Soja sem gosto de desmatamento

Rodrigo Martins

02 Dezembro 2010 | 21h22

Ontem o Banco do Brasil anunciou que vetará o crédito agrícola a produtores de soja que tenham plantado em regiões recém-desmatadas da Amazônia. É a primeira instituição financeira a aderir à moratória da soja – pacto firmado em 2006 entre a indústria de óleos vegetais e exportadores de soja, ONGs e Ministério do Meio Ambiente para reduzir o desmatamento na Amazônia.

Com a adesão ao pacto, o banco se compromete, em primeiro lugar, a não financiar a produção de soja em áreas desmatadas no bioma amazônico após 24 de julho de 2006 – data em que o pacto foi criado. O Banco do Brasil também passará a exigir a regularidade ambiental nas propriedades rurais localizadas na Amazônia. Técnicos do banco avaliarão se os fazendeiros estão cumprindo o Código Florestal. Além disso, o banco oferecerá uma linha de crédito específica para que esses proprietários recomponham suas áreas de reserva legal e de preservação permanente – como as margens de rios.

Segundo informou Álvaro Tosseto, gerente executivo de Agronegócio do BB, o monitoramento das propriedades será feita segundo uma lista de desmatadores feita pelo Grupo de Trabalho da Soja, com auxílio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pelo monitoramento dos desmatamentos na Amazônia. “Buscamos com isso otimizar práticas de responsabilidade socioambiental no agronegócio. Isso agrega valor para a sociedade e para os produtores de soja, que já foram criticados por influenciar na degradação da floresta”, diz o executivo.

O Greenpeace, umas das ONGs que assina o pacto, comemorou. “Essa sinalização é importante para o produtor rural, que passa a ter incentivos para preservar parte da propriedade, como exige a lei”, diz Paulo Adário, diretor da campanha Amazônia do Greenpeace. “Por outro lado, é o banco percebendo que dar crédito a desmatador é uma operação de risco”, diz.

A decisão do BB é importante porque o banco é responsável por nada menos que 65% do crédito rural ofertado no País. Está presente em mais de 5 mil municípios, até em pequenas localidades e pode induzir outras instituições financeiras a fazerem o mesmo. Como o BNDES, que financia grandes empreendimentos da pecuária, como frigoríficos – hoje a criação de gado é apontada como um dos principais vetores do desmatamento na Amazônia.

O anúncio da adesão do BB ao pacto da soja foi feita no mesmo dia em que o governo divulgou a menor taxa de desmatamento na Amazônia nos últimos anos: foram derrubados 6.451 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2009 e julho de 2010. É a menor taxa da história, e 14% abaixo dos valores registrados no período anterior. Ainda assim, muito significativa. “Mas o Brasil tem conseguido mostrar que é possível conciliar aumento da produção com a redução do desmatamento”, diz Adário. “A economia vai bem, o agronegócio vai bem, e o desmatamento cai. Esse é o caminho.”

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