Primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazônia é inaugurado em Manaus
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Primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazônia é inaugurado em Manaus

Maria Fernanda Ribeiro

09 Junho 2017 | 17h19

Kumu Duhpo Tuyuka (foto Alberto Cesar Araujo-Amazonia Real)

Uma índia de nove anos é picada por uma jararaca em sua aldeia. Ela é levada para um hospital em Manaus e o veredito chegou rápido: era preciso amputar a perna. Familiares propõem que seja feito um tratamento integrado entre a medicina tradicional e a indígena numa tentativa de reverter o quadro.


O hospital não aceita o pedido e a garotinha, então, é retirada de lá e levada para uma casa de apoio onde continua a tomar os remédios alopáticos, mas dessa vez o tratamento vem junto com as plantas medicinais e o Bahsese, que significa benzimento na língua Tukano. A perna não precisou ser amputada e, apesar de algumas sequelas, ela se desenvolveu normalmente como as demais crianças de sua aldeia, jogando bola, plantando e colhendo.

O episódio, que aconteceu há dez anos, e abalou todo uma família foi a mola propulsora  para a criação do primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazônia, chamado de Barserikowi’i, na língua Tukano, e inaugurado na última terça-feira, 6 de junho, em Manaus. O local oferece um tratamento diferenciado para indígenas e não-indígenas com o benzimento e o uso de plantas medicinais para doenças do corpo, da mente e da alma.

Centro de Medicina Indigena com Bahsese (foto Alberto Cesar Araujo-Amazonia Real)

 

O atendimento será feito pelo Kumu – o benzedor – Manoel Lima Tuyuka, de 79 anos. Ele, que é o especialista do Centro de Medicina Indígena e profundo conhecedor das plantas da floresta, saiu da aldeia onde mora, a Porto Colômbia, no município de São Gabriel da Cachoeira – localizado a 850 quilômetros de Manaus e com acesso somente por barco ou avião – especialmente para passar uma temporada no local prestado o atendimento à população. Ele viajou sete dias de barco para chegar até a capital do Amazonas.

De acordo com o idealizador do projeto João Paulo Barreto, da etnia Tukano e sobrinho do Kumu, o espaço é aberto para todos aqueles que sentirem a necessidade de tratar suas doenças com as tecnologias e conhecimento indígenas. Caso o doente esteja impossibilitado de ir até o local, o atendimento poderá ser feito à domicílio.

A consulta terá o preço de R$ 10 reais e o valor do tratamento completo será de acordo com a enfermidade apresentada por cada um, conforme explicou João Paulo, que é doutorando de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Tem tratamento que dura dias, outros semanas e alguns até um ano inteiro.”

Há, sobretudo, de acordo com ele, duas formas de tratamento. Pelo Bahsese e pelas plantas medicinais. Bahsese é esse modelo que é acionado dentro de um elemento, pode ser água, tabaco, cigarro, urtiga, no qual o Kumu aciona os princípios curativos contidos nos vegetais. Quando ele faz isso ele não está rezando, ele está evocando esses princípios para curar doenças.

“Queremos dar oportunidade de outra opção de tratamento, que não seja apenas a medicina tradicional. Queremos também impactar e dar visibilidade por uma luta maior de políticas públicas para integrar as medicinas. E, além disso, queremos incentivar os jovens indígenas a dar continuidade à nossa medicina”, disse João Paulo.

O prédio onde funciona o Centro de Medicina Indígena foi cedido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). O ambiente foi decorado com objetos e artesanatos indígenas. Ali também será um espaço para cursos – de gastronomia à cosmologia – e venda de artesanatos para todas as etnias que precisarem de um espaço para expor suas peças.

Kumu Manoel Lima Tuyuka (foto Alberto Cesar Araujo-Amazonia Real)

 

Funcionamento

O Centro de Medicina Indígena da Amazônia vai funcionar de 9h às 15h de segunda a sexta-feira, na rua Rua Bernardo Ramos, 97, no Centro de Manaus

Telefones de contato: (92) 99271 – 7500 / 98249-5991

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