Parto Natural ou Cesárea?

Carol Da Riva

09 Agosto 2013 | 00h09

Amanhã nos Cinemas! Ontem, em casa

“Whenever and however you intend to give birth, your experience will impact your emotions, your mind, your body and your spirit for the rest of your life” – Ina May Gaskin, Ina May’s Guide to Childbirth

Nove anos passam em um segundo, num piscar de olhos. E ao pulsar das pupilas, o mundo muda, remuda. Por vezes, nem tanto. Há nove anos, a nossa adorada revista Vida Simples nos encomendava uma matéria sobre Parto Natural. Era matéria em primeira pessoa, narrando a chegada do meu filho Tiago, “a melhor viagem da minha vida”.

O miúdo nasceu em casa, ao som das ondas da Praia Vermelha em Ubatuba, num gelado amanhecer de maio, em 2004. Na casa: eu, Carol e Pia Zaki Bonnemaison, médica sem fronteiras francesa, mãe de três brasileiros, acostumada a viajar pela África Saariana ajudando mães refugiadas a dar à luz. Tinha também Terra e Pretinha, nossas cadelas fiéis escudeiras. A bolsa da Carol rompeu às onze da noite. E de lá até às sete da manhã foram oito horas de contrações e dores.

Ela respirava e andava em círculos pela casa como uma tigresa na mata. Nua, naquele frio. Era o seu instinto mais animal conectado ao espiritual da luz que se aproximava em ação – parecia em transe.

Zaki passava calma e ajudava com acupuntura e massagem. As seis, a dilatação chegou ao seu máximo. As contrações foram diminuindo de intervalo. Em pleno silêncio, Carol foi usando a força das contrações para parir, totalmente em transe. As 6h56, quando o primeiro raio de sol tocou o quarto, Tiago saiu do útero. Não pude ser o primeiro a apanhá-lo, pois estava inteiro enrolado no cordão umbilical. Zaki girou-o, cortou a corda e o levou ao peito da mãe. Depois foi parir a placenta e eu segurei o guri.

De volta ao peito da mãe, o menino “falou” por quase um minuto, parecendo contar a saga que passara e depois dormiu por 24 horas. Eu nunca mais fui o mesmo. Naquele raro instante, troquei de alma, descobri a delícia do amor incondicional. Não havia dormido a noite inteira, mas sentia-me revigorado para uma batalha. Guardei por dias a calça que usei no parto sentindo todos os odores daquele instantâneo.

Naquela época, o Brasil assumia o primeiro lugar do ranking de cesáreas no mundo. Em algumas clínicas particulares, o índice era superior a 90%. Nosso médico, não vou citar o nome, que se dizia amigo do parto humanizado mostrou para gente em números porque os médicos não queriam mais fazer parto normais ou naturais. “Se eu ficar esperando oito horas o seu filho nascer (como foi o nosso caso), o que o seu seguro me paga por hora é inviável. Vocês têm que me pagar um extra por fora”. Quando se aproximou do parto, seu discurso mudou. “O bebê está muito pequeno, melhor fazer cesárea”.

Mudam as desculpas dos médicos, mas o final é sempre o mesmo. “Seu filho está sofrendo. O cordão enrolou”. E toca para cesárea, uma técnica maravilhosa, que salva tantas vidas, mas não deveria ser a primeira opção da mulher.

Em qualquer hospital do Brasil que a Carol tivesse entrado, seu caso seria tratado como cesárea. Confiamos na nossa intuição e na da Zaki. Meus amigos, pais e tios nos chamaram de loucos. Só a minha avó, Dona Ceres, hoje no auge dos seus 93, deu risada. “Foi assim que tive a sua mãe e os meus outros 4 filhos. Em casa!”

Em 2011 a história se repetiu. Dessa vez com Luisa. Carol ficou grávida e nós estávamos mudando para Bali. Em Ubud, onde ainda hoje vivemos, achamos uma mulher poderosa: Robin Lim. Há 20 anos ela abriu uma clínica, a Yayasam Bumi Sehat (http://www.bumisehatbali.org), para atender de graça as grávidas balinesas. Faz um trabalho de guerrilha para ajudar as mulheres no seu direito maior: o de ser mãe, num país pobre onde o parto custa uma fortuna nos hospitais e a mortalidade infantil é altíssima. Como na data prevista não estaria na ilha, nos colocou nas mãos de Lianne Schwartz, uma parteira australiana doce, estilo fada, que nos treinou para o parto semanalmente.

Na madrugada do dia 16 de novembro de 2011, grávida de 37 semanas, Carol me acordou as 5 da manhã. “Vai nascer”. Fui para varanda meditar, a lua estava linda, iluminando os vulcões e o arrozal. Carol falou: “Vai encher a banheira e liga para a Lianne.” Liguei. “Oi Eduardo, chego em meia hora”.  Dez minutos depois liguei de novo. “Melhor você se apressar Lianne”. Em dez minutos ela e Robin chegaram. Como o parto foi antes do previsto, tivemos a sorte de ter as duas lá conosco.

Meia hora depois, ao som de mantras, Luisa nascia na banheira cheia de flores, assim como Tiago, ao primeiro raio da manhã – o segundo melhor dia da minha vida. Dessa vez pude ser o primeiro a tocar o nenê. Optamos por não cortar o cordão, o chamado Lotus Birth, esperando que ele caísse naturalmente, separando o nenê sem traumas da placenta que o nutriu por nove meses (o que aconteceu três dias depois).  Era engraçado andar com a Luisa, o cordão e a placenta numa cestinha.

Tiago acompanhou tudo. Ajudou a mãe a respirar, trouxe flores e cantou mantras. Ali viu o milagre da vida. Entendeu muito de sua própria história. Foi tudo muito conectado com a natureza, em paz com o universo. Duro pensar na frieza dos hospitais, nos médicos de aventais, mesmo num parto normal. Ou das mães que marcam a hora da cesárea sem combinar com o bebê, sem nem tentar dar a luz, sentir o feeling, com medo da dor. Ok. Vamos respeitar quem toma esta decisão. Afinal, depois dá tudo certo e cresce na mesma, não é verdade? O importante é o amor pelo filho, não é mesmo? E para a mãe? Muda alguma coisa?

Eu não sei! Segundo o médico francês Michael Odent, toda esta experiência em torno do pré-parto, parto e pós-parto afetam profundamente nossa habilidade em amar e se relacionar com o próximo por toda a vida.

É sobre este tema polémico, atual e cativante que trata o filme O Renascimento do Parto, de Eduardo Chauvet e Erica de Paula, documentário independente, que chega ao cinema nacional dia 09 de agosto de 2013.

Os diretores correram o Brasil de norte a sul, das regiões mais pobres às mais ricas, para descobrir a forma de nascer que praticamos e entender porque o país lidera o ranking mundial das cesarianas – com quase 90% de partos cirúrgicos nas maternidades particulares, contra o índice de 15% indicado pela Organização Mundial da Saúde.

Mais do que informações técnicas, combinadas à palavra de especialistas e depoimentos de mães, o objetivo do filme é claro: “levar informação para toda a sociedade sobre a importância de um nascimento respeitoso e humanizado”, diz Érica de Paula. Fica aqui o trailer do filme e que cada um o assista e tire suas próprias conclusões sobre o assunto. Vamos adorar saber a tua opinião.

Link: http://www.youtube.com/watch?v=1zB-5ASFqm0