Agronegócio: a força que vem do campo pode quebrar a ponte de Temer
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Agronegócio: a força que vem do campo pode quebrar a ponte de Temer

Dener Giovanini

22 Dezembro 2016 | 13h11

As recentes manifestações públicas de representantes do agronegócio e do setor ambientalista são, no mínimo, decepcionantes. Uma Nota à Imprensa, divulgada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), sugere que os ambientalistas não passam de um punhado de gente sensacionalista, que gosta de fazer drama para aparecer. Em artigo publicado na imprensa, um dirigente da ONG Instituto Sócio Ambiental (ISA) chama os ruralistas de chantagistas. O nível desse debate, com esse tipo de argumentação, seria até compreensível se situado estivesse no pátio de uma creche. É constrangedor constatar que a imaturidade ainda é a base dos discursos de dois setores que deveriam se esforçar na construção de um diálogo mais do que necessário.

Esse estranhamento mútuo nos remete aos idos da década de 80, onde ambientalistas e sindicalistas travavam uma infrutífera batalha ideológica. Na época, os sindicalistas viam nos ambientalistas uma séria ameaça aos seus empregos. Afirmavam que “ecologia” era coisa de veado e maconheiro e que as “exigências” dos ambientalistas iriam lhe custar os empregos. Já os ambientalistas achavam que os sindicalistas não tinham a menor preocupação com a qualidade de vida dos trabalhadores, que só se interessavam pela manutenção das benesses advindas dos seus cargos nos sindicatos.

De fato, o início da construção do moderno pensamento ambiental brasileiro foi carregado de tintas ideológicas. Esse processo começou com o retorno de vários exilados políticos ao país, que trouxeram na bagagem uma nova visão sobre a relação do ser humano com a natureza. Entre eles estavam figuras importantes da nossa história ambiental, como Fernando Gabeira, Carlos Minc e Liszt Vieira. As “ideias libertárias” que esse grupo tentava plantar no Brasil, chocavam-se com o tradicional ambientalismo acadêmico que reinava nos trópicos. Dessa forma, houve um distanciamento do debate científico e um imediato alinhamento com o movimento da esquerda política, que também estava num processo de organização. Mesmo com a desconfiança de alguns setores mais ortodoxos dos movimentos populares, como os sindicatos, a bandeira da ecologia transformou-se, a partir de então, numa “causa”.

Com raras exceções, até hoje o debate ambiental no Brasil continua sendo influenciado mais pelo matiz ideológico do que pelos seus aspectos técnicos. Isso fica explícito, por exemplo, na Nota à Imprensa da Frente Parlamentar da Agropecuária, que se autodeprecia ao afirmar que todo o esforço da entidade é “para impedir que uma singela perereca obstrua os caminhos do tão sonhado e desejado desenvolvimento econômico e social”.

Por outro lado, os ambientalistas também não conseguem reconhecer que o Brasil é extremamente dependente do Agronegócio e que essa atividade sofre uma constante pressão de expansão. E não conseguem porque, no fundo, também não possuem respostas convincentes e concretas para responder a uma questão que é crucial: como estimular o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, estabelecer uma agenda ambiental eficiente? O fato é que nenhum país ao longo da história conseguiu encontrar uma resposta para esse desafio que, hoje, o Brasil tem que enfrentar. Nenhum país foi exitoso nesse aspecto. Nenhum!

O embate entre ruralistas e ambientalistas ainda não chegou às “vias de fato”. Mas chegará em breve se a Frente Parlamentar da Agropecuária continuar insistindo no confronto, como fez recentemente o deputado federal (PSD-MG) Marcos Montes, presidente da entidade, em um artigo onde afirma que o setor não está contente com a atuação do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho.

Quando assumiu a Presidência da República, o presidente Michel Temer disse que iria construir uma “ponte para o desenvolvimento”. Na realidade ele tentou edificar várias. As tais “pontes” de Temer sempre tiveram um objetivo básico: construir um diálogo com a sociedade e assim conseguir legitimidade para o exercício do cargo. Mas quase todas desmoronaram ou estão prestes a isso. Caiu a ponte de Temer com a Cultura. Caiu a ponte de Temer com os trabalhadores. Está ruindo a ponte de Temer com os empresários. Pelo uso de material de má qualidade ou por incompetência dos engenheiros escolhidos pelo presidente, Temer está cada vez mais isolado.

Restam poucas pontes que ligam Michel Temer à sociedade civil organizada e, uma das mais sólidas até o momento é a do Meio Ambiente. Pressionar a Presidência da República – como está fazendo a FPA – para substituir o ministro Sarney Filho é fazer a opção pelo confronto. Se esse pleito vier a se concretizar, Temer dificilmente conseguirá um outro engenheiro à altura para manter essa ponte de pé. O atual ministro do Meio Ambiente tem uma história que desperta admiração de grande parte do movimento ambientalista e possui o respeito e a credibilidade necessária para mediar os conflitos. Sem ele, o diálogo acaba de vez.

E sem o diálogo o Brasil continuará sem resposta para a pergunta mais desafiadora da história humana: como promover o desenvolvimento econômico e o conforto social sem comprometer a conservação dos recursos naturais?

Foto: Beto Barata/PR

Foto: Beto Barata/PR