Protetores x protetores, no meio, os bichos
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Protetores x protetores, no meio, os bichos

Dener Giovanini

21 Março 2015 | 22h16

Faz algum tempo, escrevi um artigo sobre o trabalho que é desenvolvido por pessoas que se dedicam a cuidar dos animais domésticos abandonados, os chamados “protetores”, ou ainda “gateiros e cachorreiros”, CLIQUE AQUI para ler o artigo anterior. Como em qualquer movimento, as divergências de opiniões e até mesmo posições antagônicas entre seus membros se fazem presentes. Com esse grupo não é diferente. Entre eles existem divisões naturais, como os que defendem o total banimento da criação de animais de raça (os donos de pedigree) e os que não se importam com isso. Existem protetores que não comem carne de qualquer natureza. Existem aqueles que gostam de um bom churrasco. Todos esses segmentos e linhas de pensamento são naturais. Fazem parte da democracia. O que não é natural é o enfrentamento cada vez mais acirrado entre eles.

Constantemente vejo nas mídias sociais “recados” duros, sendo disseminados entre um grupo ou outro de protetores. Fica cada vez mais nítido o desconforto entre seus membros sobre a forma de conduzir o debate e as ações desse movimento.

ONGs de protetores são acusadas por outros protetores de serem meras arrecadadoras de dinheiro, outras – aquelas que tentam manter abrigos para animais abandonados – às vezes se tornam o alvo da ira de alguns e são apontadas como mantenedoras de “depósito de bicho”. Vejo ativistas desse grupo – que tem anos de estrada na luta pela proteção animal – serem humilhados publicamente, acusados de serem ultrapassados ou de usarem o movimento apenas para atender uma suposta crise de vaidade pessoal.

Não vou entrar aqui no mérito do julgamento. Não cabe a mim apontar acertos e erros nesse processo, até por que não sou militante nessa área. Porém, como um observador permanente, vejo a cada dia, um movimento importante ser enfraquecido por uma distensão cada vez maior. E mais preocupante: de forma pública.

Como em qualquer disputa, sempre existe um lado mais fraco ou vulnerável. Nesse caso, esse espaço é destinado àqueles que, com determinação e coragem, se dedicam a fazer um trabalho sério e responsável. Na maioria das vezes, atuando solitariamente e com grandes dificuldades para informar, denunciar e mobilizar a sociedade.

Individualmente ou através de suas organizações, esses protetores tem o cuidado de checar informações e, preocupados com a credibilidade do movimento, sempre procuram manter seus blogs, grupos e meios de comunicação em geral sintonizados com a verdade dos fatos. Infelizmente outros não comungam dessa percepção e, numa tentativa – até inocente e bem intencionada – acabam por inundar o mundo virtual com denúncias vazias, falsas e requentadas.

Também parece existir, por parte de alguns grupos mais organizados, alguma indiferença e, até mesmo, certa repulsa pelos protetores que agem de forma independente. Isso não é uma característica que aflige apenas os protetores de animais domésticos. No movimento ambientalista em geral, também existem preconceitos de organizações mais estruturadas em relação aos que preferem manter-se distante da selva burocrática. De forma jocosa, as pessoas que optam por atuar com independência são chamadas de INGs (indivíduos não governamentais) por certos grupos da “diretoria”.

Acima de tudo isso está – e assim deverá sempre ser – a consciência de cada individuo que se dedica a causa da proteção animal. Ninguém é dono da verdade absoluta. Cada um faz o que lhe é possível, com maior ou menor tempo de dedicação, com mais ou menos recursos.

Os ativistas que às vezes se sentem sozinhos, em sua batalha cotidiana, não devem jamais se deixarem abater pela arrogância ou pela indiferença dos que se julgam mais capazes ou “preparados”. O valor arrecadado numa rifa ou nas famosas “vaquinhas” com os amigos, vizinhos e conhecidos, com o objetivo de tentar custear um auxílio veterinário ou amenizar o peso de uma dívida numa casa de ração, é muito superior aos números estampados nas – quase sempre – poucas cédulas que são juntadas. O verdadeiro valor está na grandeza de se doar pelos que precisam.

Infelizmente esse esfacelamento do movimento tende aumentar. Quanto mais força e visibilidade tiverem na sociedade, maiores serão as chances de surgirem oportunistas querendo tirar proveito. Maiores serão as tentativas de se “apoderarem” do trabalho alheio e mais conflitos surgirão. Hoje, por exemplo, muitos políticos estão fazendo pose com cachorrinho no colo, mas poucos são os que têm história e compromisso com esse grupo.

O verdadeiro protetor não é aquele que se apodera de um título pomposo ou que ofertam algumas migalhas para ocuparem os holofotes, agindo como se fossem líderes ungidos e predestinados a pastorear um rebanho de ovelhas obedientes. Assim como não são protetores os que fazem questão de alardear, através da mídia, a sua “generosidade” e a sua “benevolência” para com os animais. Esses podem até serem “estrelas”, mas sempre serão cadentes, como aquelas que riscam o céu e desaparecem a seguir.

Jamais uma guerra foi ganha pelos generais, mas sim pelos soldados que entraram no campo de batalha, onde as patentes importam menos do que a própria capacidade de se reinventar, de resistir.

O verdadeiro protetor é aquele que aprendeu a dialogar com o silêncio de seres que não falam. É aquele que, mesmo na solidão humana, jamais se sente só.

Para esses últimos, meu sempre respeito e admiração.

Foto: Tasso Marcelo/ESTADÃO

Foto: Tasso Marcelo/ESTADÃO

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