Contaminação do mar de Búzios pode ser apenas a ponta do iceberg: vídeo exclusivo mostra mancha misteriosa ao redor do navio MSC Preziosa
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Contaminação do mar de Búzios pode ser apenas a ponta do iceberg: vídeo exclusivo mostra mancha misteriosa ao redor do navio MSC Preziosa

Dener Giovanini

25 Fevereiro 2014 | 17h04

O Blog Reflexões Ambientais recebeu, com exclusividade, um vídeo gravado por uma passageira do navio MSC Preziosa. Nas imagens, registradas no último dia 21 (sexta-feira), é possível ver uma enorme mancha amarelada em torno do navio. Segundo a passageira, a mancha se concentrava apenas ao redor da embarcação, que estava atracada muito próxima às praias do município de Búzios, no interior do estado do Rio de Janeiro. De acordo com a autora das imagens, outros navios que estavam no local não apresentaram tal anomalia.

No último fim de semana, cerca de 60 banhistas que entraram na água na Praia da Tartaruga, em Búzios, foram intoxicados por substâncias ainda não identificadas pelos órgãos ambientais. Muitos tiveram reações alérgicas como náuseas, olhos irritados, manchas na pele e lesões nas vias aéreas.

Assista às imagens:

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Ouça a entrevista exclusiva com a passageira que enviou as imagens:

Procurada pelo Blog, a assessoria de imprensa da MSC negou veementemente que o navio MSC Preziosa ou qualquer outra embarcação da empresa tenha algo a ver com a contaminação das praias daquela região. Segundo a assessoria, as manchas no entorno dos navios são apenas o resultado do funcionamento dos motores das embarcações remexendo o fundo do mar, uma vez que a profundidade naquele local é pequena. “É possível que seja lodo, algas, plantas e outras coisas presentes no fundo do mar. Este tipo de mancha é comum quando os grandes navios passam em áreas mais rasas, fazendo com que o que está no solo suba até a superfície. Acredito que seja isso que a passageira filmou, já que passa a impressão de sujeira e na verdade é de materiais do próprio fundo do mar”, afirmou Renata Asprino, diretora de atendimento da Máquina RP, empresa responsável pela comunicação da MSC.

Atentado à biodiversidade marinha

Se, de fato, a mancha vista no vídeo é resultado da ação dos motores dos navios revolvendo o fundo do mar, isso não diminuiu a gravidade do problema. Outro dano ambiental sério pode estar aparecendo: na região de Búzios foram criados – pelo Decreto Municipal 135, publicado em 2009 – uma Área de Preservação Ambiental Marinha (APA) e o Parque Natural dos Corais (CLIQUE AQUI), exatamente para proteger a biodiversidade marinha daquela região. A APA tem 20.830 ha de extensão e abriga diversas espécies endêmicas, que só podem ser encontradas ali. Um dos destaques dessa riqueza biológica são os corais, como os das espécies Coral-de-Fogo (Millepora alcicornis) e a Gorgônia, ou Orelha-de-Elefante (Phyllogorgia dilatata), ambos já ameaçados de extinção.

A própria associação que representa as empresas de cruzeiros marítimos, a CLIA Abremar (Cruise Lines International Association/ Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos), emitiu uma nota pública onde condena a imprensa pela “espetacularização da notícia” no caso da contaminação das praias de Búzios. Porém, na mesma nota em que ataca a imprensa, a associação apresenta uma defesa frágil e inconsistente, e volta a afirmar que algumas manchas no mar são apenas fruto da movimentação do solo do oceano causado pelas hélices dos navios. Veja o trecho da nota abaixo. Para acessar a nota na íntegra, CLIQUE AQUI.

“Navios com esse porte tecnológico não produzem vazamentos de óleo ou de outras substâncias. Mesmo ancorados, eles mantêm um motor ligado para permitir a geração de energia, a operação dos tenders e a estabilidade por conta de vento e maré, podendo movimentar a areia ou lodo do fundo do mar, situação que pode ser confundida por leigos como manchas ou vazamentos”.

Nesse caso, leiga parece ser a Abremar, que trata o fundo dos oceanos apenas como um amontoado de areia e lodo, demonstrando desconhecer a vasta e rica diversidade biológica presente nos solos marítimos. Biodiversidade que pode se liquefazer sob as hélices dos navios.

Ouvido pelo Blog, o secretário municipal de meio ambiente de Búzios, Carlos Alberto Muniz, foi categórico ao falar sobre esse tema: “o nosso compromisso é com o meio ambiente e não com as empresas de cruzeiros marítimos. Búzios não depende dessas embarcações. Para nós, a conservação ambiental está em primeiro lugar. Sempre ouço chantagens de empresas que ameaçam abandonar o município. A diversidade marinha da região tem que ser protegida e o que vimos foram imagens claras que mostram o solo oceânico sendo remexido. Isso não é coisa da cabeça de ninguém, é um fato”. Ainda de acordo com o secretário, o município de Búzios é o quinto destino brasileiro mais procurado por turistas.

Uma história sem fim

Não é de hoje que são registradas agressões ao litoral brasileiro causadas por navios de cruzeiro. A própria MSC, em janeiro desse ano, foi acusada por um passageiro de jogar sacos de lixo no litoral de Fernando de Noronha, CLIQUE AQUI para relembrar a história. O caso teve grande repercussão e causou revolta em muitos brasileiros.

Para saber que providências foram tomadas sobre esse caso, o Blog procurou a Marinha brasileira. A Oficial de Comunicação da Marinha no Paraná, tenente Kelly Frizzo, informou que no dia 6 de janeiro foi aberto um inquérito para apurar a denúncia do passageiro Sérgio Oliveira, que filmou o descarte de lixo no litoral brasileiro. Segundo a Oficial, o inquérito encontra-se na fase de tomada de depoimentos. Ela assegurou que a tripulação do navio da MSC será ouvida e informou que o processo aberto pela Marinha tem o prazo de 90 dias, a partir da data de abertura do inquérito (em 6 de janeiro deste ano), para ser concluído, podendo ser estendido em até um ano. Após esse período, os resultados apurados serão encaminhados ao Tribunal Marítimo para que sejam tomadas as providências cabíveis.

Imagem do fundo do mar de Búzios, onde – para as companhias de cruzeiros marítimos – só existem lama e lodo. Foto: Manual dos Conselheiros – Parque Natural dos Corais/Búzios.