Uma nova era para o consumo

Rodrigo Martins

03 Agosto 2009 | 20h49

O designer americano Tucker Viemeister, vice-presidente de criação do Studio Red, do Rockwell Group, renomada empresa de design interativo de Nova York, esteve em São Paulo na semana passada para o prêmio Idea/Brasil 2009, que premiou os melhores do design nacional. Viemeister, em sua trajetória de mais de trinta anos de carreira, criou 32 patentes, fundou quatro empresas de design tidas como revolucionárias e já comandou projetos para empresas como Coca-Cola, Procter & Gamble, Gap, Motorola, Nike e Toyota. No meio do caminho, cunhou a expressão “beautility”, que resume a junção entre beleza e utilidade, o que, segundo ele, é o único caminho para o design em tempos de crise.

Visionário, o designer disse, em entrevista ao Estado, que uma nova era de consumo está por vir – onde o duradouro, o experimental deverão sobressair. Os tempos do consumismo exacerbado, do comprar por comprar, estão chegando ao fim. Veja trechos de sua entrevista ao Estadão.

Há espaço para o design em momentos de crise?

Não há dúvidas de que a economia global vai mal, especialmente nos Estados Unidos. Os negócios encolheram, centenas de designers e arquitetos foram demitidos e caiu incrivelmente a demanda por design. No entanto, dispensar o design é uma visão equivocada das empresas. Elas deveriam justamente investir agora em estratégias de design para colher os frutos depois da crise. O design pode apresentar soluções para vários problemas.

Por exemplo?

Estamos vivendo um momento de total mudança nos hábitos dos consumidores no mundo todo, e dos americanos em especial. A crise mostrou que o consumo pelo consumo é insustentável, sob todos os aspectos – econômicos e também ambientais. As empresas estão percebendo que o papel delas não será mais só produzir, distribuir e comercializar coisas. Cada vez mais, aspectos como o serviço e a chamada experiência de compra vão ganhar espaço. A indústria automobilística, por exemplo, está em um momento péssimo porque não se pode mais contar com o fato de que as pessoas vão comprar carros novos a cada seis meses. As empresas não venderão mais o carro, e sim a paisagem, o prazer da viagem. Isso é o que vai fazer a diferença para o consumidor. O design vai caminhar no sentido de prover essas experiências.

Seria o fim do consumismo exacerbado?

É uma grande mudança em curso. Nos últimos 20 anos nos Estados Unidos, a vida das pessoas foi ganhar dinheiro para poder ir às compras. As pessoas esqueceram a diversão, o entretenimento. Mas algumas companhias estão atentas ao fato de que é preciso ser relevante, em vez de só fabricar produtos. Cada vez mais o conteúdo vai importar, em vez do produto em si. Veja o caso da Apple. Eles ganham mais provendo conteúdo do que com os equipamentos em si. É um espécie de desmaterialização da economia.