Por que o Brasil não assinou a Declaração de Nova Iorque Contra o Desmatamento?
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Por que o Brasil não assinou a Declaração de Nova Iorque Contra o Desmatamento?

Dener Giovanini

27 Setembro 2014 | 14h06

Tenho recebido diversas mensagens de leitores comentando sobre a decisão do Brasil de não endossar o documento que ficou conhecido como a

Documento

, que “pede o desmatamento zero no mundo”. A maioria das mensagens que recebo é de leitores indignados com a postura do governo brasileiro de não assinar um documento de tamanha importância. Na impossibilidade de responder individualmente aos questionamentos e, por entender que muitas outras pessoas também podem estarem “chocadas” com a situação, decidi fazer esse artigo para tentar esclarecer alguns pontos importantes sobre esse caso. Vamos a eles:

O primeiro ponto a ser observado é exatamente o significado desse “documento”. Esse tratado não é uma posição oficial das Nações Unidas e muito menos um documento formal da ONU sobre desmatamento. Cabe esclarecer que as Resoluções, Acordos Internacionais ou Convenções patrocinadas pela ONU levam muitos anos para serem redigidos. São necessários inúmeros encontros internacionais entre as nações para que se chegue a um acordo mínimo entre as partes. Essa Declaração de Nova York está muito longe disso. Trata-se de uma carta de intenções, talvez nem isso. O mais apropriado seria chamá-lo de abaixo assinado. Se na internet estivesse, se classificaria como uma “Petição Virtual”, dessas que vemos circular todos os dias nas timelines da vida. Não entro aqui no mérito das boas intenções dessa iniciativa. Todos nós queremos desmatamento zero, poluição zero e champagne Cristal na mesa. Mas entre o desejo e a vida real existe uma enorme caminho, principalmente quando estão em jogo interesses tão distantes quanto a necessidade de ampliação de áreas agricultáveis na África e a manutenção dos painéis luminosos da Times Square.

O segundo ponto é a representatividade da tal Declaração de Nova Iorque. Dos 193 países membros da ONU, apenas 32 assinaram. Isso não desmerece os propósitos dos seus idealizadores. Mas cabe ressaltar que ao lado da assinatura dessas nações, está a assinatura de 40 empresas multinacionais. Algumas delas com um lamentável histórico de agressões ambientais. Não vejo nenhum sentido em ver a assinatura do presidente brasileiro ao lado das assinaturas dos presidentes da McDonalds, Danone, Cargill e Loreal. Por falar nisso, a Cargill produz, entre outras coisas, ração para engordar boi. A McDonalds vende boi entre seus pães. E onde são criados os rebanhos de bois? Geralmente em pastos onde antes existiam… florestas. Só está faltando a Loreal começar a produzir máscara facial de Óleo de Peroba.

Por conveniência política ou esperteza, o governo brasileiro até deveria ter assinado o tal documento. Afinal, ele diz que o nosso país é um grande exemplo a ser seguido. Um lugar onde a produção agrícola é uma aliada da preservação das florestas! Segundo a Declaração, “o Brasil demonstrou que é possível fazer o progresso em larga escala”! E até afirma que reduzimos em 71% o desmatamento em relação ao período de 1996-2005. Que maravilha isso não? Vejam, está lá na página oito da Declaração:

É preciso um olhar atento e, principalmente, não emocional sobre as questões ambientais para entender o que está nas entrelinhas do discurso fácil e romântico. As dezenas de organizações ambientais e os governos subnacionais(?) – como são chamados os estados e províncias de alguns países que assinaram essa Declaração –  pregam, com boa ou má intenção, apenas um discurso agradável aos ouvidos dos doadores com os bolsos cheios e ao povo com a mente vazia.

A verdade dói e incomoda. Não existe e nem existirá desmatamento zero e poluição zero com o atual modelo de desenvolvimento econômico que norteia a comunidade internacional. Em nenhum momento da história humana se conseguiu conciliar desenvolvimento com a conservação dos recursos naturais. Isso é fato. Todos – absolutamente todos – os países que alcançaram um nível de desenvolvimento socioeconômico confortável o fizeram à custa da degradação ambiental. Isso é indiscutível.

Se de fato a humanidade quer encontrar a resposta que nos leve a conciliação entre desenvolvimento e conservação dos recursos naturais, é imprescindível começarmos a enxergar a realidade como ela é. E isso será um processo muito doloroso. Principalmente para aqueles que se sustentam vendendo sonhos e falsas esperanças.

Por enquanto, a champagne Cristal na mesa é um sonho bem mais realista.

UN Photo/Amanda Voisard