado lá, para encontrar essas mulheres.

Como conhecer a vida dessas mulheres afetou a vida de vocês?

Ana Luiza – Essas mulheres possuem histórias que nós sabemos que existem, mas acaba que nunca nos aproximamos ou conhecemos alguém que realmente tenha passado por algo do tipo. Pra mim foi um grande choque de realidade, essas mulheres existem e suas histórias também.

Algum depoimento que tenha chamado mais a atenção?

Ana Luiza – Acredito que o depoimento mais importante que temos é o da Zenaide, ela é parteira, cresceu e viveu boa parte da sua vida no seringal. Por ser parteira ela se envolveu muito e com muitas mulheres que confiaram a ela algumas histórias. Zenaide também sobreviveu a uma tentativa de estupro e agressão física que culminou na perda de funcionalidade de um dos seus olhos.

Ana Flávia – Uma das entrevistadas saiu da comunidade que morava para trabalhar como doméstica e se casou com o patrão, um homem bem mais velho e que depois de um tempo começou a agredi-la. Ela então voltou para casa dos pais, porém a mãe dela disse que seria melhor que voltasse com o agressor porque ao menos ele poderia sustenta-la.

O que vocês gostariam de dizer ao mundo com essa história?

Ana Flávia – Mostrar que existem pessoas e histórias por trás das estatísticas. Sempre vejo nos jornais dados sobre a violência contra mulher no estado do Acre, e o estado está sempre entre um dos mais violentos.

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