Ciência e má-fé
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Ciência e má-fé

Dener Giovanini

05 Setembro 2014 | 17h50

Em artigo publicado na imprensa na data de hoje, um dos principais mentores econômicos da candidata Marina Silva, Eduardo Giannetti, expõe suas lamúrias e afirma que os críticos da sua candidata situam-se no espectro da ignorância e da má-fé. Giannetti compara jornalistas, colunistas e blogueiros a franco atiradores e, mais uma vez, coloca Marina Silva na condição de vítima de perseguição. Para justificar seu lamento, cita Nelson Rodrigues: “A nossa reputação é a soma dos palavrões que inspiramos nas esquinas, salas e botecos”. Giannetti afirma que enquanto Marina “estava fora do páreo, prevalecia a indiferença condescendente”.

Giannetti tem toda razão quanto a indiferença que existia em relação a atual candidata, antes da tragédia que vitimou Eduardo Campos. Era uma indiferença que refletia exatamente a significância de Marina Silva no cenário político de então: apenas uma vice que sairia da campanha de 2014 muito menor do que entrou, que não transferiu votos para Eduardo Campos e que só serviu para atrapalhar sua candidatura. Essa é a verdade. Isso é o fato. Nem os mais otimistas dos “sonháticos” poderiam imaginar que um velho e carcomido bibelô se transformasse em protagonista das eleições de 2014.

Marina Silva, em 12 de agosto passado, véspera do acidente que vitimou Campos e sua equipe, era apenas uma figura menor e sem importância no processo eleitoral. Ela e seus seguidores “sonháticos” estavam condenados ao esquecimento devido a pequenez do seu desempenho político. Tão inexpressivo que sequer teve força para transformar o movimento REDE em partido. Isso é outro fato.

Catapultada aos holofotes pela emoção do momento – impulsionada pelos veículos de comunicação que só deram cobertura semelhante nas mortes de Tancredo Neves e Airton Sena – a vice chorosa e cabisbaixa estampou as manchetes. A partir de então, deu-se uma segunda tragédia: setores importantes da sociedade, com peso suficiente para instigar emoções e que andam descontentes com a gestão do PT no governo, viram na viúva extra oficial uma oportunidade de potencializar a concorrência à Dilma Rousseff. Acreditaram que o fortalecimento de Marina Silva tiraria votos de Dilma. Deu errado. Exageraram na dose e, como no rastilho de pólvora dos R$ 0,20 do ano passado, a situação saiu do controle. Marina Silva, antes apenas a vice do terceiro colocado, se transformou no símbolo do “contra a tudo isso que ai está”.

Nada mais natural e correto que agora Marina Silva seja sabatinada, questionada e até pressionada a se posicionar sobre temas que são fundamentais para os destinos do país. Que ela não está preparada para responder é outro fato que se concretiza ante as constantes correções do seu Plano de Governo e, principalmente, pela sua dubiedade frente às questões mais delicadas – e não menos justas – que ela é chamada a enfrentar.

Giannetti, assim como outros membros de sua equipe, estão percebendo que é bom polarizar Marina Silva com temas como religião. Querem transformar a eleição numa guerra divina, numa batalha entre crentes e não crentes. Numa luta da boa-fé contra a má-fé. Assim sinaliza Giannetti ao afirmar em seu texto que “Marina acredita em Deus”. Ou seja: contra ela está quem não acredita.

O fato de Marina Silva ser evangélica não desqualifica em nada a sua pretensão de ser presidente da República. Assim como não a desqualificaria se ela fosse homossexual, espírita ou lutadora de boxe. O que importa não são as convicções íntimas do candidato e sim, a sua capacidade de mostrar-se forte e resistente às pressões e apresentar um raciocínio claro, objetivo e firme. E essas virtudes Marina Silva não têm. Isso também é fato.

Ao contrário do que tenta demonstrar, a candidata do PSB apresenta-se permanentemente em contradições. Seu Plano de Governo já mudou diversas vezes sob a alegação de “erros técnicos” ou de “reposicionamento”. Suas falas se perdem em divagações incompreensíveis e conflitantes. Marina Silva muda tudo o tempo todo, só não muda o coque do cabelo.

É fácil para qualquer eleitor constatar a insegurança ideológica da candidata. Basta pesquisar na internet, nos jornais ou mesmo assistir às entrevistas dela sobre temas como energia nuclear, demarcação de terras indígenas, transgênicos, união estável de pessoas do mesmo sexo, etc.

Marina Silva ocupa agora a mais perigosa das posições num processo eleitoral. Parece ter alcançado o seu teto e deve lutar para manter as intenções de votos que hoje possui, até a data da eleição. Não será nada fácil. Serão 30 dias de corda bamba para uma candidata cambaleante. Uma eternidade para quem não se preparou, ou melhor, nunca acreditou que chegaria nessa privilegiada e ao mesmo tempo desconfortante situação.

A principal estratégia da candidata é se apresentar como um produto novo.  Como se fosse um detergente recém-lançado, ignorando o fato de que há décadas frequenta as prateleiras do varejo. E ai reside a sua maior contradição: no supermercado de Marina novo é o empoeirado item que muda de posição nas gondolas.

Giannetti convoca, em seu artigo, os eleitores de Marina Silva a embarcarem no debate entre ciência e fé. Uma arapuca da má-fé. Cairão nela aqueles que acreditam no debate raso. E superficialidades de momento só interessam a Marina Silva e àqueles que não têm nenhuma responsabilidade com o futuro do país, pois como diria o mesmo Nelson Rodrigues de Giannetti:

“O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma.

Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.” 

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