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IBAMA dá show na TV. Show de incompetência, é claro!

Dener Giovanini

28 Janeiro 2015 | 14h52

A série sobre o tráfico de animais silvestres, que vem sendo exibida durante essa semana no telejornal Bom Dia Brasil, da TV Globo, apesar de me parecer bem intencionada, mostra apenas como o jornalismo, de um modo geral, ainda é raso e inconsistente ao abordar os temas ambientais.

Uma das matérias (CLIQUE AQUI) começa explorando de forma bastante teatral – inclusive com o uso de câmera presa ao corpo de um fiscal – uma incursão da fiscalização do IBAMA num sítio onde, pretensamente, flagrariam um traficante de animais silvestres em ação.

As imagens mostram o fiscal do órgão ambiental correndo desesperadamente numa estradinha de terra, pistola em punho e paramentado no melhor estilo rambo, como se estivesse num campo de batalha localizado entre as fronteiras da Síria e do Iraque. Corre o fiscal prá lá, corre o fiscal pra cá, adentra numa casinha humilde e faz a sua formidável descoberta: não havia ninguém ali a não ser algumas sofridas aves presas em gaiolas. O fiscal então se limita a quebrar as tais gaiolas e a soltar os passarinhos, numa ruminante estratégia de destruir as provas de um possível crime. Sensacional! A Polícia Federal deveria aprender como se faz. E agora as Polícias Militares também já sabem: se entrarem numa casa e encontrarem um veículo que seja suspeito de ser fruto de roubo, não há outra coisa a fazer: faz fogueira com ele.

Até aqui a reportagem do jornalista Carlos de Lannoy mostra apenas o óbvio: a fiscalização do IBAMA é muito boa para intimidar gente pobre da Caatinga. Disso todo mundo sabe. O que talvez muita gente não sabia, e que a matéria ajudou a esclarecer, é que o IBAMA não tem inteligência o suficiente nem para prender um pobre lavrador em fragrante delito. E falo de inteligência operacional, de estudo, de planejamento. Ou seja, armam o circo, preparam o show e esquecem de se certificar por onde andaria o ator principal, que no caso é o humilde lavrador suspeito de tráfico de animais. Podiam pelo menos ter estudado um pouco mais os hábitos do “perigoso” meliante, para saber a hora que ele se encontraria em casa. Ficaria mais bonitinho na telinha da TV.


Enquanto isso, o tráfico de animais corre solto na cara do IBAMA. Ou melhor, corre nas telas dos computadores. Se o órgão quisesse de fato mostrar competência, ao invés de espetáculo insosso, bastaria seus “rangers” navegarem na internet para localizar milhares e milhares de anúncios de venda ilegal da fauna brasileira. Economizariam muito em roupas camufladas e passagens aéreas para o sertão.

A matéria continua na mesmice de sempre. Passarinho na gaiola aqui, passarinho na gaiola acolá e mais meia dúzia de gente pobre tentando se defender dos microfones impositivos e da postura intimidadora do IBAMA. Uma típica ação de Estado degolando alguns miseráveis, para mostrar poder e dar um pouco de satisfação a uma sociedade que banca uma estrutura governamental falida e desacreditada.

Nada, absolutamente nada de novo. Nenhum questionamento ou abordagem mais profunda sobre o tema. A reportagem limitou-se a velha fórmula estereotipada “pobre=bandido”.

Já se aproximando do final, a matéria mostra uma juíza de Direito que possui uma cobra como um animal de estimação. A magistrada apresenta os documentos que mostram que o animal é de origem legal, que foi adquirido num criadouro autorizado e que possui as devidas Notas Fiscais. Um belo exemplo da juíza.

Exemplo esse que foi transformado em desinformação jornalística pela apresentadora Ana Paula Araújo ao afirmar, em tom de reprovação e de quase deboche, que a juíza estava dando um mau exemplo “ao retirar a serpente da natureza e aprisioná-la“. Pelo visto a apresentadora não estava prestando a mínima atenção na reportagem que estava sendo exibida ou então ela não sabe diferenciar legalidade da ilegalidade. Tomara que a juíza não decida processá-la para que ela aprenda um pouco mais a respeito dos meandros jurídicos.

Na matéria exibida hoje (CLIQUE AQUI) mais do mesmo outra vez: o fiscal continua ostentando o seu poderoso uniforme de combate na mãe de todas as batalhas: apreender meia dúzia de gaiolas em portas de botequins. E o espetáculo continua: mas dessa vez o IBAMA mostra sua poderosa arma secreta: um talão de multa que dispara milhares e milhares de Reais. Mais uma balela para enganar o respeitável público. O IBAMA provavelmente é o órgão federal que mais aplica multas que nunca serão arrecadas. Se o cidadão multado não pagar a multa, o máximo que pode acontecer é ter seu nome inscrito no CADIN e ficar impedido de fazer convênios com o Poder Público. Creio que o dono do botequim ou a dona que casa multados na matéria não tenham a mínima pretensão de se tornarem fornecedores do governo federal.

Essas duas matérias da série que está sendo apresentada pelo Bom Dia Brasil já são o suficiente para constatarmos o gravíssimo estado de degradação das políticas ambientais brasileiras. O IBAMA, nos últimos anos, tornou-se um símbolo do que há de pior na administração pública: um reduto de burocratas inúteis.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, herdou uma estrutura que foi destruída pela ex-ministra Marina Silva com a criação do Instituto Chico Mendes (ICMBIO) e do Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Mas parece que a Srª Teixeira está cada vez mais empenhada em aprimorar a obra da Srª Silva.

E nesse meio de campo, infelizmente, a fauna silvestre brasileira continua entregue à própria sorte, tendo o seu destino jogado nas mãos daqueles que, ao invés de agirem com seriedade e competência, preferem ficar bancando o Sylvester Stallone na telinha da TV.

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