As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

UM DIA ESSA HORA IRIA CHEGAR… CHEGOU!

Dener Giovanini

03 Abril 2012 | 22h37

Quando somos adolescentes, o que mais queremos e pleiteamos, é o respeito a nossa capacidade de decidir. Nos achamos capazes de escolher o rumo da nossa vida e nos julgamos prontos para dar a palavra final em nossas opções. É um momento de libertação pessoal. Escolhemos a profissão que queremos, os amigos, as próprias roupas, enfim, é a realização de um ideal de liberdade. E é nesse momento, longe da tutela parental, que começamos a cometer os primeiros erros e a fazer apostas equivocadas. Errar nas primeiras escolhas é quase uma sina para todos os adolescentes.

Com o passar dos anos, a maioria se recupera. Trocam de curso na faculdade, mudam de emprego, pedem perdão aos ofendidos e tentam reencontrar o seu rumo. Para outros, as angústias da adolescência deixam marcas para o resto da vida. Tornam-se profissionais frustrados e pessoas infelizes. Alguns não se encontram nunca e se perdem nas drogas ou em outro caminho de igual solidão ou sofrimento.

Hoje, um rapaz de nome Brasil, está prestes a se emancipar. Ele está a um passo de sair da sua adolescência republicana para entrar no mundo dos adultos. No mundo daqueles que precisam ter a responsabilidade de escolher – já – o que serão amanhã. E, assim como os pré-vestibulandos, o Brasil está sendo chamado agora a optar por qual carreira pretende disputar espaço no competitivo mercado futuro da economia global. E esse vestibular chama-se Código Florestal. E essa decisão é, de fato, angustiante.

Num primeiro momento, os jovens tendem a encarar essa escolha de modo simplista e dual. Traçam dois caminhos: a carreira que gostam e sobre a qual paira o prazer da vocação, ou a carreira que mais dá dinheiro. Essa última, quase que geralmente imposta ou forçosamente sugerida pelos pais e amigos.

Com o Brasil não está sendo diferente. De um lado, temos aqueles que dizem que o futuro está garantido no agronegócio, na produção de alimentos e no arrebatamento do mercado através das Commodities (mercadorias) agrícolas. De outro, temos os que acreditam que são nas Commodities ambientais (créditos de carbono) que teremos o diferencial para conquistar espaço no cenário global.

E é nessa dualidade juvenil que estamos nos perdendo.

Hoje, o debate sobre o novo Código Ambiental brasileiro está caminhando – equivocadamente – para um terreno perigoso. Não estamos mais debatendo as possibilidades de futuro. Estamos apenas medindo forças. Disputando a tocha da verdade e levando o futuro da nação a uma decisão entre o bem e o mal.

A briga entre ruralistas e ambientalistas parece aquela discussão da mãe que quer que o filho seja médico e do pai que exige que ele seja advogado. Todos opinam sobre tudo. Todos se acham os donos da razão e se munem de argumentos para provar que estão certos. E nessa disputa, o Brasil, ou melhor, o povo brasileiro, fica quieto, calado, vendo os pais se digladiarem para decidir o futuro do querido filho.

Os ruralistas temem que o novo Código Florestal inviabilize o agronegócio, uma atividade que responde por cerca de 30% do PIB do país e 37% dos empregos no campo e nas cidades. Para que o leitor possa conhecer um pouco mais sobre os argumentos dos ruralistas, posto abaixo um dos inúmeros vídeos produzidos pelo segmento:

 

[kml_flashembed movie=”http://youtube.com/v/JZtfy6PDEMo” width=”425″ height=”350″ wmode=”transparent” /]

 

Já os ambientalistas afirmam que, se o Código Florestal ficar do jeito que os ruralistas querem, haverá um grande aumento no desmatamento, ocasionando graves prejuízos aos recursos naturais do país. Também acusam os ruralistas de usarem a imagem do pequeno agricultor apenas como uma desculpa para conseguirem seus intentos.

Abaixo o leitor poderá assistir a um dos vídeos produzidos pelos ambientalistas:

 

[kml_flashembed movie=”http://www.youtube.com/v/Ce7t5FyfYOI” width=”425″ height=”350″ wmode=”transparent” /]

 

A “demonização” das partes envolvidas, as acusações mútuas e a intransigência de ambos os lados tem desfocado o ponto central do debate: como o Brasil pode conciliar a necessidade de desenvolvimento (inclusive agrícola) com a manutenção dos seus recursos naturais?

O principal espaço destinado a esse importante debate, o Congresso Nacional, já está totalmente contaminado pela intriga, pela falta de respeito e pelo enfrentamento ideológico. O diálogo das idéias cedeu espaço para o conchavo político, para a pratica do toma lá, dá cá e para a chantagem partidária. Para que o leitor tenha idéia do nível do debate sobre o novo Código Florestal, posto abaixo dois momentos bastante representativos do clima que paira sobre aqueles que irão dar a palavra final sobre esse assunto.

No primeiro vídeo, o deputado federal Sarney Filho recebe vaias de representantes dos ruralistas quando prestava homenagem a dois camponeses assassinados no Pará. Veja bem a que ponto chega a irracionalidade e a insensatez dos autores de uma manifestação inadequada e insensível. As vaias proferidas contra uma homenagem, a duas pessoas assassinadas brutalmente, desqualifica totalmente os seus autores.

 

[kml_flashembed movie=”http://youtube.com/v/1SQXoz78qIk” width=”425″ height=”350″ wmode=”transparent” /]

 

Nesse outro vídeo, abaixo, podemos ver um dos inúmeros momentos de enfrentamento entre ruralistas e ambientalistas nos corredores do Congresso Nacional. A cena deixa claro que o espírito de entendimento e conciliação já não existe mais.

 

[kml_flashembed movie=”http://youtube.com/v/4FuuCv1jsr0″ width=”425″ height=”350″ wmode=”transparent” /]

 

No embate destinado a impor “vontades” e convicções, os dados científicos ou as projeções econômicas são desmoralizadas ou utilizadas apenas nas partes que interessam a um dos lados. A isenção e a racionalidade perderam espaço para a passionalidade de argumentos vazios e isolados. O debate de alto nível, sério e fundamentado unicamente nos interesses nacionais está cada vez mais distante. Desse cenário emerge cada vez mais um futuro sombrio e preocupante para o jovem Brasil.

O biogeógrafo Jared Diamond, em seu livro Colapso – Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso (Ed. Record/2005) descreve claramente situações muito apropriadas para o Brasil atualmente. Ele nos apresenta, de forma bem fundamentada, o chamado “suicídio ecológico”, que ocorre quando as nações tendem a colocar a ganancia financeira acima da capacidade dos seus recursos naturais.

Cabe aqui mencionar também as reflexões do pensador Nassin Taleb em seu livro A Lógica do Cisne Negro – O Impacto do Altamente Improvável (Ed. Best Seller/2009). Taleb nos ensina como somos frágeis diante da imprevisibilidade das coisas, do quanto é importante “baixarmos a bola” das nossas certezas e atentar mais para as pequenas nuances que podem se transformar em tragédias.

Esperar um resultado positivo para o país após a votação do novo Código Florestal, que deve acontecer ainda esse mês, é ser otimista demais. Não podemos esperar que o fruto da árvore da discórdia seja bom e saboroso. Infelizmente, mantido o atual modelo de enfrentamento, restará ao Brasil um documento altamente perigoso, seja qual for o lado vencedor.

A votação do novo Código Florestal é apenas uma, dentre as muitas escolhas importantes que o Brasil será obrigado a fazer daqui pra frente. E todas, sem dúvida, estarão atreladas de alguma forma, ao tema ambiental.

Se não aprendermos a encarar os nossos problemas de forma madura e responsável, o Brasil continuará seguindo sozinho, perdido em suas escolhas. Pobre jovem.