A vida das crianças indígenas na Amazônia
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A vida das crianças indígenas na Amazônia

Maria Fernanda Ribeiro

11 Dezembro 2017 | 10h53

Em um vídeo publicado no meu perfil do Instagram (eunafloresta) a criança Yanomami Laís, 5 anos, manuseava com a  habilidade de um adulto bem treinado um facão enquanto descascava, na companhia de outras pessoas, uma pilha de mandioca colhida na roça da própria família.

Laís fazia isso sentada no chão de terra, vestia shorts e nenhuma camiseta, estava descalça e usava um colar de miçangas. Alguns a confundiram com um menino, o que é comum nessas regiões pelas vestimentas que não levam muito em conta a questão do sexo. Meninos e meninas usam shorts, com ou sem camiseta, geralmente estão descalços ou usam chinelos.

O vídeo foi filmado na casa coletiva onde ela mora, em uma aldeia localizada na cidade de Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas. A mandioca – macaxeira como é conhecida por lá –há tempos salva da fome muitas comunidades brasileiras e é um dos principais alimentos da região: com ela se faz a farinha, a tapioca e o beiju, uma iguaria tipicamente brasileira e de origem indígena.

O vídeo de 12 segundos gerou comentários sobre as diferenças culturais e comportamentos da infância que foram da indignação à admiração. Reproduzo aqui alguns:

“Não parece responsável deixar uma arma dessas nas mãos de um pequena… mesmo com todas as diferenças culturais.”

“Triste! Essa criança deveria está estudando, brincando.”

“Faz mais estrago uma criança com um celular na mão do que uma faca!”

“Excelente! Ajudando toda a tribo e ainda desenvolvendo habilidades! Sou fã da cultura indígena, muita coisa a ensinar.”

“Que medo de cortar o dedo. Crianças da civilização urbana jamais pegariam numa faca como esta para trabalhar.”

Há um ano e meio viajo pela Amazônia. Já foram seis estados até o momento (Acre, Amazonas, Rondônia, Amapá, Pará e Roraima, em ordem cronológica) e foi só chegar à primeira comunidade indígena para me deparar com uma criança praticamente da mesma idade da Laís segurando um enorme facão, chamado por lá de terçado. A ferramenta é usada para abrir caminho na floresta, matar uma cobra se necessário for, limpar e cortar a caça e cuidar da mandioca, entre outros inúmeros exemplos. Em cada casa, há pelo menos um desses.

Faltou-me o ar e sobrou-me o sufoco ao ver aquela criança com mãos minúsculas carregando um instrumento capaz de causar danos terríveis se usado de maneira equivocada, mas antes que eu ensaiasse qualquer lição de moral ou tentasse tomá-lo daquele quase bebê fui interrompida por uma pessoa que ao se deparar com a minha feição de espanto logo percebeu que eu falaria qualquer bobagem. Suspirei e observei. E acompanhei até o final o andar certeiro daquela criança que caminhava em direção aos pais para entregar o objeto.

Criança Ashaninka, no Acre, segura um terçado e ajuda no trabalho de descascar a macaxeira para o preparo de bebida tradicional indígena

 

Foi na mesma terra indígena, no estado do Acre, que uma menina de dez anos me ensinou como a limpar e a tratar o peixe. O fato aconteceu após recebermos uma bacia com curimatãs (se não me falhe a memória) recém-pescados e não sabíamos o que fazer com aquilo. Se dependesse das duas não-indígenas que se encontravam no local, a fome seria o único destino possível.

Pedimos ajuda para Kamoshi, a índia Ashaninka, que nos olhou com desprezo como se perguntasse “como é que vocês, velhas mulheres, não sabem fazer isso?” Pacientemente ela começou a cortá-los, a tirar as tripas e as vísceras, sem nojo ou desdém, e quando notava que nosso foco tinha desviado para outro assunto ou situação como se estivéssemos aliviadas por alguém estar fazendo aquilo por nós, parava e perguntava se não íamos prestar atenção, pois não faria isso novamente.

Kamoshi, a pequena gigante Ashaninka, nos ensina como a limpar e preparar peixes

Kamoshi, no Acre, assim como Laís, a pequena índia Yanomami do Amazonas, não são exceções, são regras. Elas também não estão longe da escola ou trocam as brincadeiras pelos serviços domésticos numa espécie de trabalho infantil que condenamos. É preciso entender que na cultura indígena todos participam das atividades de forma coletiva. E tudo é aprendizado. Sem entender o contexto, faz-se juízo de valor.

Certa vez um repórter internacional perguntou para uma dessas crianças como ela se sentia trabalhando ao invés de brincar e ela ficou sem saber o que responder, pois aqueles afazeres – assim como ajudar a cuidar de um irmão mais novo – é parte do cotidiano e entre uma macaxeira descascada e outra, elas correm para o rio para se refrescarem sem a necessidade de nenhum adulto por perto e depois disso já estão brincando de bola com os demais curumins.

Na escola indígena, por exemplo, alguns dias da semana são reservados para que os alunos participem das atividades cotidianas das suas famílias. Meninos saem com o pais para aprenderem a caçar e a pescar e as meninas ficam com as mães para aprenderem o artesanato.

Criança indígena em dia de aula da escola diferenciada onde aprende com a mãe a tecer roupas

Diferente das nossas crianças, que são forjadas para desde cedo frequentarem boas escolas com o objetivo de passarem em boas universidades para serem “alguém na vida” e isso significa ter uma carreira, dinheiro e status, as crianças indígenas já são alguém, com suas funções coletivas sendo executadas de maneira natural para que desenvolvam habilidades com o objetivo de que cresçam aptas a conviverem com a floresta de maneira harmoniosa.

Para que saibam a importância de uma semente, conheçam o calendário ecológico, quais animais servem como alimento e quais é melhor deixar passar, que lembrem-se sempre dos seus ancestrais, que valorizem aquela terra onde lutas pelo território foram travadas e povos dizimados, que reconheçam as árvores, sintam o perigo e lembrem-se que a floresta em que vivem é um bem de todos, mas eles é que atuam como guardiões.

Questionar comportamentos de culturas que desconhecemos é válido, mas é importante não impormos aos outros um modelo de organização social que pensamos ser bom apenas para nós mesmos, ainda mais por desconhecimento ou falta de empatia. Antes de colocarmos as nossas unhas nas palavras do julgamento, faz-se necessário e urgente um trabalho de reflexão pelo outro. Se não estaremos todos fadados ao próprio fim.

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