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Coisas, apenas coisas

Maria Fernanda Ribeiro

09 Setembro 2016 | 11h24

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A verdade é que está difícil sair do Acre, mas ao menos consegui me deslocar da região do Vale do Juruá para a capital Rio Branco. Dei sorte, pois desembarquei após a frente fria, que trouxe alguns dias de chuva e frio que espantaram a fumaça e o fogo que tanto assolaram a cidade nas últimas semanas. Confesso que depois de todo esse tempo imersa na floresta, entre aldeias e comunidades ribeirinhas, a cidade me traz certa melancolia e um pouco de solidão, mesmo estando rodeada de novos amigos e de encontros para lá de reconfortantes e preenchedores sagazes de manhãs, tardes e noites.

No dia 12 de setembro completo dois meses do início da minha jornada para conhecer os noves estados que compõem a Amazônia Legal em busca das histórias dos povos da floresta, os guardiões da selva. Ter deixado a vida em São Paulo, com emprego, casa e conforto foi como ter recebido a chance de viver uma nova vida dentro da mesma existência. Durante os longos diálogos que eu mantinha comigo mesma sempre dizia para aquela que eu olhava no espelho, de calça e camisa social, que eu não gostaria de ter que passar por uma grande dificuldade para que uma reviravolta acontecesse, como ser vítima de uma doença grave, um assalto ou qualquer outra coisa que eu considerasse o suficiente para dizer AGORA CHEGA!

Está certo que eu perdi o meu pai e talvez isso tenha sido impactante o suficiente para que eu percebesse que a vida é mesmo um fio que não precisa de uma navalha afiada para cortar, não. Qualquer tesourinha basta. Eu sempre soube, mas era como se eu não soubesse. E a realidade veio, tocou a campainha e apenas me encarou, sem emitir uma única palavra de boas-vindas. Afinal, éramos mesmo velhas conhecidas.

Antes de embarcar fiquei com medo de me desfazer totalmente do apartamento onde morava e das minhas coisas. Geladeira, fogão, quadros, livros e roupas. Coisas. Hoje, nem mesmo me lembro mais que coisas são essas. Aquele vestido preferido ou o vaso vindo da China. Ao ouvir a pergunta: Maria, mas você não sente falta das suas coisas? Eu respondo que falta sinto mesmo é de algumas pessoas. E nem de todas elas. Amigos e família. Também sinto que algumas histórias tenham ficado para trás. Ou para depois. Ou para nunca mais. Amores não vividos. Amores interrompidos. Tempos ocultos. Tempos enganados. Tempos vividos. Tempos que ficaram.

 

O resto são mesmo apenas coisas.

 

Coisas. Só coisas.

 

Cocar. Penas. Rios. Mata. Comida plantada no quintal. Igarapés. Urucum. Uma aranha que invade o seu jantar. Um macaco que aparece para se banhar. Música da floresta. Artistas da floresta. Pintores da floresta. Cultura milenar. Espiritualidade. Conexão. Fogo. Fogueira. Roda. Dança. Colheita. Sabedoria da vida. Vida.

 

Vida. Apenas a vida.

 

Coisas, apenas coisas.

 

No próximo dia 27 seria o aniversário do meu pai. No ano passado ele estava no hospital e foi o primeiro aniversário dele em que não comprei um presente. Coisas. Lembro-me de o ter abraçado bastante, de ter beijado sua bochecha e de pegar na mão dele, que emanava calor como se o sangue ainda corresse pulsante por aquelas veias. Coloquei o ouvido no peito dele para sentir a respiração, que já parecia a de um carro descendo a ladeira em ponto morto para economizar combustível.

Dois meses depois ele se foi. Mas muito antes de ele ter ficado doente sempre dizia que não se importava com a morte. Podia morrer e pronto. Meu pai sempre soube que coisas eram apenas como cinzas. O vento vem e leva. Sorte a dele, pois como diz o meu amigo acreano Sérgio de Carvalho, escritor e roteirista dos bons, em um dos contos do seu livro Outros Morangos: A vida engole. E o tempo também.

 

Coisas.

 

 

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