De quem é a culpa pela morte de Harambe?
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De quem é a culpa pela morte de Harambe?

Dener Giovanini

01 Junho 2016 | 11h35

No último fim de semana, a morte do gorila Harambe, que vivia no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos, provocou comoção e indignação em várias partes do mundo. O belo animal, com mais de 200 kg foi abatido a tiros, após uma criança cair em seu recinto e, em poucos minutos, o fato ganhou as redes sociais. Logo começaram a surgir comentários e acusações desprovidas de qualquer fundamento técnico sobre o ocorrido. Uma multidão se pôs a acusar o zoológico pela decisão de sacrificar o animal e algumas ONGs extremistas enxergaram na situação uma grande oportunidade para alimentar o seu discurso contra os zoos. Uma petição na internet pede a prisão dos pais da criança por negligência e já conta com quase 400 mil assinaturas. Quando a emoção é grande a razão se acanha e poucos foram os que trataram o fato como ele é: um acidente. Um lamentável acidente.

O recinto onde estava Harambe foi inaugurado em 1978. Durante 38 anos nenhum incidente havia ocorrido. O Zoológico de Cincinnati desenvolve um importante trabalho de pesquisa e conservação dos gorilas, particularmente os da espécie de Harambe, conhecida como a dos gorilas das planícies ocidentais. Essa espécie está ameaçada de extinção, principalmente no Congo, onde a caça ilegal e a perda de habitat são ameaças constantes. A escolha de abater o animal deve ter sido umas das mais difíceis para a equipe do zoológico. Mas diante das circunstâncias e do imediatismo que a situação requeria, não existiam muitas escolhas. Sedar o animal seria impossível pois, além de demorar a fazer efeito, a ação sedativa poderia fazer o gorila perder o controle e machucar seriamente a criança. Outras alternativas, como o uso de redes, também se mostravam inviáveis devido ao grande tamanho do recinto e pela constante movimentação do animal naquele momento.

A situação se tornou mais ainda dramática quando imagens gravadas em vídeo começaram a circular na internet. Em uma delas, como o leitor poderá ver abaixo, Harambe parece um ser muito mais assustado com o barulho provocado pelos gritos dos que lá estavam, do que propriamente um animal agressivo. Apesar de Harambe ter arrastado o menino pelo recinto, sua atitude não parecia ser ameaçadora ao ponto de colocar a vida da criança em risco.

Tomar uma decisão de atirar em Harambe naquele momento, como dito, deve ter sido muito difícil, principalmente porque aquela espécie, em especial, era uma grande motivação e orgulho de toda a equipe do zoológico de Cincinnati.

No caso dos pais da criança, eles deveriam estar mais atentos, sem dúvidas. Mas seriam eles seres tão cruéis ao ponto de não se importarem com a vida de um filho? Quantos pais e mães já não passaram por situações semelhantes, onde, apesar de toda a atenção, num breve segundo de distração, o pior acontece? Seriam esses pais merecedores das ameaças de morte e de todas as condenações do mundo virtual?

Como dito anteriormente, a razão acanhada abre espaço para todo o tipo de julgamento, desde aquele mais frio, raso e imediato, até aquele que nos desqualifica como seres racionais.

Um caso semelhante aconteceu recentemente num zoológico no Chile, onde leões tiveram que ser sacrificados depois que um homem invadiu o recinto, numa tentativa de suicídio. Mais uma vez, poucos foram aqueles que se perguntaram as razões que levaram o jovem a um ato tão desesperado. Muitos foram os que acusaram impiedosamente a família do rapaz e outros tantos foram os que tentaram, mais uma vez, se aproveitar de uma tragédia para faturar no discurso.

Tanto a triste morte de Harambe, quanto a dos leões do Chile, são acidentes trágicos. Acidentes que requerem o máximo esforço para que não voltem mais a acontecer. Tentar desacreditar os importantes trabalhos de conservação, que instituições como os zoos de Cincinnati e Santiago realizam é uma demonstração de falta de informação. Ou má fé.

Foto AP

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