Ligue a TV e aprenda como desrespeitar animais
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Ligue a TV e aprenda como desrespeitar animais

Dener Giovanini

17 Agosto 2013 | 16h54

No meu último post aqui no Blog, toquei numa questão que considero fundamental em qualquer relação e, mais ainda, quando a mesma envolve um ser humano e um animal: o respeito. Esse sentimento tem se tornado cada vez mais raro atualmente, especialmente quando um dos protagonistas da relação é um animal silvestre. E as emissoras de TV tem sido um dos principais instrumentos de disseminação de uma mentalidade medieval e cruel: tratar bichos como se fossem coisas.

Alguns programas de TV, particularmente os veiculados em emissoras por assinatura, como o Discovery Channel e a NatGeo, são pródigos em inundar a programação com demonstrações de desapego a ética e ao bom senso. Mostram, sem pudor, pseudo profissionais das ciências biológicas promovendo maus tratos e até mesmo em alguns casos, matando animais silvestres sem dó e sem piedade.

Os defensores dessas bizarrices televisivas alegam que esses programas têm como mérito aproximar o telespectador comum da natureza, transformando-se assim, em baluartes da “educação ambiental”. Nada mais falso. A única coisa que esses programas fazem, de verdade, é ensinar que se pode invadir o habitat dos bichos, capturá-los, estressá-los, exibi-los como se fossem objetos descartáveis e, como grand finale, certificar a “coragem” e a “valentia” daqueles que se prestam a fazer o ridículo papel do “aventureiro”. A glória maior vem quando um desses apresentadores se machuca ou mesmo morre, como aconteceu com o “caçador de crocodilos” Steve Irwin, que morreu em 2006, vítima da sua própria irresponsabilidade, ao tentar manipular uma raia no mar da Austrália.

Esses “aventureiros”, normalmente travestidos e fantasiados de caçadores ou xamãs da Avenida Paulista, não medem esforços para impressionar o telespectador: provocam os bichos para que possam parecer mais agressivos e ferozes, exaltam o potencial do risco que estão correndo (quase transformando lagartixa em Godzzila) e, não se dando por satisfeitos, tentam demonstrar profundo conhecimento da biologia do animal, o que às vezes, quase transforma o quadro numa comédia de Stand Up.


Fazem isso com o objetivo de cativar a audiência, de conquistar pontinhos no IBOPE. Nos bastidores das produções televisivas que mostram a natureza, corre uma máxima que afirma que sem “interação” não existe ação, e sem ação, a audiência some. Mentira! Falo com conhecimento de causa. Sou proprietário de uma produtora de Cinema e TV, com muitas produções no currículo. Também já apresentei vários programas televisivos. Um deles, inclusive, exclusivamente sobre animais da fauna brasileira, chamado O Brasil É O Bicho, levado ao ar no programa Fantástico da TV Globo, em 2007. Foram 13 episódios com recordes de audiência. E sem nenhum desrespeito aos animais. Digo isso para deixar claro que não é necessário fazer programas apelativos e esdrúxulos para conquistar a audiência. Essa desculpa não cola. Também já recusei muitos trabalhos de clientes que queriam programas “mais interativos e chamativos” envolvendo animais. Isso nunca fiz, não faço e jamais farei.

O telespectador, como consumidor que é, principalmente em se tratando de emissoras por assinatura, não pode e nem deve ficar calado caso entenda que está recebendo um produto ruim. É fundamental que ele tenha uma postura proativa e se recuse a pagar por algo que contribua com atos de degradação da natureza.

Ao governo cabe à fiscalização desses programas, pois muitos deles afrontam descaradamente a legislação ambiental brasileira. Caçar, perseguir e capturar animais em seu habitat é crime previsto em lei. Resta-nos perguntar: esses “aventureiros” têm permissão do IBAMA ou do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBIO) para fazer o que fazem? Se tiverem, qual o funcionário público que descumpriu a legislação ao dar uma autorização indevida? Se não têm, qual o funcionário público que está fazendo “vistas grossas” para os crimes ambientais que, diariamente, invadem as nossas telinhas?

Uma boa atitude é o telespectador começar a se manifestar publicamente contra essas aulas de violência contra os animais. Podem apostar que uma simples frase do tipo “desaprovo o desrespeito aos animais que está sendo mostrado no programa tal”, postado no Twitter das emissoras, tem um grande efeito de alerta:

Twitter NatGeo Brasil

Twitter Discovery Channel Brasil

Twitter IBAMA

Twitter ICMBIO

E, claro, use o seu controle remoto!

PS: este foi o último texto que escrevi aqui no Brasil antes de uma longa jornada. A partir da próxima segunda-feira estarei na África onde, pelos próximos meses, gravo mais uma produção cinematográfica. E garanto: com muito respeito e amor pela dignidade dos animais. Manterei os leitores informados. Até breve!

Na foto de divulgação do programa “Desafios Mortais”, encontramos a seguinte legenda: “Os métodos de investigação de Brady Barr não são muito convencionais, mas sem dúvida são a melhor forma de conhecer o verdadeiro mundo animal”.
A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: SUFOCAR UMA SERPENTE, COBRINDO SUA CABEÇA DESSA FORMA, É EDUCAÇÃO AMBIENTAL?