Dia Mundial do Meio Ambiente. O que comemorar?
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Dia Mundial do Meio Ambiente. O que comemorar?

Dener Giovanini

04 Junho 2016 | 22h45

O Brasil é uma nação que possui grandes e difíceis desafios. Se por um lado temos abundância de recursos naturais, por outro, ainda não conseguimos definir claramente uma agenda eficaz para garantir a harmonia entre as nossas necessidades sociais, econômicas e ambientais. Dentre todos os desafios, nenhum é mais complexo do que encontrar o ponto de equilíbrio entre a promoção do desenvolvimento nacional e a conservação da biodiversidade brasileira.

O caminho mais seguro para enfrentarmos as adversidades que se impõe à nação brasileira é a construção de políticas públicas eficientes, claras e objetivas. Porém, no Brasil, essas políticas são elaboradas e regidas prioritariamente pela política partidária e pela temporalidade dos governos. Falta-nos ainda a solidez de uma política ambiental de Estado.

A ausência de um rumo em nossas políticas públicas implica em imensas perdas para a nossa diversidade biológica, principalmente por estimular o sistemático avanço sobre as nossas reservas naturais e acarretar um acelerado e descontrolado processo de desaparecimento dos biomas nacionais.

Desde 2003, o Brasil vem assistindo a um constante e forte retrocesso em suas políticas de meio ambiente. Ações como o enfraquecimento do Ibama, através do seu esquartejamento para a criação do ICMBIO e demais órgãos sem estrutura, é apenas um dos muitos exemplos de uma gestão ambiental equivocada. Como resultado, assistimos à consolidação de um cenário caótico e deletério para a conservação da biodiversidade.

Assim como numa lavoura abandonada, onde na terra enfraquecida brotam apenas as ervas daninhas, a ausência de uma gestão ambiental qualificada dá margem ao surgimento das soluções fácies e simplistas.

Soluções que agradam aos ouvidos afoitos por palavras de conforto, mas que na prática apenas contribuem para piorar o que já é muito ruim. Quando transportadas para a conservação da biodiversidade, essas propostas simplistas e maniqueístas – a doutrina do profeta Maniqueu que divide o mundo entre o bem e o mal – causam estragos irreparáveis e duradouros.

O simplismo se apresenta, por exemplo, quando vendem a ideia de que se você comprar um carro elétrico ajudará a resolver os problemas inerentes ao uso de combustíveis fósseis. Mas poucos são os que questionam de onde virá a energia para mover esse veículo. Quantas hidroelétricas de Belo Monte precisaremos construir na Amazônia, ou no Pantanal, para abastecer uma frota veicular como a que temos em São Paulo? Quantas barragens de Mariana precisaremos construir para fornecer minérios para fabricação de novos veículos movidos por essa energia “limpa”? Ou esses novos e salvadores carros dispensarão o uso do plástico, da borracha e do aço?  Nada é tão simples.

Já o maniqueísmo aparece quando, por preconceito, desinformação, ou mesmo má-fé, constroem-se discursos cheios de romantismo pueris para o agrado de plateias desavisadas e ansiosas por se livrar da culpa e da responsabilidade com as desgraças do mundo. O maniqueísta ganha apoio quando oferta a seus seguidores soluções mágicas e redentoras. Todos ficam felizes quando descobrem que basta comprar um detergente biodegradável para espiar seus pecados e salvar o planeta. São as indulgências medievais transformadas em indulgências ambientais do novo século.

O Brasil não pode – e nem deve – construir uma gestão ambiental que dê espaço para argumentos cheios de boas intenções, porém vazios de praticidade, como por exemplo, a proposta de intocabilidade total dos nossos recursos naturais. Não podemos fingir que não consumimos. O que precisamos é encontrar meios que nos permita consumir de forma mais racional e menos predatória. Também não se pode – e não se deve – consolidar políticas de Estado com base em visões filosóficas ou ideológicas. Opções de vida são escolhas pessoais e merecem ser respeitadas, porém, não nos servem como estratégias de conservação ambiental e muito menos devem permear qualquer decisão governamental.

A agenda ambiental brasileira é complexa e ainda está muito longe de oferecer um futuro mais promissor e menos preocupante para a sociedade. E continuaremos distante de um cenário confortável se não compreendermos que precisamos valorizar e valorar a nossa biodiversidade, de forma que os nossos recursos naturais sejam propulsores do desenvolvimento nacional, e não um entrave, que precisa ser eliminado para o benefício de poucos.

Imagem: NASA/Divulgação

Imagem: NASA/Divulgação