Brasil, um grande laboratório da humanidade
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Brasil, um grande laboratório da humanidade

Dener Giovanini

17 Abril 2014 | 17h55

 

O Brasil segue firme em seu papel de palhaço de circo: aquele que é

festejado por todos quando está no picadeiro, mas que

não desperta nenhuma graça quando retira a sua maquiagem.

Nesse país de extensão continental, possuidor de uma gigantesca biodiversidade, o mundo assistirá nos próximos anos à batalha do milênio: o desafio de conciliar o necessário desenvolvimento socioeconômico com a imprescindível conservação dos recursos naturais. Infelizmente, até hoje nenhum país do mundo conseguiu vencer esse desafio. Todas as nações desenvolvidas, sem exceção, pagaram com a sua própria biodiversidade os custos do progresso. O Brasil, para o bem ou para o mal, criará um modelo para os países megadiversos, particularmente àqueles que se encontram no Hemisfério Sul do planeta, onde ainda estão concentrados os últimos remanescentes de riqueza biológica do mundo. O que aqui for feito será copiado e reproduzido.

Atualmente, o governo brasileiro está dando sinais claros de que está fazendo a pior escolha: repetindo modelos de desenvolvimento equivocados, que priorizam o consumismo imediato para aquecer o mercado local, em detrimento de um modelo mais equilibrado e estável. Um exemplo dessa política desastrosa está na redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para forçar o aumento na venda de veículos. Veículos esses que vão sufocar ainda mais as grandes cidades brasileiras, que carecem de transporte público eficiente e se estrangulam no nó da mobilidade urbana. Enquanto o mundo busca alternativas viáveis para o uso dos combustíveis fósseis, o Brasil aposta todas as suas fichas no pré-sal. O deslumbramento com as grandes obras de infraestrutura quase sempre se transforma em pesadelo quando é analisado o gerenciamento ambiental.

O Brasil está cada vez menos confiável para o investidor, seja ele nacional ou estrangeiro. Quem aqui aportar seu dinheiro estará correndo o risco de se ver cercado pela insegurança jurídica, pelos maquiados números da economia e pela falta de transparência na condução da política ambiental. Temos leis demais, eficiência de menos e praticamente nenhum planejamento real e factível para investimentos futuros. A dívida pública brasileira cresce assustadoramente e já corrói cerca de 50% do orçamento federal. Faltam-nos estradas de ferro, portos e malha rodoviária condizentes com um país que ocupa a sexta posição de maior economia do mundo. Vivemos como feirantes subdesenvolvidos, vendendo commodities a preço de banana para importarmos bens manufaturados a um custo altíssimo. Privilegiamos a importação dos produtos chineses descartáveis e emporcalhamos os nossos rios com os dejetos de uma indústria atrasada e de cidades com redes de esgotos arcaicas.

Se por um lado temos um governo que aprecia o imediatismo, por outro temos uma considerável parcela da população — munida de alguns trocados vindos dos programas federais de distribuição de renda — que anseia pelo consumo. E ai reside o cruzamento perigoso. Como negar o direito ao consumo a uma sociedade que há muito espera por essa oportunidade? Como vamos dizer a essa população que não podemos consumir como os nossos irmãos do Hemisfério Norte? Essa conta não fecha. Ou se fecha, é negativa, principalmente para a manutenção dos recursos naturais brasileiros. O Brasil segue firme em seu papel de palhaço de circo: aquele que é festejado por todos quando está no picadeiro, mas que não desperta nenhuma graça quando retira a sua maquiagem.

O nosso país, historicamente, sempre jogou os debates ambientais no campo das ideologias político-partidárias. Refletir sobre ambientalismo há muito deixou de ser uma atividade acadêmica e técnica para se tornar uma mera questão de contabilização de votos. Poucos são os políticos brasileiros que têm coragem de se posicionar com franqueza e honestidade frente aos nossos desafios ambientais. Em sua grande maioria, os políticos pregam um “sonho” inalcançável, alardeiam palavras confortáveis e vazias, repetindo o velho discurso ambiental da década de 1980, quando a conservação do meio ambiente era sinônimo de plantar uma árvore, fumar um baseado e beijar um passarinho.

O Brasil avançou ao levar a reflexão ambiental para o movimento social e também ao incorporar as reflexões sociais no debate ambiental durante a década de 1990. Essa “mistura” foi essencial para a construção de uma visão holística da nossa realidade. Porém, nos esquecemos de um ator não menos importante: a visão econômica. Ambientalistas não podem mais atuar sem estarem sintonizados com as diretrizes da economia, e muito menos os economistas podem fazer qualquer prognóstico sem colocar em pauta as variáveis ambientais do nosso país.

A tríade meio ambiente/organização social/economia é fundamental para traçarmos o rascunho do futuro que queremos. Um planejamento que não privilegie esses três componentes estará fadado ao fracasso. Não podemos mais ignorar essa interação e muito menos continuar a viver num país onde o futuro sempre termina na próxima eleição. Se continuarmos nesse caminho, não haverá retorno. Nem para o Brasil e nem para o mundo. Infelizmente.