O desafio urbano da América Latina
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O desafio urbano da América Latina

Dener Giovanini

21 Agosto 2012 | 23h54

O estudo divulgado hoje pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) trás algumas informações importantes – e preocupantes – para o Brasil. A principal delas reside no fato do nosso país ocupar a quarta pior colocação no ranking da distribuição de renda na América Latina. Pior que o Brasil, somente Colômbia, Honduras e Guatemala. A posição brasileira desnuda uma realidade quase sempre esquecida por aqueles que adulam a pujança econômica do país: apesar de termos conseguido ampliar a nossa capacidade de gerar riqueza, ainda não aprendemos a distribui-la de forma a promover a justiça social.

E é nas grandes cidades que a discrepância social se torna mais aguda. Segundo o relatório Estado das Cidades da América Latina e Caribe, 80% da população dessa região do globo vive em centros urbanos, sendo que 14% reside nas chamadas megacidades, um contingente de aproximadamente 65 milhões de pessoas.

Para nós, brasileiros, é fácil perceber a deterioração acentuada da qualidade de vida nas grandes cidades do nosso país. O trânsito cada vez mais caótico, a crescente especulação imobiliária e o aumento das áreas de favelização e a consequente ocupação desordenada do solo, são indícios sérios de que algo não vai bem com a gestão das nossas cidades. As vésperas das eleições municipais no Brasil, o relatório das Nações Unidas pode dar uma imensa contribuição sobre um debate que se torna cada vez mais urgente: como vamos equacionar o necessário desenvolvimento econômico com a conservação dos nossos recursos naturais e a manutenção da qualidade de vida?

As conquistas econômicas do Brasil de nada servirão se não resultarem na implantação de um modelo sustentável de desenvolvimento. Do contrário, não passará de uma ilusão fugaz e eleitoreira que se diluirá frente a uma sociedade cada vez mais descrente de seus governantes. O caminho mais apropriado para evitarmos esse quadro incômodo é o que leva ao planejamento estratégico de longo prazo para o desenvolvimento urbano e ao diálogo com a sociedade.

A maior parte das cidades brasileiras, incluindo as de médio porte, já sentem os efeitos do crescimento desordenado. A mobilidade urbana nos grandes centros é cada vez pior. A falta de um transporte público eficiente – e digno – contribui cada vez mais para o aumento do número de carros nas ruas. A ausência de ciclovias e a falta de segurança desestimulam a população a buscar meios alternativos para se deslocar nas cidades. Tudo isso gera, além de desconforto e irritação social, danos irreparáveis ao meio ambiente e a saúde humana. O aumento da poluição atmosférica leva cada vez mais pessoas aos postos de saúde, tornando esse serviço ainda mais congestionado e ineficaz. A maior parte dos deslizamentos de encostas é um reflexo direto do descaso das autoridades públicas com a fiscalização ambiental.

O documento da ONU deixa claro que não podemos mais continuar com o atual modelo de desenvolvimento. Ele não se presta mais a atender as nossas necessidades atuais e muito menos consegue apontar soluções para os nossos desafios futuros. É evidente que cabe aos governos, em todos os níveis, a responsabilidade maior para solucionar esses problemas, mas a sociedade também deve se mobilizar, cobrar soluções e assumir a sua parcela de responsabilidade. Uma boa oportunidade para isso será a escolha dos próximos gestores municipais nas eleições de outubro.

Clique na imagem para acessar o Relatório da ONU