Sobre rios

Rodrigo Martins

23 Março 2010 | 02h11

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No apagar das luzes de mais um Dia Mundial da Água, vale refletir sobre a relação das cidades, especialmente as metrópoles, com seus rios. Trabalho na Marginal do Tietê, em São Paulo, e todos os dias vejo o combalido rio paulista arrastar lentamente seu leito lodoso, marrom, colorido ocasionalmente por garrafas pet e sacolas de supermercado atiradas sobre ele de forma impiedosa. Já mostra de cara que nossa relação com o rio não é das mais amistosas. Com o rio Pinheiros a coisa não é diferente, ainda que intervenções paisagísticas tenham tornado suas margens um pouco menos piores, com arbustos floridos e capivaras.

No caso do Tietê, é bom frisar, nem sempre foi assim. Os mais antigos contam com orgulho dos campeonatos de natação e das regatas que eram praticados nas águas límpidas do rio que, ao contrário da maioria, corre para o interior. Veio o ‘desenvolvimento’, a industrialização, e bastaram poucas décadas para que o Tietê virasse a cloaca da metrópole paulistana. E nós compactuamos com isso, e relegamos o rio a esse destino.

Milhões vem sendo gastos em sua despoluição, na última década. Especialistas dizem que talvez em 50 anos tenhamos um Tietê limpo na capital. Mas nossa escolha de dar de ombros para o rio já foi feita.
Explico: mesmo que seja despoluído, com oxigênio voltando às suas águas, os paulistanos não vão passear faceiros por suas margens, nem beber um café observando sua passagem. Não faremos como londrinos ou parisienses, porque o destino do Tietê já foi selado, lá pelos anos 1970, quando as marginais, hoje sufocadas, começaram a ser construídas. Não se iludam. As margens do Tietê são dos carros e caminhões, já perdemos esse ponto de contato vital com o rio.


Londres e Paris, cidades que igualmente se desenvolveram em torno de seus rios famosos, também os maltrataram. O Tâmisa chegou a ser conhecido como “Grande Fedor”, passou por um demorado e complexo processo de despoluição. Conseguiu sobreviver, abriga mais de 100 espécies de peixes, mas infelizmente até hoje voluntários se mobilizam para tirar toneladas de lixo de seu leito, todos os anos. O Sena ainda é considerado um dos rios menos limpos da Europa Ocidental, pois “apenas” 70% do esgoto parisiense é tratado antes de ser lançado em suas águas.

Mas ambas as cidades não perderam sua ligação primordial com seus rios. Em suas margens a vida pulsa em atrações culturais, opções de entretenimento, calçadões que inspiram longas caminhadas, cafeterias, bistrôs. Seus leitos permitem passeios agradáveis – imagine o Sena sem seus bateaux mouches, o Tâmisa sem suas embarcações igualmente turísticas.

Nós, não. Nossos governantes no passado já fizeram a escolha por nós. Ou será que ainda dá tempo de dinamitar as novas pistas da Marginal?