UM BELO MONTE DE INTERROGAÇÕES
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UM BELO MONTE DE INTERROGAÇÕES

Dener Giovanini

21 Novembro 2011 | 21h01

Num mundo politicamente correto, questionar o senso comum pode ser perigoso, ainda mais se os pilares que dão sustentação ao debate forem constituídos de romantismo exacerbado e de suspeita paixão.

No caso da hidroelétrica de Belo Monte, se por um lado temos algumas inconsistências técnicas e dúvidas sobre os reais impactos causados pela obra, de outro, temos também muitos discursos recheados de ideologias arcaicas, ultrapassadas e desprovidas de sintonia com a realidade brasileira.

A hidroelétrica de Belo Monte – junto com o projeto do novo Código Florestal – se transformou em um ícone da causa ambiental. Para Belo Monte, voltam-se todas as atenções. A hidroelétrica foi alçada a “símbolo de resistência” dos que lutam “por um mundo melhor”. Altamira, cidade-sede da polêmica, transformou-se num campo de batalha entre o bem e o mal. “Nunca antes na história desse país”…viveu-se tamanha comoção e mobilização ambiental. Nem na época da Eco-92, vimos tantos artistas, ONGs e intelectuais mobilizados.

Tudo muito bem, tudo muito bom, tudo muito legítimo. Porém, ficam no ar algumas perguntas fundamentais: qual o objetivo de se lutar contra Belo Monte? O que se quer alcançar? Por que impedir essa obra? As respostas, com certeza serão simples, objetivas e imediatas. Responderão os mais afoitos: Queremos proteger o meio ambiente, os índios e evitar o desperdício de dinheiro público.

Mais uma vez, tudo muito bem, tudo muito bom, tudo muito legitimo. Então partimos para uma pergunta também muito simples, imediata e objetiva: qual a alternativa à Belo Monte? Mas não vale responder com o genérico “energias alternativas”, como a eólica e a solar, pois, tecnicamente, elas ainda estão muito longe de serem fontes energéticas viáveis para um país com o tamanho e a necessidade do Brasil.

Sobram as termoelétricas e a nuclear. A primeira opção geralmente é questionada por utilizar, como fonte primária, combustíveis fósseis, como o carvão ou o petróleo.  A segunda opção sempre levanta suspeita sobre a sua segurança.

Eliminadas todas as opções, voltamos novamente às hidroelétricas, consideradas como uma fonte energética “limpa e renovável”.

Aprofundando um pouco mais o debate, seria natural aplicarmos o conceito – universalmente aceito – de sustentabilidade sobre essa fonte energética. Ela deve ser ambiental, social e economicamente viável. Desta forma, uma hidroelétrica alternativa a Belo Monte deverá atender os seguintes requisitos: estar localizada numa área onde não existam Áreas de Preservação Permanente (APPs); que fique longe de tribos indígenas, quilombolas, assentamentos do MST ou qualquer outro grupo social que seja considerado “frágil” ou minoritário e, mais importante, que tenha cursos de água viáveis para a geração de energia e cujo investimento permita afastar qualquer ameaça de prejuízo.

Parece difícil encontrar áreas no Brasil que atendam todos os requisitos acima? Não só parece difícil. É quase impossível. E é exatamente nesse ponto da questão que um debate sério precisa e deve ser feito. Aqui a conversa não permite mais romantismos ou indagações aventureiras ou idílicas. A partir desse ponto, passamos a falar sobre desenvolvimento do país. Das suas necessidades econômicas e estratégicas para atender uma crescente demanda interna por bens de consumo e empregos.

Se Belo Monte não deve ser feita, então se faz necessário apontar alternativas viáveis e reais. Eliminar Belo Monte não diminuirá a demanda nacional de energia e, muito menos, cessará a necessidade de se construir outras hidroelétricas. Se no rio Xingu não pode, onde é que pode?

Está ai uma questão que as ONGs ambientais dificilmente conseguiriam responder. Se representantes do governo federal fizessem essa pergunta num salão paroquial de Altamira ou em algum outro local onde os movimentos sociais estivessem reunidos, provavelmente veriam uma boa batalha campal. Na Mata Atlântica nem pensar, diriam alguns. Outros bradariam que no Pantanal também não poderia. Provavelmente o local apontado seria o semi-árido ou algum local da Caatinga onde os rios não existem.

Não se trata aqui de se questionar movimentos sociais e ambientais. De apontar heróis ou vilões. E muito menos de defender essa ou aquela obra de engenharia. Mas para o bem do Brasil, está na hora de começarmos a amadurecer o nosso pensamento sobre os desafios que temos pela frente. Uma política ambiental consistente se faz com dados técnicos e não com base em panfletos e passeatas.

Não dá mais para brincarmos de ecologistas de jardim da infância. Brincar de plantar árvores. O ambientalismo sério não pode dar espaço para os aventureiros de plantão. Muitas pessoas, bem intencionadas até, embarcam no bloco da folia verde, acreditando nas meias verdades que são propagadas por pessoas que não tem o menor conhecimento técnico sobre o assunto.

O debate é bem-vindo e saudável, mas ele não pode ser contaminado por questões ideológicas e, muito menos, por posições radicais cuja base, quase sempre, está desconectada da realidade.

O que está em jogo em Belo Monte é mais do que uma obra ou a preservação do meio ambiente. O que se joga lá é a credibilidade do movimento ambientalista. Hoje, uma sociedade entusiasmada e motivada pelas campanhas românticas e simpáticas, dão grande apoio as reivindicações que são feitas por ONGs e movimentos sociais. Porém, essa mesma sociedade, daqui a alguns anos, cobrará e culpará o próprio movimento ambiental caso ocorra algum retrocesso nas conquistas econômicas do Brasil. Alguém tem alguma dúvida com relação a isso?

Mapa do potencial hidroelétrico brasileiro. Imagem: ELETROBRÁS