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UMA (BREVE) REFLEXÃO AMBIENTAL IMPERTINENTE.

Dener Giovanini

16 Outubro 2011 | 15h23

No início eram as trevas. Então o Criador separou a luz da escuridão. Pôs de um lado os ecologistas e, nas sombras, os bestiais capitalistas. Desde então, cientes de sua “missão divina”, os ambientalistas entregam-se a cotidiana batalha para livrar o mundo das iniquidades produtivas.

Para um desavisado – ou um não iniciado – é assim que se mostra o movimento ambiental. Ou pelo menos, é dessa forma que muitos ambientalistas querem ser vistos: os salvadores da humanidade.

A milenar história das religiões não foi o suficiente para promover o consenso sobre as diferenças entre o sagrado e o profano. E no enredo ambiental não é diferente, com o agravante de, ao invés de milhares de anos, termos apenas algumas poucas décadas de consciência ambiental mais apurada.

A verdade é que o movimento ambientalista mundial está fracassando. Fora algumas pequenas conquistas e vitórias aqui e ali, amplificadas para estimularem o fluxo monetário de algumas ONGs, o quadro geral está ruim, muito ruim.

Ele ainda é incapaz de oferecer respostas convincentes e viáveis, sobre o caminho que a humanidade deve seguir, para manter um mínimo de harmonia entre a necessidade de desenvolvimento e o compromisso que precisamos ter com a manutenção dos recursos naturais.

Essa é uma constatação desagradável de se ouvir, ou no caso, de se ler. Porém, ela reflete apenas o que os fatos comprovam. No Brasil, por exemplo, fomos incapazes de evitar o quase desaparecimento da Mata Atlântica, apesar da existência  de inúmeras ONGs que a “defendem”.

Estou errado nessa constatação? Alguém já ouviu alguma notícia informando sobre alguma queda, por menor que fosse, do desmatamento da Mata Atlântica? Penso que não. O que vemos anualmente é a divulgação de números que comprovam o que acabei de escrever: da Mata Atlântica original restam pouco mais de 6%. E continua diminuindo ano após ano. Provavelmente irá surgir algum leitor que dirá: mas se não fossem as ONGs a situação estaria muito pior!  E a ele respondei: concordo! Graças as ONGs ambientais ganharemos mais alguns anos na UTI, mas em nada muda o diagnóstico inicial de estado terminal do paciente.

E agora estamos permitindo que o mesmo ocorra com o Cerrado.  A diferença é que neste bioma o ritmo da destruição está muito mais acelerado e não temos mais exploradores portugueses para jogar a culpa.

Um dos problemas é que uma considerável parte das organizações ambientais sofre de daltonismo ambiental. Enxergam nas “questões verdes” o vermelho de um ideologismo arcaico. Grande parte do ambientalismo nacional forjou sua visão com a ajuda da foice e do martelo – inspirados no movimento de 1968 – e pouco evoluiu desde então. Muitos ecologistas ainda recheiam seus discursos com expressões típicas dos estudantes revoltosos de Paris. Tratam dos temas ambientais sob a ótica do ideal revolucionário e, por isso, sempre caem na contradição de suas práticas. Um exemplo típico são os ecologistas “libertários” que fingem não ver a degradação ambiental causada pelo Movimento dos Sem Terra – MST ou pelos assentamentos do INCRA.

Ao lado dos “Biocompanheiros” marcham os “EcoHippes”. Esses últimos, mesmo livres da contaminação ideológica, só conseguem ter uma percepção romântica do mundo. O seu amor incondicional a toda forma de vida – e aos duendes – os transformam em perfeitos personagens do exército imaginário de Brancaleone, majestosamente retratado pelo cineasta Monicelli.

Meu objetivo neste breve artigo não é fazer uma classificação biológica das espécies que pertencem ao “Reino Ambientalista”, até por que o espaço não permitiria e muitas espécies importantes seriam desconsideradas, como os Biodesagradáveis. Também não pretendo desqualificar ou desmerecer nenhuma das espécies acima citadas, até por que, dediquei mais da metade da minha vida a causa ambiental e já tive a oportunidade de também merecer diversas classificações.

Meu intento é motivar o aprofundamento do debate ambiental e fazer um alerta sobre a importância do momento histórico que vivemos. Chegou a hora de definirmos quais os caminhos que vamos seguir daqui em diante.

A inconsistência – ou falta – das soluções apresentadas pelo movimento ambientalista contribui, decisivamente, para aumentar a fornalha diabólica dos maus intencionados. A distensão entre o setor produtivo e os movimentos sociais nunca esteve tão evidente. Vivemos tempos em que não existe diálogo capaz de criar e fortalecer o entendimento, que se faz tão necessário para posicionarmos o Brasil no cenário internacional como uma nação economicamente viável e sócioambientalmente (palavrinha perigosa) responsável.

Posso afirmar também, com toda certeza e conhecimento de causa, que uma grande parte das empresas que estampam expressões do tipo “sustentabilidade” ou “responsabilidade ambiental” em suas peças publicitárias, o fazem de forma irresponsável, mentirosa e, o mais grave, leviana. Não passam de embustes de marketing para aproveitar uma oportunidade de mercado.

Um exemplo simples e didático dessa categoria nefasta do setor produtivo são os hotéis.

Quem já não se deparou com aquele adesivo no banheiro, quase implorando ao hóspede, que reutilize sua toalha? Diz o tal adesivo que o hotel, “preocupado com a conservação das águas”, quer evitar lavar a sua toalha para poupar o meio ambiente dos rejeitos químicos das lavanderias. Pura ecoenganação!  O que eles querem na verdade é apenas eliminar despesas por conta da economia feita pelo hóspede e dão a isso o nome de responsabilidade ambiental.  Sempre que encontro os tais adesivos faço questão de escrever neles uma frase simples e objetiva: caro hóspede, pergunte ao gerente desse hotel onde eles investem o dinheiro que você economiza com a sua boa intenção!

E o exemplo dos hotéis é praticamente uma brincadeira infantil perto das artimanhas criadas pelos departamentos de marketing de algumas grandes empresas.

O fato é que o “jogo de cena” precisa acabar. Os ambientalistas devem refletir e reconsiderar algumas das suas posições pré-históricas e, as empresas, tem que adotar uma postura coerente com a realidade. Não podemos mais fingir que os nossos esforços tem sido exitosos, por que não o são. Não podemos mais conviver com os pecados da gula e da avareza com relação aos nossos recursos naturais.

No limbo da ignorância e da insensatez dormem algumas das boas intenções de Deus e do diabo, ou melhor, daqueles ecologistas e empresários que se utilizam da causa ambiental apenas para satisfazer seus egos – no caso dos primeiros – ou acumular dinheiro à custa da apropriação indevida do lema ambiental, no caso dos segundos.

É hora de mudar. Ou vamos encarar um futuro onde as bestas do Apocalipse sentirão vergonha das suas pragas menores.

Conseguiremos?

Eis o mistério da Fé!

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