UM BELO MONTE DE VERDADES
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UM BELO MONTE DE VERDADES

Dener Giovanini

24 Novembro 2011 | 12h42

Desde que publiquei o artigo Um Belo Monte de Interrogações, venho recebendo muitas mensagens de apoio e também de criticas negativas. Permito a publicação de todas no mural desse blog. Com exceção de algumas carregadas de palavrões e ameaças, pois acho que o leitor deve ser poupado de ler baixarias. Fora isso, todas são muito bem vindas, particularmente aquelas que, mesmo discordando do artigo, procuram contra argumentar, apresentando dados ou mesmo apenas expressando uma opinião pessoal de forma educada.

O que me leva a voltar ao assunto de Belo Monte são exatamente os comentários. É muito perceptível a existência de opiniões construídas na base do “ouvi dizer”. E muitas dessas opiniões são de pessoas bem intencionadas, que realmente se mostram preocupadas com a questão de Belo Monte. E é para elas que me sinto no dever de fazer esclarecimentos a respeito de algumas coisas que são ditas sobre essa obra.

Antes, gostaria de esclarecer três pontos. Primeiro, não estou aqui fazendo a defesa da usina hidroelétrica de Belo Monte. Não tenho nenhuma procuração para tanto e muito menos represento qualquer interesse da mesma. Segundo, ao contrário de muitos, conheço bem a região de Altamira/PA. Estive lá gravando uma série que apresentei no Canal Futura nesse ano. Tive a oportunidade de conversar com muitas pessoas e entrevistar índios, políticos, engenheiros da obra e também de participar de eventos da comunidade local para debater a construção da hidroelétrica. Por fim, ressalto que prezo o debate e acredito que nenhuma grande obra, seja ela onde for ou que finalidade tenha, deva estar isenta da opinião e da participação da sociedade em todas as suas fases.

Isso posto, gostaria de comentar alguns pontos que acho fundamentais sobre Belo Monte e que estão sendo distorcidos intencionalmente por alguns segmentos sociais.

ÁREA ALAGADA

A área total que será alagada com a construção da usina de Belo Monte é de aproximadamente 600 km2. É uma área muito pequena, se comparada a outras hidroelétricas brasileiras. Veja o tamanho do reservatório de outras hidroelétricas:

Sobradinho: 4.214 km2

Tucuruí: 2.850 km2

Porto primavera: 2.250 km2

Itaipu: 1.350 km2

Belo Monte: 600 km2

Fonte: http://www.aneel.gov.br

Os 600 km2 de área alagada de Belo Monte não significam 600 km2 de florestas nativas inundadas. Aliás, o que mais falta naquela região do Pará é floresta. Quem visita o entorno de Altamira só encontra pequenas ilhas de mata que, normalmente, estão cercadas por grandes áreas de pasto. Note-se que a taxa anual de desmatamento da Amazônia é de 7.000 km2 por ano (http://www.obt.inpe.br/prodes/prodes_1988_2010.htm ). Ou seja, Belo Monte não passaria de 10% da área total que é desmatada na Amazônia todos os anos; isso se a região de Belo Monte fosse totalmente coberta de florestas, o que não é o caso.

De qualquer forma, os impactos ambientais de Belo Monte não devem ser desprezados ou ignorados, mas é necessário que se diga que eles são ínfimos perto do que está acontecendo naquela região e que, infelizmente, não estão recebendo a mesma atenção. Sugiro inclusive, para quem não conhece o interior do Pará, um passeio aéreo pela região de Altamira, através do Google Earth: (http://www.google.com.br/intl/pt-BR/earth/).

Por sinal, essa semana será votada pelo Congresso Nacional a Medida Provisória 542, que diminui a área de vários parques nacionais brasileiros e que totalizam uma área muito maior que Belo Monte. Alguém se lembra disso? (http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=515391)

 

POTENCIA DA HIDROELÉTRICA

Os críticos de Belo Monte argumentam que a usina só produzirá energia utilizando uma pequena parte da sua capacidade. Isso está correto. Mas cabe esclarecer: Belo Monte só utilizará 42% da sua capacidade (e não apenas 1/3 como insistem alguns) exatamente para diminuir os impactos ambientais. Para utilizar totalmente a sua capacidade de produção, a usina teria que manter um grande reservatório, como os exemplos que já foram dados acima. E foi exatamente por precauções ambientais, que se optou pelo regime de fio d´água, como é conhecido esse sistema.

Veja o que informa diretor da Coppe, Luiz Pinguelli Rosa, em seu artigo “A razão das hidrelétricas”, publicado em fevereiro desse ano:

A potência máxima de Belo Monte é de 11 GW e a média é de 4,6 GW. A relação desses dois valores dá o fator de capacidade de 42%, bem menor que os de Jirau e de Santo Antônio. Entretanto, em geral, as hidrelétricas brasileiras têm fator de capacidade pouco acima de 50%. Esse fator é de, em média, 21% nas hidrelétricas na Espanha, de 32% na Suíça, de 35% na França e no Japão, de 36% na China e de 46% nos EUA.

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Portanto, é de se estranhar que se utilize como argumento contra Belo Monte exatamente aquilo que ela apresenta de mais moderno no mundo – em termos de preservação ambiental – quando se trata da construção de hidroelétricas: a eliminação dos grandes reservatórios. Além disso, mesmo utilizando em média 42% da sua capacidade, Belo Monte fica a frente da China e de vários países europeus.

 

VAZÃO DO RIO

Outro ponto de dúvida sobre Belo Monte é sobre a diminuição da vazão do rio Xingu após a barragem da hidroelétrica. Sim, o rio irá diminuir, essa é uma verdade. Mas é incorreto afirmar que  a vazão chegará ao ponto de impedir a navegação ou a sobrevivência das populações ribeirinhas. As garantias para que isso não ocorra estão nas condicionantes impostas pelo governo e serão alvo de fiscalização dos órgãos ambientais, após a usina ficar pronta. Se forem respeitados todos os compromissos assumidos no RIMA de Belo Monte (http://www.eletrobras.com/elb/main.asp?View={46763BB8-3B05-432F-A206-C8F93CC3BA90}) não haverá motivos para preocupação. Portanto, cabe a sociedade e ao governo monitorar se as recomendações estão sendo cumpridas. E isso vale não só para Belo Monte, mas para qualquer outra obra pública no Brasil.

 

POPULAÇÃO INDÍGENA

Segundo dados das próprias organizações ambientais, que atuam na região de Altamira, a população de índios que serão afetados pela construção da usina de Belo Monte é de:

Terras indígenas e população diretamente afetadas

– Duas TIs diretamente afetadas pela diminuição da vazão do rio: Paquiçamba e Arara da Volta Grande

– Área Indígena Juruna do km 17 da PA-415 será afetada pelo aumento do tráfego na estrada

– População total das três áreas = 226 pessoas

Terras indígenas e população indiretamente afetadas

– TI Trincheira do Bacajá – 673 pessoas

– TI Koatinemo – 144 pessoas

– Arara – 236 pessoas

– Kararaô – 39 pessoas

– Cachoeira Seca – 81 pessoas

– Araweté – 398 pessoas

– Apyterewa – 411 pessoas

Total = 1982 pessoas (http://www.socioambiental.org/esp/bm/loc.asp)

Serão 226 índios afetados diretamente e 1.982 indiretamente. Um número pequeno e, portanto, um problema relativamente fácil de ser resolvido com os assentamentos e as indenizações que estão previstas. Para quem desejar conhecer mais sobre os índios da região, basta acessar: http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?id_arp=3788

Apesar de ser um número pequeno, os 226 índios que serão afetados diretamente, receberam total atenção do diretor norte-americano James Cameron, que esteve recentemente em Altamira, acompanhado de alguns atores de Hollywood, para “lutar” contra a construção de Belo Monte. Cameron, diretor do filme Avatar, ameaçou: “Belo Monte não é um problema só do Brasil. Vou a Washington conversar com os senadores americanos sobre isso”. http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1566681-9356,00-CAMERON+CRITICA+BELO+MONTE+E+DIZ+QUE+PROBLEMA+NAO+E+SO+DO+BRASIL.html” target=”_blank”>

O diretor do filme Avatar, James Cameron, afirma: “Belo Monte não é um problema só do Brasil. Vou a Washington conversar com os senadores americanos sobre isso”

Não satisfeito, James Cameron produziu um documentário chamado Message From Pandora, numa alusão ao filme Avatar. Nesse documentário, que está sendo exibido em várias partes do mundo, Cameron exorta o planeta a lutar contra a hidroelétrica. Veja abaixo:

Será que Cameron fará um documentário sobre a forma com que a petroleira americana Chevron trata o litoral do Brasil?

Já a ONG Amazon Watch, na sua página na internet, em uma tentativa de impedir a construção de Belo Monte, não poupa ofensas à nação brasileira. Como argumento, ela afirma que o Brasil, na época da escravidão, também não queria interferências externas. E dá a entender que, se não fosse a pressão internacional, o Brasil seria um país escravagista até hoje. Esse texto é uma total falta de respeito ao povo brasileiro. Confiram:

http://amazonwatch.org/news/2011/1117-an-assault-on-the-amazon

 

VALOR DA OBRA

A construção de Belo Monte está orçada em 30 bilhões de reais, sendo que desse valor, 80% serão financiados diretamente pelo BNDES, ou 24 bilhões de reais. Já o custo para o Brasil sediar a Copa de 2014, deverá ser de 112 bilhões de reais, segundo um estudo da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib).

Os 24 bilhões de reais que serão financiados pelo BNDES é dinheiro público. Isso é verdade. Porém, por se tratar de um financiamento, esse valor será devolvido ao banco com juros e correção monetária. Isso é fato, pois não se trata de um dinheiro que está sendo doado a fundo perdido.O BNDES está apenas cumprindo o papel para o qual foi criado.

Investimentos públicos em usinas hidroelétricas, hospitais e estradas não podem ser tratados como se fossem um desperdício. Se existe risco de corrupção, de desvios, cabe à sociedade e aos órgãos de controle efetuar uma fiscalização eficiente. Mas não se pode querer que o país deixe de investir em obras de infraestrutura só por que existe a possibilidade de mau uso do  dinheiro público.

Não quero me estender mais. Se fosse para responder cada mentira que é dita sobre Belo Monte iria precisar escrever um livro e não apenas um artigo. Meu objetivo com esse post, como já disse, não é defender Belo Monte, mas apenas mostrar o quanto existe de meias-verdades nos discursos da turma avatariana.

Que fique claro que o Brasil não é uma lua de Pandora.