Um homem, algumas surucucus e muita burrice: um depoimento
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Um homem, algumas surucucus e muita burrice: um depoimento

Dener Giovanini

18 Fevereiro 2014 | 11h42

Alguns anos atrás, eu apresentei um quadro no programa Fantástico da TV Globo, chamado O Brasil é o Bicho! A série mostrava as relações do brasileiro com a fauna silvestre sob diversos aspectos. Foi uma experiência muito importante na formação do meu próprio conhecimento sobre a nossa biodiversidade. Durante alguns meses, viajei pelo Brasil com a equipe de gravação e pude ter contato com muitas realidades do nosso país. Tive a oportunidade de conhecer o trabalho das vendedoras de ervas do Mercado Ver-o-Peso em Belém, de estar no meio da Amazônia acompanhando a reintrodução de harpias, de ver o maravilhoso trabalho acadêmico dos pesquisadores da Universidade Federal de Feira de Santana… enfim, de encarar esse imenso mosaico da nossa cultura popular e a sua interação com a nossa diversidade biológica. Ao longo de 13 domingos, pude compartilhar com muitos brasileiros essa (literalmente) fantástica experiência.

Dentre os incríveis personagens que conheci naquela jornada, um me despertou especial atenção: o médico Rodrigo Souza. A descoberta de Rodrigo e sua atividade se deram no momento em que eu fazia pesquisas para escrever o roteiro da série. A primeira informação que tive sobre ele dava conta da existência de um médico do SUS que estava protegendo as surucucus na região de Itacaré, no sul da Bahia. Grandes, bravas e aterrorizantes, segundo os relatos de alguns moradores, elas são as maiores serpentes venenosas das Américas e uma espécie ameaçada de extinção. A sua principal ameaça reside no fato de que sua casa, a Mata Atlântica, está desaparecendo. As matas primárias do sul da Bahia, principalmente o entorno de Ilhéus e Itacaré, estão sob forte pressão da especulação imobiliária e da ocupação desordenada do solo.

Com Dr. Rodrigo durante as gravações em Itacaré.

Rodrigo sempre foi um apaixonado pela herpetologia, a ciência que estuda os répteis e os anfíbios, e um autodidata. Sua formação acadêmica — médico cirurgião — e o desejo de uma vida mais tranquila, longe dos grandes centros urbanos, o levou a trabalhar no hospital de Itacaré. Lá, começou a se ver constantemente frente a frente com as vítimas da terrível surucucu. Pacientes aterrorizados davam entrada no Pronto Socorro de seu hospital com hemorragias incontroláveis, dores fortes e beirando a morte. Alguns escapavam, outros não tinham tanta sorte. Com o tempo, Dr. Rodrigo foi aprendendo como lidar com aqueles casos e desenvolvendo técnicas que ajudavam a tirar os pacientes das mãos da morte. Se fosse um médico qualquer, Dr. Rodrigo passaria, com toda razão, a compor o coro dos que amaldiçoavam aquela serpente. Porém, tão forte quanto a alma de médico era sua alma ambientalista. Ele sabia que não era a serpente que estava invadindo a cidade. Era o contrário: quanto mais favelas brotavam onde antes existiam matas fechadas, mais os acidentes ofídicos aumentavam.

Num dia chuvoso de Itacaré, o médico se deparou com um aglomerado de pessoas assustadas, entre elas alguns policiais militares. No centro da confusão, cercada por porretes em riste, estava uma surucucu. Antes que a primeira paulada acertasse a cabeça da “maldita”, Dr. Rodrigo interveio e, num rompante que misturou ousadia e imprudência, conseguiu resgatar o animal e salvá-lo da morte certa. Levou-o para a sua chácara na região rural e começou a pensar num local seguro para soltá-lo. Pensava olhando para o horizonte ao seu redor: uma Mata Atlântica com muitas feridas abertas pela urbanização sem controle. A notícia se espalhou e Dr. Rodrigo virou o “homem da surucucu”. Não tardou para chegar o primeiro chamado de socorro, vinda da própria polícia militar, para que Dr. Rodrigo ajudasse a retirar, de dentro de uma casa humilde, uma “maldita” que lá se escondera. E vieram muitos outros pedidos: de donos de pousadas que tentavam controlar a histeria de seus hóspedes ao avistarem uma surucucu passeando perto da piscina ou de produtores rurais que abandonavam suas roças com medo da “medonha”.

Já com alguns exemplares ocupando uma considerável área cercada de sua chácara e sem ainda encontrar um destino para que pudesse reintroduzir aquelas serpentes, Rodrigo foi orientado a pedir uma autorização para a implantação de um criadouro e, assim, evitar problemas legais. Procurou o IBAMA e lá o único apoio que recebeu foi o peso das multas, lavradas em seu nome por manter animais ilegalmente em cativeiro. Multas que para serem pagas lhe custariam pelo menos alguns anos de seu salário como médico do SUS.

Os anos foram passando e até hoje o IBAMA não deu uma solução para o seu caso. O órgão alega que ele começou sua “coleção” de forma ilegal. Com o mesmo passar dos anos Dr. Rodrigo desenvolveu diversas técnicas inovadoras no manejo da surucucu, inclusive uma nova forma de manipulá-las: por serem serpentes grandes, podendo chegar facilmente a quatro metros, possuem uma coluna extremamente frágil. Quando capturadas por quem não domina a técnica, quase sempre têm que ser sacrificadas, pois a fratura em suas vértebras é quase certa. A maior prova da fragilidade dessa serpente, e também da incompetência de alguns “técnicos”, é que a grande maioria delas acaba morrendo nas famosas operações de resgate de fauna de empreendimentos hidroelétricos.

Mas não foi só uma nova técnica de manipulação que Dr. Rodrigo desenvolveu. Ele conseguiu outro fato raro em se tratando dessa espécie de serpente: dominar a reprodução do animal em cativeiro e, com isso, a chave que pode abrir a porta que irá libertar a surucucu da extinção. Suas técnicas revolucionárias foram publicadas em diversos meios científicos mundo afora. Dr. Rodrigo — o homem da surucucu — é aclamado e aplaudido nos meios acadêmicos internacionais como um herói da conservação. O Núcleo Serra Grande (NSG), a chácara onde o médico desenvolve suas pesquisas, tornou-se referência, ao ponto dele hoje doar veneno dessa espécie para famosos institutos de pesquisa estatais que não conseguiram o mesmo sucesso que ele na manutenção e reprodução dessa espécie.

Já dissertei sobre o homem e sobre as surucucus. Agora chegou a hora de falar da burrice.

O homem das surucucus está a ponto de desistir de seu trabalho. Sem nenhum apoio e privando sua própria família de conforto para poder investir na manutenção do Núcleo Serra Grande, o médico já não tem mais fôlego. A maior parte das despesas para a pesquisa e o cuidado das serpentes sai do seu salário do SUS. Raríssimas e parcas doações de alguns amigos contribuem para amenizar o peso de uma árdua batalha. Se suas descobertas e ensaios científicos são festejados no exterior, aqui ele é execrado por quem deveria ser o primeiro a apoiá-lo. O IBAMA virou o seu perseguidor, seu algoz. O órgão insiste em taxá-lo de traficante de animais e mantém há anos nas suas mofadas prateleiras um reconhecimento de criadouro comercial do Núcleo Serra Grande. Esse reconhecimento é de fundamental importância para que o veneno dessa serpente possa ser extraído e comercializado, contribuindo assim para a sustentabilidade financeira e continuidade dos trabalhos que lá são desenvolvidos. O que o IBAMA promove é exatamente o oposto da sua missão: talvez esteja ajudando a exterminar a única chance de sobrevivência da surucucu-pico-de jaca (Lachesis muta) na Mata Atlântica. Está jogando no lixo anos de conhecimento científico que poderiam ajudar a salvar milhares de vidas humanas. O IBAMA — sustentado por uma legislação ambiental decadente e por um governo que se mostra a cada dia menos qualificado para lidar com a fauna brasileira — vai, por burrice, omissão ou perseguição, dando a sua contribuição para que o Brasil fique cada vez mais atrasado na conservação da diversidade biológica. Vai, por meio da sua inoperância e burocracia jurássica, desestimulando a pesquisa e o trabalho daqueles que se propõe a fazer o que os órgãos públicos não fazem.

Por fim, deixo aqui meu depoimento pessoal:

Há 15 anos dedico uma grande parte do meu tempo no combate ao tráfico de animais silvestres. Todos esses anos, trabalhando diariamente com o tema, credenciaram-me para discernir muito bem quem é e quem não é um traficante de animais. E o Dr. Rodrigo Souza definitivamente não o é. Passei vários dias em Itacaré, entrevistei mateiros, policiais, sitiantes da região e muitas pessoas que foram atendidas pelo Dr. Rodrigo no hospital da cidade. Visitei o NSG e conversei com muitos especialistas no tema. Eu não li a respeito, eu vi. Eu testemunhei e continuarei testemunhando isso publicamente, como faço aqui: o Brasil está caminhando numa direção muito perigosa, retrocedendo a passos largos nas questões ambientais. Casos como o que relatei acima deveriam ter do poder público não apenas apoio, mas principalmente incentivo. Ninguém vai conseguir conservar o que não conhece. O nosso país precisa entender, valorar e valorizar a sua imensa biodiversidade. Caso contrário, vamos continuar na corda bamba no cenário internacional, sendo um país que é visto como uma terra de oportunidades não para os brasileiros, mas principalmente por aqueles que aqui enxergam uma oportunidade de lucro fácil.

Pelo “homem das surucucus” sinto vergonha e orgulho. Orgulho por existir brasileiros como ele. Vergonha por vivermos num país onde a desordem emperra a evolução e, assim, condena o Brasil a continuar vivendo nas sombras.

PS: disponibilizo abaixo o quadro do Fantástico “A rainha do chocolate”, onde essa história nasceu.

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