A primeira terra índigena
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A primeira terra índigena

Maria Fernanda Ribeiro

16 Julho 2016 | 19h00

Deixei Cruzeiro do Sul, no Acre, essa cidade que é a segunda maior do Estado depois de Rio Branco e que tem uma boate que chama Hashtag e uma lanchonete cujo nome é Whatsapp, para ir até a vizinha Mâncio Lima participar do primeiro Festival da Mandioca da etnia Puyanawa, constituída atualmente por cerca de 140 famílias. Uma média de 640 pessoas.

Eu estava bem animada para chegar logo porque seria a primeira vez que pisaria em uma Terra Indígena, mas ainda no caminho uma informação me intrigava: como aqueles índios se sentiam ao habitar uma aldeia que ficava em um município cujo nome era uma homenagem ao coronel seringueiro que foi responsável por uma matança organizada de seus antepassados e do trabalho escravo da sua etnia?

Ao passar pelo portal que indicava que dali em diante eu estava em terras Puyanawa meu coração palpitou e a euforia tomou conta de todos os meus sentidos e, por algumas horas, eu esqueci o assunto que me incomodava. Os Puyanawa estavam em festa. Era o primeiro festival que eles realizavam e chegamos – eu e meu primo – pouco antes do discurso de abertura da parte da tarde.

Estavam pintados com jenipapo e urucum e trajavam suas roupas típicas. Fomos apresentados às lideranças e já entramos no clima do festival, que tinha como objetivo celebrar e reconhecer a própria cultura, que é intrínseca à produção da macaxeira, de onde tiram seu principal sustento. São cerca de 40 toneladas de farinha por ano na aldeia, o suficiente para que conseguissem pagar o empréstimo de R$ 700 mil realizado com o Banco da Amazônia, contou Luiz Puyanawa, o segundo nome da aldeia e quem autorizou a nossa entrada no local. Ser o segundo nome significa na prática que depois do cacique é ele quem apita o jogo.

O primeiro dia de festa me fez chorar, como de praxe. Fiquei muito emocionada em estar ali conversando com aquelas pessoas e vivendo exatamente aquilo que me propus a fazer Amazônia adentro, que é conhecer os povos que habitam a floresta e os verdadeiros guardiões da selva. Conheci a caiçuma, que é uma bebida fermentada de mandioca e batata que deixa todos mais pra lá do que pra cá, inclusive eu, e só pode ser servida por uma índia; ouvi muitas histórias sobre a Ayahuasca, tomei banho no Igarapé, aprendi uma ou outra música, assisti ao jogo de futebol em que as mulheres disputaram contra os homens e quase ganharam e entendi definitivamente a diferença entre um cocar e uma coroa.

Mâncio Lima

Ficamos hospedados na casa do Luiz e durante o jantar, regado à salada de repolho, farinha com peixe, feijão e arroz, retomei a conversa sobre o coronel que ganhou da história fama de herói. Luiz me contou que não era apenas o nome da cidade que eles tinham como herança, mas que também muitos deles – a maioria – carregavam o sobrenome Lima.

Os antepassados, ao serem ceifados de sua aldeia e levados para a fazenda do coronel onde atualmente é a terra indígena, ganharam um sobrenome que nunca pediram e, junto, um estigma que ainda passa de geração e geração, mas que eles gostariam mesmo é de esquecer. Segundo o Luiz, que é na verdade José Luiz Martins de Lima, o coronel separou os homens das mulheres, os proibiu de falar a língua nativa, os obrigou a aprender o português e a trabalhar duramente na extração do látex. Além de tirar os filhos das índias que tiveram crianças com os homens brancos. Ele também mandava bater e muitos ainda morreram.

Luiz e outros puyanawas me contaram uma história que a própria história já se encarregou de contar e por essas bandas todos sabem dizer quem foi Mâncio Lima. Quando eu questionava se eles sabiam o por que daquele sobrenome, respondiam com semblante resignado: por causa do coronel. Eu emendava perguntando o que eles achavam disso e na simplicidade elaborada que lhes é peculiar respondiam que não gostavam porque ele, o coronel, tinha sido uma pessoa má e que por causa dele o povo tinha perdido parte de sua cultura.

Hoje, lembrar dessas atrocidades faz parte da tradição dos Puyanawa para o resgate daquilo que lhes foi tirado. Na festa da mandioca, por exemplo, um cartaz pregado na porta da maloca onde a programação era cumprida quase que a risca lembra que as sequelas deixadas por Mâncio Lima são fortes e visíveis pois “esse opressor nada investiu nos Puyanawa, há não ser assassinato, enganos e proibição das nossas práticas tradicionais.”

Parte da população que conseguiu se ver livre do estigma costuma dizer que “graças a Deus” não possui o sobrenome. Mas só isso não basta. Os Puyanawas gostariam mesmo é de mudar o nome da cidade e receberem o direito de poderem se registrar como Puyanawas, pois esse é um nome do qual eles se orgulham. Isso também foi o Luiz quem me contou. Do coronel, eles nunca quiseram nada, mas foram obrigados a receber quase tudo.

Mas essa história é muito maior do que essas parcas linhas que escrevi e eu ainda ei de contá-la com mais detalhes, mas agora eu preciso descansar porque saio daqui a pouco para conhecer outra etnia, os Yawanawas, que estão na região do rio Gregório, no município de Tarauacá, no Oeste doestado do Acre. São aproximadamente 700 pessoas que vivem por lá e eu, que mal comecei a viagem, já estou passando mal e de molho no quarto do hotel. Espero que o meu corpo se acostume logo com a selva.

Saio de Cruzeiro do Sul pela manhã e devo encarar umas oito horas de barco. Ou mais, ou menos. Depende da força das águas. Ou da falta delas. A seca está feia por aqui e o governador Tião Viana até já decretou estado de emergência. Lá, ficarei sem internet. Mas volto em dez dias para contar história. Aos guardiões da selva da etnia Puyanawa, o meu muito obrigada pela hospitalidade.

   “Quem planta e cria, tem alegria.” – José Marcondes, 39 anos, índio que está se formando como Técnico florestal que é para aplicar na aldeia que vive todo o seu aprendizado.

 

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