ICMBIO e a Ararinha-Azul: um país na beira do abismo
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ICMBIO e a Ararinha-Azul: um país na beira do abismo

Dener Giovanini

07 Março 2014 | 17h59

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) através de um dos seus centros de pesquisa, o CEMAVE (Centro Nacional de Pesquisas e Conservação de Aves Silvestres), acabou de lançar um edital para a contratação de um consultor, que ficará encarregado de coordenar o Livro de Registros Genealógicos (studbook Keeper) da espécie Cyanopsitta spixii, a Ararinha-azul. Entre as atribuições desse profissional estão: elaborar o Protocolo de Manejo para a espécie, orientar e supervisionar a adoção de medidas de manejo estabelecidas no protocolo, identificar indivíduos da espécie com potencial de integrar o programa, identificar instituições mantenedoras para participar do programa, recomendar ao Coordenador do Programa indicação para entrada ou saída de mantenedores, elaborar e manter o studbook da espécie, avaliar a variabilidade genética da população da espécie em cativeiro, e recomendar ao Coordenador do Programa de Cativeiro da espécie os pareamentos necessários.

Na prática, esse consultor do ICMBIO vai tomar todas as decisões sobre essa espécie – talvez a mais ameaçada de extinção da biodiversidade brasileira. O último registro desse animal na natureza foi entre os anos de 2000 e 2001. Restam pouco mais de 70 exemplares em cativeiro, os últimos da espécie e, também, a última oportunidade de preservação dessas aves.

O Edital lançado pelo ICMBIO é a prova cabal da incompetência, do descaso e da falta de sensatez dos responsáveis pela gestão da biodiversidade brasileira. E a razão é simples: esse consultor deverá prestar os serviços VOLUNTÁRIAMENTE! E pior: o Edital tem abrangência INTERNACIONAL. Ou seja, fica nítido que o mesmo destina-se a contratar algum pesquisador estrangeiro que possa ser pago por algum “patrocinador” interessado nessas informações tão preciosas e importantes. O ICMBIO demonstra com essa atitude não ter o menor respeito pelo patrimônio brasileiro. Um típico caso de lesa-pátria.

Caso eu esteja absolutamente enganado e o ICMBIO queira contratar um “consultor voluntário” apenas por que não tem dinheiro para investir nesse programa de conservação, fica provada irresponsabilidade desse órgão e do Ministério do Meio Ambiente. Como podem tratar de um tema tão relevante dessa forma? Na base do “faz um favorzinho ai pra mim pesquisador”?


A falta de respeito com a nossa biodiversidade e, principalmente com os pesquisadores brasileiros, transforma esse edital do ICMBIO numa peça esdrúxula, mesquinha e até criminosa. Tratar os nossos recursos naturais dessa forma é a constatação de que o Brasil chegou ao limite do abismo. E pior: carregando em seus braços a nossa rica diversidade biológica.

Em tempo: dos cerca de 70 exemplares da Ararinha-azul existente no mundo, 50 pertencem ao Xeque do Qatar, Saoud Bin Mohammed Bin Ali Al Thani.

Com a palavra o povo brasileiro e o Mistério Público Federal.

Uma Ararinha-azul é a personagem central do filme Rio. Se depender do Ministério do Meio Ambiente, a nossa política e gestão nacional de fauna continuará sendo tratada apenas como uma peça de ficção. (Imagem: divulgação)